quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Está decidido e decidido está!


Na bacoca cerimónia de hoje, de inauguração do ano judicial (que começou em Setembro), o Presidente da República afirmou que todas as reformas previstas no memorado de entendimento com a Troika, estão cumpridas. Deve ser defeito do memorando ou do reformómetro, mas eu só vejo conversa fiada.

A Ministra, essa, não faz por menos: "Os profetas do imobilismo, os amantes do caos, os que clamavam para que nada de substancial se alterasse, falharam as suas previsões e intentos. Terminarão os negócios da Justiça. Terminarão os formalismos."

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/os-profetas-do-imobilismo-falharam-diz-ministra=f853174#ixzz2rp0hs8Ek

Ou seja, está tudo bem. Certo? nem por isso...

Eu o que vejo são os mesmos atrasos de sempre, julgamentos marcados no início de 2014, para Novembro de 2015, uma continuada galeria dos horrores...

Mas se a Ministra diz que está tudo bem...! E o Presidente...! Sou eu que estou a ver mal.

O que me espanta é que ninguém vá inquirir se as maravilhosas reformas desta Ministra existem a não ser no papel. Do novo Código de Processo Civil - que concordamos todos, é excelente - falta ver como funciona na prática. Já o Dr. Nogueira nos idos de 90 tinha anunciado um novo CPC maravilhoso, que, depois de mais reformas dialogantes «guterres», deixou tudo na mesma. As grandes reformas da insolvência, das execuções, bom, que dizer? Que são pequenos remendos, uns para pior, outros para melhor. 

Mas soem as trombetas, agora é que é! A Justiça, agora, sim! E a Troika está cumprida.

Oh, meu Deus, era assim tão fácil pôr no papel meia dúzia de objectivos assim-assim e dizer que estão todos cumpridos?

De tudo quanto tenho visto desta Ministra, o que mais vi foi a subida assombrosa das custas judiciais. Lembro-me de uma tal Paula Teixeira da Cruz, que me ameaçava com raios fulminantes, nos idos de 2003, se eu aumentasse um tiquinho as taxas de justiça, era eu Secretário de Estado da coisa. Devia ser prima desta e não se devem falar...

O canto do cisne do socialismo, ou o canto do cisne da União Europeia?


Anda tudo nestes dias preocupado com a «esquerda», depois da rendição ao projecto europeu anunciada por François Hollande.

De repente, a «esquerda» ficou sem bússola, sem road map, como quem diz "o que andamos nós aqui a fazer?".

Nada que não fosse previsível: em 2012, escrevi o artigo que abaixo transcrevo e em que estes dilemas da «esquerda» eram analisados. Sem falsas modéstias, parece-me que acertei na mouche, mesmo sem saber da Dª Gayet...

Aqui vai:
Vai haver eleições presidenciais em França no próximo mês de Abril, 22. Todas as sondagens conhecidas dão a vitória a François Hollande, o candidato socialista. No mundo que nos rodeia há verdadeiramente duas ameaças a temer: uma localizada, o colapso da Espanha, cuja situação é bem pior do que se pensava e que é o nosso principal mercado exportador; a outra, sistémica, a ruptura entre a França e a lógica da zona Euro. Qualquer das duas há-de evoluir independentemente do que possamos fazer, mas uma ou outra podem ser fatais à evolução em Portugal.
Ao contrário do que se possa pensar, os socialistas franceses são mesmo socialistas, no pior sentido da palavra: acreditam nas virtudes do Estado e desconfiam patologicamente da iniciativa privada. Quando em 1981 Mitterand e Giscard fizeram o último debate televisivo antes das eleições desse ano, Mitterand anunciou que se ganhasse procederia à nacionalização da banca, das seguradoras e dos «sommets de l’industrie», ou seja, as grandes empresas industriais, como o grupo Dassault ou a siderurgia. Giscard manifestou o seu profundo espanto com essa posição e apelidou-a de loucura. Mitterand replicou que não era loucura e que tinha sido feito em Portugal em 1975, sem tragédias. Disse e fez: chegado à presidência fez exactamente o que tinha prometido e avançou com as nacionalizações e um reforço absurdo do sector público. A França apesar de duas desvalorizações perdeu competitividade em relação á Alemanha e nunca mais a recuperou. Em 1983-4, Mitterand teria de fazer marcha a trás, mas era tarde de mais: o gap com a Alemanha nunca mais foi tapado.
Entretanto, o desenvolvimento do projecto europeu levou à criação do Euro, no qual nos lançamos decisivamente em 1999. Esse projecto teve desde o início uma evidente fragilidade: a política monetária passou a ser comum, mas não as politicas económica e fiscal. A prazo e perante choques exógenos e assimétricos, cada um dos países da zona euro teriam um evoluir diferente mas uma única politica monetária.
Na verdade, a criação da zona euro foi assente em premissas macro-económicas e fiscais muito claras, regras de ouro, se se quiser: o deficit das contas públicas não poderia exceder 3% do PIB e a divida pública não poderia exceder 60% do PIB; por sua vez a inflação deveria ficar contida numa fasquia estreita não excedendo 1,5% em relação à média dos países da zona.
As crises de 2000-2001 e de 2008 até ao presente encarregaram-se de pôr termo a estes pressupostos e todos os países da zona excederam qualquer um dos dois ratios, alegremente.
O resultado foi que quando em 2008 estourou a crise internacional, os estados da zona euro estavam particularmente mal preparados para fazer face à necessidade de reforçar os amortecedores sociais e o investimento público. Nos mais frágeis assistimos desde então a uma subida permanente e assombrosa dos impostos, a um aumento fulminante da divida pública e a um respeito cada vez menor pela riqueza gerada pelos contribuintes, quer na forma como lhes é colectada, quer na forma como é gasta.
Portugal foi um desses países: gerido pelos socialistas fingiu acreditar que o investimento público, o reforço das prestações sociais e o aumento dos impostos poderiam dar bons resultados ao nível do crescimento económico, esquecendo que o crescimento económico é feito pelos agentes económicos privados e que o Estado só gasta, não cria riqueza.
A realidade triste em que vivemos encarregou-se de desmentir esses pressupostos falsos.
Mas a crise das dividas soberanas que engoliu Portugal, a Grécia, a Irlanda e ameaça a Espanha e a Itália, para citar apenas os mais notórios, tinha como contrapeso a gravitas do centro da Europa e a ideia de que para salvar a zona euro essa Europa aceitaria ser mais redistributiva (assumindo uma parte das dividas excessivas dos “periféricos”) e mais activa (criando os chamados “fire walls”). O eixo Franco-Alemão, mais germânico que francês é certo, parecia constituir no oceano em fúria da crise das dívidas soberanas a amarra sólida do navio europeu.
Alemães e Franceses, é certo, exigiam em troca, maior disciplina financeira e orçamental, maior reforço da coordenação de politicas económicas dos 17 estados da zona, uma melhor governance comum. Houve quem visse nisso o prenúncio do federalismo económico. Em contrapartida - e graças a esse novo ambiente - da maior disciplina comum, o Banco Central Europeu avançou em Março com o maior processo de quantitative easing de que há memória na Europa, ou seja, injectou na economia europeia cerca de 1.000 milhares de milhões de euros, seis a sete PIB’s portugueses.
As ameaças que já existiam mantêm-se, mas a solução para a crise parecia finalmente à vista, se não houvesse males maiores pelo caminho.
Só que agora vêm os socialistas franceses complicar, para não dizer, destruir a equação: aquilo que Hollande propõe é mais um reforço do papel do Estado, por exemplo através da admissão de 60.000 mil novos professores, repor a idade da reforma nos 60 anos, destruindo a reforma de Sarkozi que a impôs aos 62, a tributação dos rendimentos mais elevados à taxa de 75%...
Se for sincero, e parece ser, Hollande, que já ameaçou que em sendo eleito renegociará o tratado sobre os limites orçamentais, prepara-se para relançar a França no caminho de Mitterand, o seu mentor politico, de 1981.
Ora a França não tem equilíbrio orçamental desde 1974, a despesa pública é a mais alta da zona euro, a 56% do PIB, tem uma dívida pública de 90% e apesar disso - ou por causa disso - perde alegremente competitividade económica, tem uma taxa de desemprego endémico elevada (uma média de 7% nos últimos 30 anos) e portanto está já em crise.[1]
A nova prescrição socialista arrisca-se a precipitar essa crise, alienando definitivamente a Alemanha.
Os resultados serão dramáticos para a Europa: isolada no seu crescimento económico e na solidez da sua gestão pública, a Alemanha não lutará mais tempo para manter a zona euro e vai cortar as amarras. As consequências de tudo isso serão trágicas para Portugal que apostou tudo nesta Europa e não saberá tão cedo viver noutra.
Mas, e os socialistas? Se se sentirem inclinados a seguir o exemplo dos seus camaradas franceses, os socialistas europeus poderão dentro em breve gabar-se de terem sido os coveiros do projecto europeu, ou então terão de reconhecer de uma vez por todas que o seu projecto perdeu qualquer razão de ser.
Ou as duas coisas ao mesmo tempo…





[1] The Economist, 2012: the fundamentals are much grimmer. France has not balanced its books since 1974. Public debt stands at 90% of GDP and rising. Public spending, at 56% of GDP, gobbles up a bigger chunk of output than in any other euro-zone country—more even than in Sweden. The banks are undercapitalised. Unemployment is higher than at any time since the late 1990s and has not fallen below 7% in nearly 30 years, creating chronic joblessness in the crime-ridden banlieues that ring France’s big cities. Exports are stagnating while they roar ahead in Germany. France now has the euro zone’s largest current-account deficit in nominal terms.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O Programa eleitoral de cada Partido devia ser a Reforma do Estado

Por vezes recebemos, por correio electrónico, algumas crónicas breves de Augusto Küttner de Magalhães. Sempre interessantes. Esta, pela sua actualidade e carácter absolutamente certeiro, publicamo-la também, com a devida vénia.
Pode dizer-se que é na mouche.


O Programa eleitoral de cada Partido devia ser a Reforma do Estado
O programa eleitoral de todo e qualquer partido/movimento que concorra, ou estime pensar concorrer a qualquer eleição, deveria ser uma certeira, nobre e honrada Reforma do Estado. Tudo o resto é secundário.
Se não houver força, vontade, coragem, abertura, para cada um à sua maneira nos “informar” se, por acaso, sorte ou o que possa ser, ficar com os “destinos” deste pobre nosso País, como vai fazer com que cresçamos, tenhamos futuro consistente, reformando tudo o que tem que ser reformado, não se deveria sequer querer candidatar-se.
Chega de brincarmos a eleições, a sonhos, a futuros de “pode ser que” e, se não for, alguém irá sempre deitar-nos a mão, por baixo.
Independentemente do que os políticos a favor e do contra, que depois trocam de posições, ou nem por isso, possam dizer ou deixar de dizer, o País está com uma dívida monstra, deve dinheiro “lá fora” e vai precisar e de lá de fora, que o dinheiro continue a chegar.
Mas, como ninguém dá nada a ninguém, será indispensável fazer programas, bem-feitos a longo prazo, explicitando como fazer crescer as nossas receitas, e não só a divida, como pagar o que devemos e como conseguir que mais nos emprestem, e em condições comportáveis!
O País tem que se encaixar no que é, no que tem, no que pode criar, com justiça, equidade e sinceridade. Tudo o resto é andar a brincar com o fogo, que normalmente queima os mais fracos.
Assim, seria uma necessidade, um dever, de quem se acha com hipóteses de vir a ser governação ou de vir a ser oposição responsável, de deixar de pensar nos seus próprios interesses e dos seus clãs, e pensar no país e no “povo”. Tudo o resto é brincar com a vida e o futuro dos Portugueses, fazendo-nos ficar pior do que já estamos.
A Reforma do Estado implica ter tudo o que necessitamos à medida do que precisamos, com realizável qualidade de vida para todos, que funcione, que seja exequível e que não haja repetições, desorganizações, demasiadas chefias, demasiados quintais, demasiados lugares iguais pagos pelo Orçamento do Estado.
Mas uma Reforma do Estado tem que ser bem programada. Tem que ser verdadeira, tem que ter uma duração de no mínimo uma década, e tem que ser implementada por forma a defender os interesses do País e do Povo e não dos Partidos, dos conhecidos e do mais que possa ser. E, claro, Reformar implica mudar, desinstalar, não deixar tudo na mesma.
E tudo isto está por fazer; e, sem isto ser feito, o País não vai lá. E chega de dizer que o País já passou por isto várias vezes. É que desta pode ser pior que das outras; e se se acha que passar por maus bocados vivendo o País acima das possibilidades por já ter passado por isso antes, é solução, como é evidente, não é, antes, trata-se do “problema”! 
Chegado está o tempo de defendermos os interesses colectivos, os interesses da população, do País, com equidade, com as diferenças inerentes evidentemente ao ser humano, mas com progresso, sustentabilidade, verdade e futuro. O resto é mais do mesmo que nos pode levar a ficar muito pior do que já estamos.
Augusto Küttner de Magalhães
Janeiro 2014

sábado, 18 de janeiro de 2014

Reflexões sobre um referendo de ocasião (10): ai, o calendário, o calendário...


O jornal EXPRESSO, ou bem informado, ou sem querer, pode ter revelado, hoje, o móbil real de muita gente influente nesta manobra de provocar um referendo sem nada dizer, nem decidir, quanto à questão de fundo.

Um dos subtítulos do EXPRESSO é: "Calendário impede consulta até ao Verão". Ou seja, a manobra do referendo serve para empurrar a decisão da questão para depois das eleições europeias, marcadas para 25 de Maio. E, depois... logo se vê.

Passada essa fasquia das europeias, depois tanto dá aos arquitectos da coisa. Passe-se o que se passar, o PSD já não pagaria o preço eleitoral de qualquer decisão, haja referendo ou não haja, passe a co-adopção ou não passe.

A decisão política em Portugal está, na verdade, cheia de engenheiros eleitorais. E essa pode ter sido uma circunstância a pesar. Mas a coisa pode, por isso mesmo, correr mal. É que toda esta embrulhada tem vindo a deixar um travo cada vez mais amargo. Normalmente, a cobardia política não paga. E é muito mau avançar às arrecuas.

Reflexões sobre um referendo de ocasião (9): o caminho da mentira


A esquerda que puxa pela agenda da co-adopção em uniões homossexuais adora apontar o dedo a "indignidades", "deslealdades", "falsidades" e "hipocrisias" que, reais ou imaginárias, vai atacando no campo adversário. E prega moral o alto do púlpito, rasgando as vestes sempre que algo lhe corre a contra-gosto. Revimos ontem esse espectáculo, após a aprovação parlamentar do referendo.

Mas o avanço dessa agenda assenta fundamentalmente em ardis e mentiras, com que procura - e vai conseguindo - ludibriar boa parte da opinião pública e arrastar os meios de comunicação social consigo. Sempre houve uma forte atracção mediática pelos temas "progrès".

Já nem falo da manipulação da co-adopção como gazua para escancarar a porta à adopção por uniões homossexuais. É um ardil político manhoso que, já de si, devia envergonhar quem o promove. Falo antes, ainda, da ideia falsa (que vão passando) de que a co-adopção é  "totalmente diferente"  da adopção; e de que se trata  "apenas"  de aprovar a co-adopção, pelo que a alteração do regime da adopção nunca se colocaria.

Nos últimos dias, ouvi isto algumas vezes na rádio. Surpreendeu-me até ouvi-lo a alguns que deveriam saber do que falam. O caso ou resulta de ignorância, ou de má fé.

Não há qualquer diferença entre adopção e co-adopção. A co-adopção é uma subespécie da adopção, caracterizada unicamente pelo facto de o adoptando ser filho do cônjuge do adoptante. 

Ora, o que está em causa na co-adopção em uniões homossexuais não é obviamente o vínculo conjugal, mas o facto de ambos terem o mesmo sexo - e, portanto, a questão de saber se o Direito pode determinar a alguém que passe a ter duas mães e nenhum pai ou dois pais e nenhuma mãe. E este problema é exactamente o mesmo estejamos nós perante a adopção em geral ou perante apenas a subespécie da co-adopção. Não há a mais pequena diferença. É o mesmo problema e a mesmíssima questão.

Caminhar pela mentira apenas confirma falta de honestidade intelectual na promoção desta agenda. Desonestidade mental e falta de razão.

Reflexões sobre um referendo de ocasião (8): e o Presidente da República


Diz a imprensa que Críticos do referendo da co-adopção esperam que Cavaco trave consulta popular. Não sei bem a quem se referirão concretamente, pois há críticos para todos os gostos. 

Não creio que Cavaco Silva vá propriamente atrás das deputadas Teresa Leal Coelho e Teresa Caeiro. E, se Isabel Moreira, Pedro Delgado Alves e Elza Pais dirigissem petições ou apelos nesse sentido, estou em crer que bem poderiam esperar sentados. Também as deputadas Francisca Almeida e Carina Oliveira declararam apresentar declarações de voto contra o referendo, mas sabe-se que pensam rigorosamente o oposto uma da outra. E eu próprio, que penso que o referendo é um rematado disparate, o tenho criticado e defendi que o CDS votasse contra, não tenho a mais pequena expectativa sobre o que o Presidente da República venha a fazer ou não fazer.

É facto que o EXPRESSO de hoje, especializado em veicular frequentemente os "recados" de Belém (não só com Cavaco Silva, com anteriores Presidentes também), lança o mote de que «Cavaco é contra referendo» e dá já o motivo do possível chumbo: o referendo não seria sobre tema de "relevante interesse nacional", como a lei exige. Mas isso vale o que vale: isto é, pouco.

Penso, aliás, que Cavaco Silva poderia tê-lo feito antes, uma vez que isto é sobretudo um problema interno do PSD que transbordou sobre o todo o país. O PSD deveria ter sido levado a definir a sua própria posição sobre a co-adopção, em vez de despejar o problema sobre todos. Os partidos devem ser chamados à própria responsabilidade. Sobretudo quando se trata do maior partido e do que lidera o Governo de Portugal.

Fá-lo-á agora quando o não fez antes? E, conhecendo Cavaco Silva muito bem o PSD, apesar dos anos passados, como avalia que ele próprio agiria se fosse confrontado com este mesmo problema no lugar de líder do partido? Terá falado com Passos Coelho? E o que terão dito um ao outro?

O Presidente da República terá sem dúvida que tomar uma posição: a sua posição. Mas não faço a menor ideia de qual seja. Nem farei ou acompanharei a menor pressão.

Reflexões sobre um referendo de ocasião (7): o Tribunal Constitucional


O noticiário especulativo já está armado. Era inevitável. A questão é: o Tribunal Constitucional viabiliza o referendo sobre adopção e co-adopção aplicadas a uniões homossexuais? Ou reprova-o?

Não tenho, para mim próprio, opinião segura. Jogo na tripla: 1X2 - ou melhor, na dupla, pois neste caso não há empate. A respeito das decisões do Tribunal Constitucional, estou como a célebre frase de João Pinto: «Prognósticos só no fim do jogo.»

Depois do que se tem passado com a CES - Contribuição Extraordinária de Solidariedade (bem sei que num quadro muito crítico de ponderação de decisões jurídico-constitucional bem difíceis em contexto orçamental duríssimo), a verdade é que já não arrisco prognósticos sobre decisões do Palácio Ratton. Embora a minha opinião seja a de que há menos motivos aparentes para o Tribunal chumbar o referendo do que para o deixar seguir.

Em 1998, o Tribunal Constitucional reprovou a realização de um referendo aprovado pela Assembleia da República, em matéria de politica europeia, quando estava em debate a ratificação do Tratado de Amesterdão. Não seria, portanto, a primeira vez. Duvido, porém, que aqui o fizesse de novo. Mas... prognósticos, só no fim.

Reflexões sobre um referendo de ocasião (6): e o PSD, o que pensa?


O PSD continua sem nos dizer o que pensa sobre a adopção e a co-adopção estendida às uniões homossexuais.  Neste transe, a direcção política do PSD continua a concentrar os seus esforços em procurar evitar ter de tomar e definir a sua própria posição sobre a questão de fundo: isto é, o PSD não quer dizer-nos o que pensa. 

Pode ser? Não pode ser.

As questões da família são questões estruturantes da sociedade. A Declaração Universal dos Direitos do Homem (artigo 16º) define, aliás, a família como a célula fundamental da sociedade.

Por isso mesmo, tudo o que diz respeito à definição matricial da família é uma questão política – uma questão social certamente; mas política também. E, além disso, tudo o que é matéria de lei, é, em última análise, uma questão política. As leis são aprovadas por órgãos de soberania; e estes são eleitos por escolhas políticas e tomam decisões políticas. O Código Civil não resulta dos palpites individuais de cada um, mas de consolidadas e profundas definições e escolhas de política legislativa.

É natural que, em várias questões (e não só nas questões de costumes), os indivíduos – e, portanto, os deputados – tenham posições diferentes e sensibilidades distintas. Tudo isso alimenta, afinal, os debates que precedem as decisões colectivas. Mas, chegado o momento de decidir, os corpos colectivos não podem deixar de tomar posição e decidir: essa é a posição política relevante. E é essa posição que tem de aparecer – e prevalecer – no momento final da decisão legislativa.

Este referendo de ocasião resulta unicamente desse impasse e absoluto vazio do PSD. O PSD não quer pensar nada sobre o tema de fundo – faz, no fundo, a figura da avestruz. Por isso, este referendo a que a todos nos sujeita deveria ser, no limite, um referendo interno para se esclarecer e decidir, se outro modo não encontra.

É que, com 34 deputados à maior, o PSD e o CDS têm maioria mais do que suficiente, na Assembleia da República, para rejeitarem o projecto de lei do PS (Isabel Moreira/Pedro Delgado Alves). Que isso não  tenha acontecido e que isso não aconteça é o que ninguém entende, quer na base eleitoral da coligação, quer mesmo por quem veja de fora.

Reflexões sobre um referendo de ocasião (5): referendos em fila de espera


Está claro que esta coisa do referendo sobre a adopção e a co-adopção estendidas às uniões homossexuais não passou de um expediente parlamentar para superar as dificuldades da bancada do PSD. Um expediente que, como está a ver-se, veio criar muitas outras dificuldades (incluindo internas), sem resolver propriamente nenhuma.

No plano do Estado, esta decisão é ainda mais deplorável.

O referendo poderia ter resultado de um movimento em que a sociedade portuguesa pedisse para ser ouvida ou de uma iniciativa política séria em que se explicasse a essencialidade de querer ouvi-la e porquê. Nada disso.

E, todavia, é bem longa a fila de referendos em que a sociedade portuguesa gostaria de ser ouvida directamente e não o foi. Ou em que seria da maior importância e utilidade política e social fazê-lo. São matérias da maior seriedade e importância.

Primeiro, o referendo constitucional. É a ideia mais antiga de todas: remonta a 1980 e foi lançada pela AD - Aliança Democrática. Ficou pelo caminho pelo efeito conjugado do desastre de Camarate e da não eleição presidencial de Soares Carneiro. Hoje, poderia ganhar actualidade pelo impasse em que caiu a revisão constitucional e os choques frequentes entre Governo e Tribunal Constitucional. Para o fazer, haveria ainda que remover obstáculos jurídicos. Porém... nada.

Segundo, o referendo europeu. Nunca foi feito: nem na adesão à CEE, nem aquando do Tratado de Maastricht que tudo mudou e criou a União Europeia. Os movimentos para o fazer esbarraram sempre em grandes resistências de quem manda. Aquando do Tratado de Amesterdão, a consulta chegou a ser aprovada na Assembleia da República, mas tropeçou no Tribunal Constitucional. Mais tarde, foi feita, em 2005, uma revisão constitucional unicamente para permitir a realização de referendos directamente sobre tratados europeus. Mas, chegada a hora, quer quanto à chamada Constituição Europeia (2005/06), quer quanto ao seu sucedâneo Tratado de Lisboa (2007/08), os líderes e direcções políticas assobiaram para o lado... e nada se fez. Uma vez mais, o povo ficou à porta. A falta desse referendo está entre os factores que mais contribuem para o desconhecimento e alheamento geral dos portugueses e do país quanto à Europa - o  mal que chamo de a nossa "periferia mental". A actual crise geral europeia recomendaria até que o fizéssemos para saber para onde vamos e queremos ir. Nada disso. É assunto tabu e continua matéria proibida.

Terceiro, um referendo sobre a estrutura territorial da Administração. Tivemos um referendo sobre a Regionalização, que, em 1998, deu com os "burrinhos na água". E há quase quarenta anos que temos este vazio - ou mesmo um caos - no patamar intermédio da nossa Administração Pública, tanto desconcentrada, como autárquica: por um lado, na Constituição de 1976, temos distritos extintos que continuaram a existir; e, por outro, Regiões constituídas que nunca foram criadas. Ao mesmo tempo, desenvolvemos as CCR ou CCDR e as NUT II e NUT III, a par das CIM e outras coisa que houve, no entretanto. As Áreas Metropolitanas também andam por aí, à espera de melhor clima para respirarem e medrarem como é indispensável. E, agora, abate-se uma pressão fortíssima, dita financeira, sobre as freguesias e até já sobre os municípios, ouvindo-se mesmo vozes que tudo querem definir a regra e esquadro ou pela simples aritmética, reduzindo-os pela metade!... Impõe-se parar para pensar. E, sendo necessário, convocar um referendo para sancionar grandes orientações ou as principais linhas de reforma, preservando a matriz municipalista do país. Mas, aí, também não.

Quarto, um referendo sobre a estrutura da família. Quando avançou a legalização dos casamentos homossexuais, houve um forte impulso da sociedade portuguesa exigindo ser ouvida previamente. Uma iniciativa popular de referendo recolheu cerca de 100 mil assinaturas e deu entrada na Assembleia da República, que veio a bater com a porta na cara do povo. O Parlamento inviabilizou o referendo e pôs o povo na rua. Ora, a agenda que agora se discute é uma decorrência disso mesmo; o que está em causa é a questão e o problema da relevância, sim ou não, das uniões homossexuais para a estrutura e o direito da família. Poderia (e deveria) organizar-se uma consulta popular séria para auscultar a consciência social sobre a matéria e definir caminhos e limites legislativos. Nada disso também.

Todos esses referendos - queridos e porventura necessários, para nos esclarecer e andar - continuam a ficar à porta, ou no tinteiro, senão no caixote do lixo. E, em vez disso, avança um referendinho de ocasião, trôpego e oportunista, sobre a parte menor de uma agenda mais ampla, apenas porque o PSD não quer dizer-nos o que pensa sobre a co-adopção.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Reflexões sobre um referendo de ocasião (4): a disciplina de voto


A disciplina de voto é como a Nau Catrineta: tem muito que contar. 

É um tema que faz sempre correr muita tinta: se deve ou não deve haver; em que casos pode ou deve haver; e com que consequências. Nunca haverá unanimidade, nem tão-pouco verdadeiramente consenso a este respeito. Todo o caso tem excepção e cada um tende a considerar-se essa excepção quando chega a sua vez.

Só para que conste, porém, quanto à votação, há pouco ocorrida, do projecto de Resolução do PSD para convocação de um referendo sobre a adopção e a co-adopção aplicadas às uniões homossexuais:

Houve disciplina de voto na bancada do PSD para todos os deputados votarem a favor. 

Mas não houve disciplina de voto na bancada do CDS.

O mesmo, creio, passou-se na bancada do PS, em que dois deputados se abstiveram, ao lado do CDS, enquanto a generalidade da bancada votou contra.

No PCP e BE, não sei.

Cada deputado do CDS poderia votar como livremente entendesse. A direcção do partido, ouvidos todos, e ponderados todos os argumentos e circunstâncias, definiu a abstenção como orientação de voto do partido, pedindo aos deputados que a seguissem. A votação do CDS foi unânime, porque cada deputado assim livremente decidiu, aceitando livremente a solicitação da direcção. Embora não possa falar por todos, mas apenas por mim próprio, creio que pesou em geral não causar mais embaraços e problemas a um parceiro de coligação, nem abrir quaisquer factores de crise. Foi, para mim, um voto de responsabilidade política.

Partimos, agora, para um referendo nacional para resolver as dúvidas cruciantes do PSD. Melhor fora, creio eu, que convocassem um referendo interno. E resolvessem a questão com responsabilidade própria e não delegada: afinal, são os eleitores que votam nos deputados; não os deputados que votam nos eleitores.