Mostrar mensagens com a etiqueta terrorismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta terrorismo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Alors là, oh là là!

Na série de divulgação do Manifesto POR UMA DEMOCRACIA DE QUALIDADE, republicamos este artigo de João Luís Mota Campos, hoje saído no jornal i.
Gorda, achacada, excessivamente agasalhada, comodista e sem fibra, nervo ou vontade, esta Europa é uma desilusão para quem a imaginou outra coisa.


Alors là, oh là là!
Começa a ser difícil aos seus mais extremos defensores defender a Europa. Gorda, achacada, excessivamente agasalhada, comodista e sem fibra, nervo ou vontade, esta Europa é uma desilusão para quem a imaginou outra coisa.

Os europeus, para o pior ou para o melhor, não necessitam de dar mais provas das suas virtudes marciais Não está em causa a sua capacidade tecnológica, o seu PIB, que é o mais alto do mundo, a sua população de 500 milhões de pessoas educadas, capazes, diligentes e trabalhadoras.

Individualmente consideradas, as forças armadas da França, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da Itália, da Espanha, para dar alguns exemplos, são consideráveis, modernas e bem equipadas; os serviços de segurança destes países são reconhecidamente capazes, argutos e eficientes.

Sendo assim, é caso para espanto que a Europa não possa e não consiga ao menos influenciar os acontecimentos na sua esfera de acção directa, sendo disto exemplo a vergonha por que passámos no Kosovo, em que os EUA intervieram em nome da decência (dos efeitos não falo agora), a Líbia, a Síria, a desorganização que reina no Magrebe e no Próximo Oriente (próximo de nós!), a completa incapacidade da Europa para influenciar acontecimentos no Líbano, em Israel, no conflito com os palestinianos.

A que se deve isto? Na minha opinião deve-se ao pathos que os europeus desenvolveram depois da II Guerra Mundial e das suas atrocidades, em que de repente nos considerámos culpados de todos os males do mundo, que em grande medida colonizámos ou influenciámos durante séculos, assumindo um multiculturalismo e uma interracialidade que a situação de poderes colonizadores poderia justificar, mas que hoje já nada justifica.

Assumimos sobre as nossas cabeças pecados há muito expiados, cobrimo-nos de cinzas e pomos cordas ao pescoço de cada vez que nos relacionamos com o mundo e, sem qualquer orgulho pelos nossos feitos passados, por termos dado novos mundos ao mundo e termos sido os construtores do mundo moderno, um mundo muito mais livre e generoso que aquele que existia, vergamo-nos à chantagem moral dos outros como se algum fado nefasto a isso nos obrigasse.

Diz o “Financial Times” de ontem que o multiculturalismo não é naïf, é uma realidade do mundo de hoje. Vão dizer isso aos árabes, aos chineses, aos japoneses, a todas as nações do Sudoeste asiático e de África, porque eles não sabem e ninguém lhes disse.

O que eles sabem é que uma unidade política, uma unidade cultural que não se defende a ela própria não merece ser defendida. Se os nossos valores e as nossas raízes são bons, cabe--nos a nós defendê-los.

No “Público” de ontem vi uma fotografia que define tudo: no malfadado bairro de Malbeek, em Bruxelas, viam--se pelo menos oito mulheres de véu islâmico posto. Na Bélgica, tal como em França, é proibido…

Em contrapartida, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou há poucos anos a Itália por não proibir uma escola católica de afixar crucifixos nas paredes, expondo assim algumas criancinhas à perniciosa propaganda cristã.

Verdade!

Valéry Giscard d’Estaing, presidente da convenção europeia que se incumbiu de fazer uma Constituição para a Europa, opôs-se ferozmente a que se fizesse no seu preâmbulo a menção às raízes judaico-cristãs da Europa.

Assim é fácil perder a batalha cultural: derrotamo-nos a nós próprios. Pior do que tudo, são os nossos líderes, eleitos por nós, supostamente, que lideram esse combate contra nós próprios. Há poucos anos, a esquerda francesa opôs-se veementemente a algumas medidas em relação aos imigrantes ilegais que Sarkozy se propunha adoptar. Hoje falam já de retirar a nacionalidade francesa aos radicais islâmicos que tenham dupla nacionalidade. Quem? Hollande, um socialista. Veremos quanto tempo lhe dura este assomo de virilidade…

Não vou aqui falar da traição das elites, nem contra os pobres dos refugiados. Não são culpa nossa, mas temos a obrigação cristã de lhes acorrer na hora de maior necessidade. Ao que me refiro é à política absolutamente irresponsável que consistiu na abertura de todas as fronteiras a hordas indocumentadas e desordenadas de refugiados, sem qualquer preocupação de os identificar ou fazer qualquer triagem. Essa política foi defendida pelos nossos eleitos, foi sufragada histericamente pelos nossos parlamentos; o resultado está à vista e muito mais se verá.

Ao que me refiro é à completa demissão que a União Europeia teve na Síria, permitindo que aquilo se transformasse num alfobre de terroristas aqui à nossa porta. Ao que me refiro é a que, em nome do politicamente correcto, estados párias como o Kosovo, vestido e alimentado pela União Europeia, se transformem em placas giratórias do terrorismo e da bandidagem internacional.

E já agora, que a grande preocupação e a nova frente de batalha do multiculturalismo consistam na imposição de etiquetagem dos produtos israelitas provenientes dos colonatos, propondo-nos um embargo desses produtos. O facto de pormos no desemprego dezenas de milhares de israelitas e palestinianos é apenas um detalhe… Isto em relação ao único estado democrático do Próximo Oriente. Triste Europa esta. É a que queremos?
João Luís MOTA CAMPOS
Advogado
ex-secretário de Estado da Justiça

NOTA: artigo publicado no jornal i.

sexta-feira, 20 de março de 2015

EUA versus Estado Islâmico


Enquanto a Europa a cada dia que passa menos existe em todas as vertentes até na militar, os EUA não querem perder, de ânimo leve, para a China o 1º lugar mundial, em tudo.

Sendo que, já deu para entender que Obama ao nada ter a perder nesta fase do seu segundo mandato, vai tentado impor as suas ideias, que vão desde o fecho de Guantánamo até ao um efectivo combate ao ISIS (Estado Islâmico), mas tal implica que trave “guerras internas” com os Republicamos, para ver se consegue prosseguir os seus intentos.

Obama, ainda bem, não é Bush, seria trágico, nem é Republicano, pelo que não repetirá uma invasão despropositada, como a que os EUA fizeram ao Iraque, e a população americana já não alinha.

Mas, para além de ter que não desprezar a “guerra interna” com os Republicanos, tem que conseguir ajudar a Síria, sem perder o Irão a quem se está a aproximar progressivamente.

Com esta Europa pantanosa, meia viva, meia morta, terá também que pensar no segundo Estado Islâmico, que está latente na Líbia, um Pais com guerras tribais – que era controlado pela tirania pelo ditador Kadhafi, e está à deriva, aqui abaixo –, armado até aos dentes, onde matar é algo que a alguns dá gozo.

E Obama, querendo fazer o que assume de melhor como Presidente para os EUA, e evidentemente para o mundo, para poder continuar a ter espaço, se este se destrói e fica pantanosamente na mão dos Jihadistas – que nada têm a ver com o Islão e o Alcorão, só se servem dos nomes para matar, desfazer, e até estragar arte, memórias de séculos – perde tudo.

Estando, agora, já quase fora de tempo, chegou o último momento de Obama justificar se mereceu o Nobel da Paz que lhe foi atribuído antes de tempo.

Tudo demasiado complicado, quando em nome do EI uma criança francesa de 11 anos mata a tiro um israelo-árabe de 19, quando Putin quer ser um Czar do século XXI, quando a Europa se desgoverna a cada minuto que passa, quando as eleições em Israel deram um empate/impasse técnico.

Não pode ser o Papa Francisco a tentar tudo resolver, não vai conseguir apesar de ser muito bom, mesmo para nós não crentes….face à incapacidade e incompetência de todos os outros que teriam obrigação de o fazer…


Augusto KÜTTNER DE MAGALHÃES
18 de Março de 2015

quinta-feira, 12 de março de 2015

Dia Europeu em Memória das Vítimas do Terrorismo - desvalorizado e esquecido


Atocha, Madrid - 11 de Março de 2004

Era mesmo verdade. Como, ontem, aqui receei, as instituições europeias revelam uma tendência preocupante para se esquecerem da memória das vítimas do terrorismo, um flagelo terrível. Quer o terrorismo, quer a falta de memória.

EL PAÍS, 12 de Março de 2004

Ontem, assinalou-se pela décima vez o Dia Europeu em Memória das Vítimas do Terrorismo, no 11º aniversário dos atentados de Atocha, em Madrid. A data solene e memorial foi estabelecida em 2004; e começou a celebra-se em 2005.

Atocha, Madrid - 11 de Março de 2004

Ora, passando em revista o dia de ontem, constata-se que só a Comissão Europeia assinalou - e creio que modestamente, pois nada ecoou pela imprensa - a data memorial. O que a Comissão fez está resumido aqui, nesta página de entrada e de informação, incluindo remissões para os discursos do comissário Dimitris Avramopoulos e da comissária Věra Jourová, num evento organizado para o efeito, em Bruxelas, bem como para vídeos com depoimentos de vítimas do terrorismo e a prévia mensagem geral da Comissão, que já ontem publicáramos. Está de parabéns, em qualquer caso, a Comissão. Pela minha parte, obrigado.

A ilustração da página especial da Comissão Europeia não deixa, porém, de ser significativa e sintomática: é ilustrada por uma fotografia dos líderes políticos que encabeçaram a grande manifestação em Paris, no passado 11 de Janeiro deste ano, a seguir aos atentados contra o Charlie Hebdo e o supermercado judeu. 

É como quem diz - "Foi gira a festa, pá." - e pensa que, em consequência, já não é preciso fazer mais nada de muito relevante quando chega, propriamente dito, o Dia Europeu em Memória das Vítimas do Terrorismo. De 11 de Janeiro para o Conselho Europeu extraordinário de 12 de Fevereiro, e de 12 de Fevereiro para 11 de Março, a União Europeia, a pouco e pouco, foi-se esquecendo de lembrar.

Ontem, num debate na Assembleia da República, sobre questões europeias não deixei de abrir a minha intervenção, abordando o tema. E lamentando a fragilização do dia e da memória. Pode ver aqui o vídeo:


É que, na verdade, nem sequer o pomposo Coordenador Contra o Terrorismo, no âmbito do Conselho, o Sr. Gilles de Kerchove, fez ou disse o que quer que seja, como podemos verificar ao consultar de novo a sua página. Deve ter estado muito ocupado no dia 11 de Março, mas certamente a tratar de outros assuntos que não de terrorismo... Um homem atarefado.

O mesmo concluímos ao rever o que se passou ontem no Parlamento Europeu, que está reunido em plenário em Estrasburgo. Em quase 15 horas de debates, não houve, aparentemente, um só minuto para evocar e assinalar o dia. Extraordinário! Revelador, sobretudo.

Enquanto estive no Parlamento Europeu, várias vezes me ocupei do assunto e lutei contra a derrapagem que descafeína a data solene. Sei que, pelo menos outro deputado europeu, o Diogo Feio, fez esforços e alertas similares, no mandato seguinte. Ainda agora, fazendo uma busca, encontrei registo de uma sua oportuna pergunta parlamentar em 2011 e da resposta que recebeu. Mas, como o Diogo Feio também saiu, parece que já ninguém está lá que se interesse.

Vamo-nos lembrar das vítimas apenas quando for o próximo atentado. E até aí... pouco. Está sempre a acontecer. 

Esta Europa sem memória, nem linha, nem coração é a Europa que não presta.

Monumento em Madrid

Pormenor do memorial junto à estação de Atocha, Madrid

quarta-feira, 11 de março de 2015

Dia Europeu em Memória das Vítimas do Terrorismo - em vias de esquecimento?

21 coptas egípcios assassinados

Hoje, assinala-se o Dia Europeu em Memória das Vítimas do Terrorismo. Foi instituído em 2004, com referência aos terríveis atentados de Atocha, em Madrid - uma proposta do Parlamento Europeu, adoptada e proclamada pelo Conselho.

A sua celebração tem vindo a ser progressivamente "descafeinada", como se fosse matéria sem importância. 

Já está disponível, em língua inglesa, a mensagem da Comissão Europeia relativa à importante data, emitida conjuntamente pelo 1º Vice-presidente Timmermans, pela Alta Representante e Vice-presidente Mogherini e pelos Comissários Avramopoulos Jourová. É, em rigor, a 10ª celebração desta data solene, no 11º aniversário dos atentados de Madrid.

Porém, no portal do Conselho, nada consta, mesmo na página do Coordenador Contra o Terrorismo, Gilles de Kerchove. Nem uma linha, nem uma menção. E, buscando no arquivo, apenas se encontram as evocações em 2013 e 2012. Nada já em 2014, aparentemente. E nada de novo hoje, também. Ter-se-á esquecido?

E, na agenda do dia de hoje do Parlamento Europeu, que está reunido em plenário em Estrasburgo, também nada consta sobre a data. Veremos no fim do dia. 

Habitualmente, o Presidente do Parlamento Europeu emitia, pelo menos, uma declaração solene. Porém, buscando no arquivo, a última menção que se encontra é referente à evocação do Dia, em 2012... É de lamentar. Mais ainda, se recordarmos que a instituição deste Dia Dia Europeu em Memória das Vítimas do Terrorismo foi inicialmente proposta e aprovada pelo Parlamento Europeu, por uma trágica coincidência em 11 de Março de 2004.

Neste ano de 2015, que abriu com os crimes no Charlie Hebdo e no supermercado judeu de Paris, pelas atrocidades do Boko Haram na África Central e pela degola de 21 cristãos coptas pelo Estado Islâmico, é deveras extraordinário. E tristemente sintomático.

Os terroristas nunca se esquecem. A política europeia parece que sim.

Alastra o terror do Boko Haram

Os atentados de Paris


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Por que não pára a ONU a selvajaria?


Há desafios que nos fazem perguntar: para que servem as Nações Unidas? 

As atrocidades cometidas pelos terroristas do Estado Islâmico acumulam-se e alargam-se. E sobem também de tom. A notícia a que reajo é esta: Estado Islâmico queima vivas 43 pessoas

Há dias, fora outra notícia quase do mesmo género: EI executa mais de 40 pessoas e queima corpos no Iraque. Poucos dias antes, fora o massacre de 21 coptas de que os assassinos se gabaram com orgulho: Estado Islâmico divulga vídeo de decapitação de 21 cristãos coptas egípcios. Já quase não tem conta a degola sacrificial de reféns capturados em trabalho humanitário ou jornalístico, o que indigna, choca e envergonha o mundo.

A cascata de crueldade, brutalidade e atrocidades não tem fim. Desde o norte da Nigéria à Síria e Iraque, passando pela Líbia e outros lugares, chegando a Paris, Sydney e Copenhaga, os do Estado Islâmico espalham sangue e terror. A coisa corre o risco de soar - e ser aceite - como banalidade. Que cinismo e indiferença são estes?

Ao mesmo tempo, as notícias dão conta constantemente de novos recrutamentos de extremistas um pouco por todo o lado. E há rumores de teias de cumplicidades, enredos difíceis de explicar.

O que fazem as Nações Unidas? Para que servem? Por que não exigem clareza a todos os países árabes e islâmicos? Por que não exigem clareza e determinação contra o terror por parte de todos os Estados e organzações? 

O Egipto soube reagir fortemente à sádica decapitação dos seus cidadãos. Por que não o fazem todos? Por que não se mobilizam claramente as Nações Unidas? Por que não se isolam os terroristas e todos os que os mobilizam e apoiam?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A União Europeia à beira do abismo

Um artigo que publico, hoje, no jornal PÚBLICO, num momento bem inquietante e muito complexo da Europa.


A União Europeia à beira do abismo

Há um mês apenas, entre 7 e 9 de Janeiro, viveu-se o horror em Paris. Foi o massacre no Charlie Hebdo, seguido de dois dias de caça ao homem e do atentado ao supermercado judeu. O terrorismo voltou a ferir o coração da Europa. As ruas encheram-se de indignação e de protesto. De solidariedade imensa, que convergiu de todo o mundo para Paris, naquele domingo 11 de Janeiro, que pareceu inesquecível e inapagável.
Dir-se-ia que o terrorismo iria marcar a actualidade europeia e centrar todas as atenções. A sua brutalidade e frieza, a memória de atentados anteriores em Londres e em Madrid (para lembrarmos só os europeus), a cobardia velhaca com que ataca, a ameaça global que constitui, o contexto temível do fundamentalismo islâmico que não cessa de agravar-se – tudo apontava para que o terrorismo centrasse todas as atenções.
E, na verdade, logo se anunciou que a próxima Cimeira Europeia – o Conselho Europeu de 12 e 13 de Fevereiro – seria dedicado ao terrorismo e que outra Cimeira mundial ocorreria em Washington, em 18 de Fevereiro. Bem seriam precisas. E oportunas.

A realidade, porém, cavalgou mais depressa. A vitória do Syriza nas eleições gregas de 25 de Janeiro colocou de novo o euro na linha de mira e a questão da Grécia e da dívida outra vez no centro da agenda. Sucederam-se os telefonemas, as viagens, os contactos, as medidas e contra-medidas, os blogues e os tweets, os comentários e as especulações, os mentidos e os desmentidos, os jogos e os contra-jogos – a incerteza cresceu. Por estes dias próximos, as salas do eurogrupo e a sua ansiedade parecem já ter suplantado a agenda contra o terrorismo.
Na mesma altura, o agravamento assinalável da crise na Ucrânia, com a persistência e o crescimento do desafio da Rússia, incentivando o separatismo, abocanhando pedaços do território do vizinho e pondo em causa toda a ordem internacional, puseram-nos mais perto de uma crise militar clássica. Terrível! Já lá vão 5 mil mortos; e pode ser muito pior.
A senhora Mogherini logo convocou uma reunião de emergência dos ministros de Negócios Estrangeiros da União Europeia sobre a crise ucraniana, para 29 de Janeiro. Por coincidência, a reunião que, antes, fora pensada como preparatória da planeada cimeira anti-terrorista de 12 e 13 de Fevereiro. E, por coincidência também, uma reunião em que logo se cruzaram os novos sinais da agenda grega com os sopros do vento Leste, como se uma e outro se pudessem cruzar já, num cocktail de consequências que ninguém quer prever.
A seguir, enquanto ouvíamos as declarações dramáticas do Presidente Poroshenko, vimos uma cimeira em Moscovo com Putin. Quem lá estava? Tusk? Juncker? Mogherini? Não. Foram Angela Merkel e François Hollande. A U.E. existe? 
Centremo-nos, porém, no fundamental, que é o de conseguirem ter êxito, em representação sem dúvida de todos os europeus. Tê-lo-ão? Estiveram em Kiev e em Moscovo. Entretanto, Washington andou aí; e Merkel por lá também. Avançou-se? Merkel e Hollande estarão de novo em Minsk. Evitar-se-á o que já se diz poder ser a “guerra total”?
No meio disto, domingo passado, prosseguindo a sua agenda nacionalista e reafirmando a linha aparentemente mais dura, o novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, anuncia o programa de governo diante do Parlamento grego e puxa do canivete reclamando 162 mil milhões de euros à Alemanha por indemnizações pela ocupação nazi. 


O tempo mediático acelerado em que vivemos provoca uma tremenda erosão das notícias e da actualidade. Parece que nada dura; e que tudo é superficial e passageiro. Mas distrai-nos também dos perigos em que vivemos. Quem diria que, apenas um mês depois, a pavorosa tragédia do Charlie Hebdo já estaria sepultada debaixo de outras inquietações? E estará? Estará mesmo sepultada? Ou apenas dormente?
Na correria dos acontecimentos destes dias, na voragem dos telejornais e dos tweets, não nos damos conta de que estas três frentes questionam directamente os três fundamentos da União Europeia, desafiam-nos frontalmente e colocam-nos à beira do abismo. 
A guerra da Ucrânia e a crise perigosíssima com a Rússia ameaçam-nos a paz, que é o fundamento maior do projecto europeu. Desde 1945, é preciso voltarmos às memórias da crise de Berlim ou da crise dos mísseis, para lembrarmos outra altura em que, como agora, a paz tenha estado tão perto de poder acabar.
A crise do euro e as questões da dívida, de novo reacendidas com a vertigem grega, questionam o segundo fundamento do projecto europeu: integração económica, prosperidade, coesão, bem-estar. 
E o terrorismo ataca e fere violentamente o terceiro fundamento da construção europeia – a liberdade e a democracia, a segurança e o Estado de direito –, ao mesmo tempo que, pelos extremismos que alimenta ou pelos excessos securitários que convoca, cava a sua erosão.
Desde o Charlie Hebdo e do HyperCacher, é este o saldo do mês de Janeiro europeu. Não é coisa pouca. A paz, a prosperidade e a liberdade na linha de fogo – os três pilares europeus no fio da navalha. A coesão e a solidariedade postas à prova em ponto de desafio-limite – os dois cimentos sob teste decisivo. E, diante disto, o que nos dizem os líderes europeus? O que nos contam os deputados europeus? O que nos garantem os chefes dos Executivos? O que nos animam os líderes das instituições?


Nos últimos anos, releio, volta e meia, os Preâmbulos dos dois tratados europeus. Está lá o fundamental. Quantos líderes europeus acreditam nisso? E quantos fazem por isso? 
Neste Conselho Europeu, gostava que relessem em voz alta os dois Preâmbulos. E os decorassem todos outra vez. De Merkel a Tsipras, de Stubb a Renzi, de Cameron a Victor Ponta, de Enda Kenny a Orbán, de Rutte a Hollande.
Podemos continuar à beira do abismo sem nele nunca cair. Mas o melhor é afastarmo-nos do abismo. E retomar a estrada que faz a Europa terra de paz, de liberdade e bem-estar.
José RIBEIRO E CASTRO
Deputado do CDS-PP
Vice-Presidente da Comissão de Assuntos Europeus

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Isolar o terrorismo para o erradicar


Há muito que tenho duas teses, a este respeito, e luto por elas:
  • a primeira é a de que o terrorismo se tornou na maior ameaça aos direitos humanos, nos dias de hoje;
  • a segunda é a de que, se ele continua a movimentar-se com tanto à vontade, é porque ainda não conseguimos o fundamental: a sua definitiva ilegitimação moral no espírito colectivo.
São precisas leis, polícia, informações, medidas, sem dúvida. Mas são também precisos passos, gestos e actos simbólicos que, pela sua carga fortíssima e projecção espiritual, remetam progressivamente o terrorismo para o caixote do lixo da História.

Esse é o tema do artigo que escrevi e pode ler no OBSERVADOR:


tendo o jornal destacado este lead:
«Neste horror de Paris, quem duvida de que, em muitas televisões pelo mundo fora, os irmãos Kouachi e Coulibaly foram seguidos como heróis por alguns olhos ávidos e guardados como exemplo?» 
Mas também aí falamos da Nigéria, do Líbano e de muito mais. Dê-nos a sua opinião e contributo.

Foi também essa a linha da proposta que apresentei à Presidência da Letónia, que comanda este semestre da União Europeia.

Pode ver e ouvir aqui:


Ou ler uma notícia breve aqui

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Requiem indignado por um avôzinho bem disposto


Maryse e Georges Wolinski

Ontem, a escavar ainda e a olhar, estupefacto, o horror do ataque terrorista contra a sede do CHARLIE HEBDO em Paris, tropecei especialmente no nome de uma das vítimas: Wolinski.

Assassinaram Wolinski? Também tinham morto Wolinski?

Sim, era verdade. Ao lado de nomes de cartoonistas mais novos como Cabu, Charb, Tignous, o meu Georges Wolinski estava também naquela mesa sobre que se abateu o selvático fuzilamento pelos dois assassinos mascarados. 

A notícia aumentou o choque que eu já sentia. Wolinski é uma velha referência do desenho satírico francês, com um especial gosto pelo cartoon erótico, com um estilo habitualmente bastante forte e directo ao assunto. Foi, com Sempé - outro grande cartoonista da mesma geração e de género diferente - um dos heróis da minha juventude, em que a cultura francesa ainda pesou muito. Comprei vários dos seus livros. E fui ávido consumidor do seu traço e do seu texto.

Wolinski tinha, agora, 80 anos. Aparece na fotografia acima, em Abril passado, ao lado de sua mulher Maryse, quando saíam da Igreja de Saint-Germain-des-Près, nas exéquias de Régine Deforges, uma escritora sua amiga. Agora, não desenhará mais. E as próximas exéquias serão as suas, por súbita imposição trágica de um bando terrorista.

Poderemos ainda sorrir com os milhares de desenhos que nos legou. Mas já não poderemos experimentar o gozo interminável da sua explosão criativa sobre os dias que ainda virão. Adeus, avôzinho! Fazes falta.

Não há direito.

Clique para ampliar

Clique para ampliar

Clique para ampliar

domingo, 21 de abril de 2013

Os terroristas

Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev

Desgraçado fim de vida vai ser, agora, o de Dzhokhar Tsarnaev, o bombista de Boston, capturado gravemente ferido, depois de uma longa caça ao homem, por toda a cidade e arredores. Tem 19 anos. O irmão mais velho, Tamerlan, morreu no duro tiroteio trocado com a polícia, quando ambos foram localizados, há dias. Ainda mataram um polícia nessa troca de tiros; e Dzhokhar é também suspeito de ter morto o irmão, antes de ter conseguido fugir de novo. 

Nos dias a seguir ao cobarde atentado da Maratona de Boston, em que os irmãos Tsarnaev assassinaram à bomba três vítimas inocentes e feriram quase duas centenas (entre as quais muitas crianças), fez uma vida normal até que a polícia os localizou. Como se não tivesse acontecido nada, foi às aulas e divertiu-se. Tem 19 anos. 

Dir-se-iam imigrantes atrás do american dream, fugidos do pesadelo checheno para a terra de oportunidades americana. Lá longe, no Daguestão, o pai e a mãe juram a inocência dos filhos, enquanto um tio nos Estados Unidos desabafa a sua indignação e vergonha. O que fez uma pessoa assim? O que faz uma pessoa assim? Tem 19 anos.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Tolerância zero, coesão mil

Foto: National Post

Podia ter sido comigo. Podia ter sido com qualquer um de nós. Podia ter sido a tomar o pequeno-almoço com a minha mulher ou a abraçar os meus filhos. Podia ter ido buscar os meus netos. Podia estar a passear o meu cão. Podia estar a andar de bicicleta, num momento de descontracção. Podia estar a ler ou a estudar numa esplanada. Podia estar a trabalhar ali ao lado. Podia estar só a assistir ao final de uma corrida, a torcer por um atleta, a apoiar um último esforço, a entusiasmar-me por um sucesso. Podia estar a embarcar num avião ou já a voar. Ou podia ser num comboio, numa carruagem de metro, num autocarro, num cacilheiro. Podia ser em qualquer lugar, a qualquer hora, em qualquer segundo de azar, onde e quando nunca se está à espera.

É isto que faz tão odioso o terrorismo e tão absolutamente intolerável a ameaça contemporânea do terrorismo global.

Há anos que sustento que esta é a maior ameaça no mundo moderno. A mais sórdida também. Não ataca às claras – é cobarde, escondida, traiçoeira. Não enfrenta forças e poderes – alveja, fere e mata inocentes comuns. Não atinge unicamente a vida e a integridade das suas vítimas – é devastadora também para a segurança, para a liberdade, para a comodidade, para o normal desprendimento do dia-a-dia.

Nada, nem ninguém pode explicar e justificar esta brutal barbaridade em que, volta e meia, nos mergulham. A complacência é tão intolerável como o próprio terrorismo. É também o seu surdo aliado. É preciso erradicar de vez esta ameaça, começando pela sua completa, absoluta, radical ilegitimação. Seja qual for a “causa” que diga servir ou o sector “ideológico” onde se integre, o terrorismo global contemporâneo é a maior ameaça e a mais extensa violação contra os direitos humanos fundamentais. Acabemos com isto.

No Parlamento Europeu, iniciei, em 11 de Março de 2004, o estabelecimento do Dia Europeu em Memória das Vítimas do Terrorismo. Foi no dia dos atentados de Madrid. Ano após ano, tenho-me esforçado por dar mais visibilidade a essa data tão fundamental, uma data de consciência, de solidariedade. de memória, de determinação, de coesão. Muitas vezes, um esforço solitário. As últimas discretas evocações foram em Madrid e numa declaração em Bruxelas, no passado dia 11 de Março. Falta ainda também a declaração universal, no quadro das Nações Unidas, do Dia Mundial em Memória das Vítimas do Terrorismo, onde engasganços burocrato-diplomáticos têm complicado o caminho. É importante consegui-lo. É fundamental reforçar uma coesão de cimento e aço contra o terrorismo e todos os terroristas.

Conheci Boston há 35 anos. Uma cidade maravilhosa, com a sua costa recortada e o Charles River, o Logan Airport, arredores belíssimos, os seus parques e avenidas, carregada de carácter, de história e de tradição, sede de duas das mais reputadas e emblemáticas instituições universitárias dos Estados Unidos da América e do mundo: Harvard e o M.I.T. (Massachussets Institute of Technology).  

Boston não merecia esta chaga. Ninguém merece.

Nos atentados de hoje, que atingiram a chegada da Maratona de Boston, uma das duas vítimas mortais já declaradas é uma criança de 8 anos. Uma criança de 8 anos! Não pode ser.