sábado, 5 de abril de 2014

A entrevista que está a faltar


Como era de esperar, as ondas de choque BPN ecoaram na edição de hoje do EXPRESSO, uma semana depois da entrevista de Durão Barroso que, no mesmo EXPRESSO, tudo desencadeou outra vez.

O EXPRESSO publica opinião, hoje, para todos os gostos. É sobre isso que escrevem cronistas regulares: Ricardo Costa (o director), Miguel Sousa Tavares, Fernando Madrinha, Daniel Oliveira e Pedro Adão e Silva. Junta-se também João Galamba. Mas passa ainda ao lado do essencial, no plano jornalístico: aquilo que ficou por ser perguntado.

De facto, junta uma notícia sobre o caso da semana, assinada por Isabel Vicente e Pedro Santos Guerreiro, lembrando o que se sabia (e não sabia) em 2004 sobre o BPN. Notícia que é acompanhada por uma breve coluna de Filipe Santos Costa, de pontaria apontada: recorda que, no PSD, "durante os anos de liderança de Durão (1999-2004), o Conselho Nacional do PSD foi sempre presidido por Dias Loureiro, que teve cargos de destaque no BPN e na SLN a partir de 2001".

Mas ficou a faltar a entrevista óbvia: a Durão Barroso, para dizer o que gostaria de ter dito e mais o que, depois do que disse, todos gostariam de saber.

Recorde-se o excerto do EXPRESSO de há uma semana:
«DB: Foi pena não me ter perguntado mais nada sobre o BPN.
EXP: A entrevista não era sobre isso.
DB: Pois é, mas eu quando era primeiro-ministro chamei três vezes o Vítor Constâncio a São Bento para saber se aquilo que se dizia do BPN era verdade.»
Qual é, então, a entrevista que falta a Durão Barroso? Basicamente cinco perguntas (e o que mais suscitarem):
  • O que é que gostaria que lhe tivessem perguntado sobre o BPN e que não lhe perguntaram?
  • Em que datas chamou Vítor Constâncio a S. Bento para o esclarecer sobre o BPN?
  • O que lhe disse Constâncio de cada uma dessas vezes?
  • Questionou também o seu Presidente do Conselho Nacional, Dias Loureiro, sobre "se aquilo que se dizia do BPN era verdade"?
  • Se o fez, quantas vezes o fez e o que lhe disse Dias Loureiro? Se o não fez, por que questionou Constâncio e não Loureiro?
Esta a entrevista que ficou a faltar. Quem irá fazê-la? E a tempo ainda de aproveitar ao apuramento de responsabilidades?


quarta-feira, 2 de abril de 2014

BPN: o escândalo apitou três vezes

O toque para o momento culminante do clássico de Gary Cooper e Grace Kelly,
"O Combóio apitou três vezes" (High Noon, 1952)

Estava-se a ver, como aqui escrevi. Hoje, também o PÚBLICO, em editorial - "História do BPN ainda não está contada" -, vem partilhar a análise que o "Diário de Notícias" logo lançara em editorial de segunda-feira passada: "O que está por saber e esclarecer é muito."

Já surgiram também os primeiros comentários de distanciação e travagem. É o caso, em ambos os casos no EXPRESSO online, de Henrique Monteiro - "A politização do BPN" - e de Nicolau Santos - "Abriu outra vez a caça ao Constâncio".

Parte do que comentam Henrique Monteiro e Nicolau Santos é verdade. Porém, por um lado, a "politização" é inevitável, quer pelas gravíssimas consequências do caso, quer pelo estatuto político da generalidade dos seus actores, intervenientes e responsáveis directos ou indirectos. E, por outro lado, Vítor Constâncio, não sendo o único responsável, não pode eximir-se à responsabilidade que lhe cabia e ao Banco de Portugal, de que era o governador. Azar? É possível. No sítio errado à hora errada? É também possível. Mas a responsabilidade é isso mesmo. Como diziam os latinos, "ubi commoda, ibi incommoda".

Há um ponto que o EXPRESSO e os seus jornalistas têm que ter sempre presente, neste reacender do caso: não podem acusar quaisquer terceiros. Quem reabriu o caso foi Durão Barroso. Onde? Exactamente no EXPRESSO. Foi exactamente assim, no sábado passado:
DB: Foi pena não me ter perguntado mais nada sobre o BPN.
EXP: A entrevista não era sobre isso.
DB: Pois é, mas eu quando era primeiro-ministro chamei três vezes o Vítor Constâncio a São Bento para saber se aquilo que se dizia do BPN era verdade.
Parece até que Durão Barroso (outra revelação do EXPRESSO, logo a seguir) anotará, todos os dias, às 6:30 da manhã, tudo o que consigo se passara na véspera. Então, que notas guardou Durão Barroso desses dias e dessas conversas?

Agora, o que se espera do EXPRESSO, no plano jornalístico, é que, já na edição de sábado próximo, complete e publique essa parte da entrevista de Durão Barroso que ficou a faltar: sobre o caso BPN, o que é que tinha para dizer e não lhe foi perguntado? Agora, vai ser preciso saber. Além de matéria de evidente e forte interesse público, será um grande furo jornalístico. Recordo o que aqui escrevi: "o que é que Barroso sabe? O que é que Barroso gostava de ter dito ao EXPRESSO, que não disse e o EXPRESSO nem perguntou?"

O suspense sobe. Altura para recordar o grande clássico de Gary Cooper e Grace Kelly, "O Comboio apitou três vezes" (High Noon, 1952).

Será agora o duelo final? Será agora que, como na boa moral dos western, "morrem os maus e ficam os bons". Era preciso.


Atoleiro BPN (parte III) - episódio 3


Está a cumprir-se a previsão que aqui fiz: o caso BPN voltou a rolar, a partir da entrevista de Durão Barroso, no sábado passado, ao EXPRESSO.

Depois do take 2, a manhã abriu, hoje, com o 3º episódio da longa saga, que, indo já (pelo menos...) no terceiro filme da série, ainda não deu para tudo sabermos, nem para os responsáveis serem todos chamados e punidos e os prejuízos começarem seriamente a recuperar-se. 

No episódio de hoje, o PÚBLICO dá à estampa a defesa de Vítor Constâncio feita por cinco antigos governadores, vice-governadores ou administradores do Banco de Portugal: Miguel Beleza, Teodora Cardoso, José da Silva Lopes, Artur Santos Silva e Emílio Rui Vilar. O que dizem eles? Fundamentalmente isto:  «a supervisão bancária não é um sistema de investigação de crimes financeiros» e «é irrealista a imagem criada de um supervisor que pudesse acompanhar em tempo real os milhões de operações que ocorrem a cada instante no sistema financeiro». Mas, subtilmente, passam também a bola para a Procuradoria-Geral da República: «Embora o Banco Central seja independente do Ministério Público, é evidente que, ao ser confrontado com indícios ou denúncias de fraudes, tem a obrigação de investigar, de reunir provas e de denunciar tais factos à Procuradoria-Geral da República. Tem ainda a obrigação de abrir processos de contra-ordenação contra todos aqueles que possam ter estado envolvidos em tais práticas. Ora, foi justamente isso que foi feito.» (O texto de defesa não tem apenas a ver com o caso BPN, mas também com o escândalo público muito badalado recentemente por causa de prescrições em sonoros processos por infracções no sistema bancário.)

Seguiu, assim, a troca de bolas, que não parará certamente por aqui. Além desta defesa não isentar Vítor Constâncio - ele próprio - de voltar a responder e esclarecer, entraram já novos actores em cena, Durão Barroso não poderá deixar de precisar o que gostaria de ter dito e contado e a Procuradoria-Geral da República será igualmente indispensável no cortejo. 

A coisa, aliás, logo ecoou pela comunicação online: além do próprio PÚBLICO, no EXPRESSO, no ionline, na RR, na TSF... E não vai parar por aqui. O importante é que se chegasse a algum lado de jeito - e que, além de mero ruído, se fizesse luz e responsabilidade, justiça e reparação.

Atoleiro BPN (parte III) - episódio 2


Como aqui previ, depois da entrevista de Durão Barroso ao EXPRESSO de sábado passado, o filme do BPN volta a desenrolar-se. Ontem, assistimos às cenas do segundo episódio:
  • Vítor Constâncio veio declarar que não se lembra de ter sido convocado por Barroso, quando primeiro-ministro, para falarem sobre o BPN, além de garantir nunca ter recebido, na altura, informações sobre irregularidades concretas;
  • e Nuno Melo, que sabe do assunto, garante que as inspecções do Banco de Portugal de 2003, 2005 e 2007 já revelavam ilegalidades gravíssimas e que, assim, Constâncio deveria ter dado conta ao primeiro-ministro Durão Barroso pelo menos da inspecção concluída em 2003.
Assistimos à primeira troca de bolas. E o sempre atento Câmara Corporativa já se perfilou no seu campo.

Seguirão as cenas dos próximos capítulos.

Vai ser preciso saber tudo. E responsabilizar efectivamente os responsáveis.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Colina de Santana: mais uma do pré-troika

O artigo de Pompeu dos Santos, DN 20-mar-2014
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Vale a pena ler este artigo do Eng.º Pompeu dos Santos, no Diário de Notícias, explicando e denunciando mais um negócio sobre valioso património público, feito pelos Governos Sócrates nos anos 2008/10. Eram já conhecidos - e já aqui foram também denunciados - outros casos envolvendo o Ministério da Justiça. Este envolveu o Ministério da Saúde, consistindo numa jigajoga, à tabela pela ESTAMO, sobre os terrenos onde se encontram os hospitais de São José, Capuchos, Santa Marta, etc.

Fingindo que ia ganhar, o Estado perdeu bom dinheiro e aumentou a dívida pública. E quem vai pagar? Adivinhem... O contribuinte, claro.

O Eng.º Pompeu dos Santos apresenta, no fim do artigo, um conjunto interessante de propostas para reparar o que foi mal feito. Mas, tendo havido prejuízos, quem vai arcar com eles? Adivinhem... O contribuinte, é claro.

Alguém ganhou. Nós perdemos.

O lixo debaixo do tapete


Ontem, o primeiro-ministro criticou que, durante muitos anos, se tenha andado, no país, a procurar esconder coisas debaixo do tapete. Disse textualmente: «Em Portugal, durante muitos anos, estigmatizou-se, em excesso, o erro. Varreu-se o erro para debaixo do tapete e, depois, não demos a devida atenção a quem aprendeu com os erros.»

É verdade.

Por isso mesmo, agora não podemos nem continuar no erro, nem reincidir no mesmo erro. Mas isso também não chega: é preciso levantar o tapete, inventariar tudo o que lá está e responsabilizar os efectivamente responsáveis. A culpa não pode morrer solteira.

segunda-feira, 31 de março de 2014

BPN - o atoleiro do regime


Em entrevista, no sábado passado ao EXPRESSO, o ainda Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, deixou cair que, quando era Primeiro-Ministro de Portugal (ou seja, entre 2002 e 2004), chamou três vezes o então Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, para lhe perguntar se aquilo que se dizia do BPN era verdade.

Durão Barroso disse isto espontaneamente, com aparente displicência, já fora do espaço da entrevista, sem o jornalista - o próprio director do EXPRESSO, Ricardo Costa - lhe ter perguntado o que quer que fosse. E tinha começado por lançar, em tom de lamento: «Foi pena não me ter perguntado mais nada sobre o BPN.» Com isto, pode ter ateado um fogo, porventura um incêndio.

Excerto da entrevista ao EXPRESSO
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O comentário, dito assim, a correr, como coisa sem importância, é de feição a incendiar de novo a actualidade. As questões abertas - e reabertas - com essa simples frase são muitas. Não só sobre o Banco de Portugal e Vítor Constâncio; mas também sobre o próprio autor das revelações: afinal, o que é que Barroso sabe? O que é que Barroso gostava de ter dito ao EXPRESSO, que não disse e o EXPRESSO nem perguntou? 

Nessa direcção, quem acendeu o primeiro fósforo foi o PSD, através do deputado Duarte Marques, que logo lançou um conjunto de questões dirigidas ao Banco de Portugal. Fez bem, do ponto de vista do esclarecimento público. Mas o caso tem o recorte propício a não ficar por aqui. E quem o confirma é o certeiro Editorial de hoje do "Diário de Notícias", que - também bem - aponta o foco e as baterias para mais fundo e porventura mais longe: «O que está por saber e esclarecer é muito. O que no caso do BPN é demasiado. Que dúvidas tinha o então primeiro-ministro que o levaram a chamar por três vezes Vítor Constâncio? Foram esclarecidas? Porque não decidiu informar a comissão de inquérito dessas suas diligências e só agora revela esses encontros? E Vítor Constâncio, porque não referiu aos deputados que foi chamado a prestar esclarecimentos ao Governo de então sobre o caso BPN? E efetuou diligências na sequência desses alertas do primeiro-ministro, Durão Barroso?»

As inquietações que, reabrindo todo o caso, Durão Barroso veio revelar sponte sua confirmam a seriedade de notícias que, a seu tempo, nunca foram devidamente valoradas. E perguntar-se-á outra vez: por que é que não foram devidamente valoradas? A indiferença foi negligência? Ou foi dolosa? E que consequências daí resultaram? Refiro-me às célebres informações publicadas, ainda em 2001, por Camilo Lourenço na revista EXAME e que tanta tinta fizeram correr. E refiro-me também às denúncias expostas pelo "Jornal de Negócios" em 2003, como o então director, Pedro Santos Guerreiro, recordou em artigo editorial de 2011: "O fabuloso ano de 2002 do BPN".

O caso pode tornar-se um novo embaraço para o PS, o partido de Constâncio. Mas igualmente para o PSD, o partido de Durão Barroso - e também de Dias Loureiro e Oliveira e Costa. Talvez ainda, indirectamente, para o CDS, que estava no Governo de que Barroso era Primeiro-Ministro. A pergunta será: o CDS sabia dessas inquietações e diligências do Primeiro-Ministro Durão Barroso? Ou, se o CDS nada tivesse sabido, ricochete de novo para Barroso.

O caso BPN, que é absolutamente o escândalo inominável propriamente dito, tem todos os ingredientes para isto. Primeiro, o volume esmagador dos prejuízos que da burla do BPN passaram para os contribuintes, num caso que é a nossa mini-Islândia - o DN fala, hoje, em 7 mil milhões de euros, o equivalente a «um décimo do empréstimo da troika. Segundo, os nomes envolvidos, de que muitos continuam isentos de qualquer responsabilização. Terceiro, a dimensão dos sacrifícios que o cidadão comum tem suportado com a crise, em contraste com a aparente descontracção de responsáveis pelo BPN ou dos que deveriam ter agido e não agiram. Quarto, a hipersensibilidade que este facto acumulou na opinião pública - como vários episódios recentes confirmam. Quinto, o sentimento difuso, mas profundo, de injustiça que tem crescido na opinião pública, pelo facto de os processos se arrastarem na Justiça e alguns dirigentes (ou beneficiários) não terem sido sequer acusados ou chamados a responder. Sexto, as dúvidas que nunca foram respondidas e a sensação de que há "coisas escondidas". Sétimo, o novelo de sensações latentes de "compadrios", "cumplicidades", "coisas abafadas", "impunidade", "filhos e enteados", "feitos uns com os outros". Em síntese: BPN é uma sigla que queima. E, como atoleiro do regime, vai-se prolongando como carambola infernal.

O caso excita a curiosidade. Legitimamente. E o ambiente de campanha eleitoral para as europeias só pode fornecer mais combustível ao fogareiro: além do caldo geral de campanha e escândalo, Constâncio e Barroso são indirectamente dois alvos europeus apetitosos. Já houve duas comissões de inquérito parlamentares. Não me surpreenderia que se começasse a falar de uma terceira - ou, ao menos, que um novo corrupio de figuras passasse (de novo) por uma cascata de audições no Parlamento. 

Do caso BPN, era bom que, de uma vez por todas, não ficasse pedra sobre pedra. Tudo fosse sabido, julgado, responsabilizado e, na medida do possível, recuperado e reparado.

O Manifesto que não teve adesão


O Manifesto "Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente" foi conhecido a 11 de Março com a assinatura de 74 personalidades portuguesas. Deu muito que falar. 

A seguir, a 19 de Março, foi divulgado o apoio de 74 economistas estrangeiros. O que também deu que falar. 

Entretanto, criou um site próprio na internet e anunciou que se iria transformar em petição à Assembleia da República. Paulo Rangel assegurou, acto contínuo, que o Manifesto 74 "não teve a adesão dos portugueses", que "já saiu da agenda" e que "ninguém fala dele". Nas primeiras 24 horas, a petição online  superou 16 mil assinaturas e parece não parar.

É sempre melhor responder às coisas com argumentos e não com impressões ou pura gritaria. As coisas sérias debatem-se e apreciam-se com racionalidade.

domingo, 30 de março de 2014

Voto de Pesar por Fernando Ribeiro e Castro

Na passada sexta-feira, 27 de Março, o plenário da Assembleia da República aprovou por unanimidade este Voto de Pesar pela morte de Fernando Ribeiro e Castro. A proposta de voto havia sido apresentada por deputados do PSD, do PS e do CDS-PP.

O minuto de silêncio

VOTO DE PESAR PELO FALECIMENTO DE
FERNANDO RIBEIRO E CASTRO

Fernando Augusto de Almeida Ribeiro e Castro nasceu a 31 de Maio de 1952, em Lisboa, tendo falecido na mesma cidade, a 20 de Março de 2014, aos 61 anos de idade.

Personalidade incontornável da sociedade portuguesa, Fernando Ribeiro e Castro foi um homem de valores firmes, que dedicou toda a sua vida à causa pública, assim marcando para sempre a vida de muitos portugueses. 

Escolheu, em jovem, a carreira militar e foi um respeitado e estimado oficial de Marinha e Engenheiro Construtor Naval. Aluno brilhante e distinto, licenciou-se em Ciências Militares (ramo Marinha), em 1973, na Escola Naval do Alfeite, especializando-se mais tarde, em 1976/79, em Arquitectura Naval e Engenharia dos Oceanos no Massachusetts Institute of Technology, de Boston. Foi às Forças Armadas, na Marinha, que dedicou as primeiras décadas da sua vida adulta. Foi imediato do Navio Patrulha "Rovuma" (1973 – 1976), foi Chefe do Serviço de Estruturas da Direcção de Manutenção (1979 – 1981) e foi Chefe da Divisão de Estudos e Projectos do Arsenal do Alfeite (1988 – 1992). Foi professor da Escola Naval. Durante muitos desses anos, leccionou várias cadeiras, partilhando com tantos os conhecimentos que adquirira no M.I.T. nos Estados Unidos. Foi condecorado com a Medalha Militar de Comportamento Exemplar (Prata) e a Medalha Militar de Serviços Distintos (Prata).

Unicamente por incontornáveis imperativos familiares, foi condicionado a ter de sair da Marinha, em 1992no posto de Capitão-de-Fragata. Esta contingência, que marcou um profundo desgosto pessoal, não alterou a sua maneira de ser e de trabalhar e nunca quebrou, nem o fez desistir da sua paixão pelo mar e de uma profunda identificação com as suas gentes. Soube, aliás, reconhecer e aprofundar o potencial estratégico do Mar para o desenvolvimento da economia portuguesa. Lutou arduamente por essa causa. Esta sua dedicação levou-o a Secretário-Geral do Fórum Empresarial da Economia do Mar, em 2010, tendo através dessa associação de empresas deixado ao país um importante património de mobilização e de reflexão sobre o sector. Foi ouvido algumas vezes na Assembleia da República, em comissão parlamentar, na sequência de petições ou doutras iniciativas, dando, junto com outros companheiros do sector, o seu experiente contributo à reflexão estratégica sobre as políticas públicas de Portugal no domínio do Mar.

Foi, no entanto, a defesa de outras causas que mais o notabilizou. Presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), que fundou em 1999 com a sua esposa, bateu-se sempre e determinadamente pela promoção da natalidade e pela defesa de melhores condições para todas as famílias que fossem, ou quisessem ser, numerosas. Homem de uma profunda e inabalável fé, conduziu toda a sua vida, incluindo a sua acção social e política, de acordo com os valores da democracia cristã e da Doutrina Social da Igreja. E, como tal, em momentos de grande significância política, aliou a sua voz a importantes debates acerca do futuro da sociedade portuguesa.

Ao longo de uma vida de dedicação constante à causa pública, foram muitos os que, pela sua tenacidade e generosidade, se sentiram inspirados. Esses, que lamentam o seu desaparecimento, sabem também que o seu legado viverá através deles. O país, por seu lado, agradece-lhe, e não esquece o contributo daquele que foi um cidadão exemplar, um patriota, um carácter simples, um profissional dedicado e um homem bom. 
A Assembleia da República agradece a Fernando Ribeiro e Castro a sua dedicação à causa pública, que o destacou como figura notável da sociedade portuguesa, e apresenta a toda a sua família e amigos as suas sentidas condolências.
Assembleia da República, 25 de Março de 2014

Os Deputados,

(assinaturas de deputados do
CDS-PP, PSD e PS)


sábado, 29 de março de 2014

O Comandante Fernando Ribeiro e Castro

Transcrevo o texto escrito pelo Contra-Almirante Engenheiro Construtor Naval Victor Gonçalves de Brito, publicado inicialmente, no passado dia 24 de Março, no blog A Voz da Abita (na Reforma):


EM MEMÓRIA DE FERNANDO RIBEIRO E CASTRO
Depois da doença ter vencido a vontade indomável de viver do Fernando Ribeiro e Castro, sinto o dever moral de testemunhar a grandeza e o mérito de tão ilustre Camarada e Colega de profissão. 
Com o seu falecimento, a comunicação social assinalou a actividade do Fernando Ribeiro e Castro (FRC) como fundador e principal dinamizador da acção cívica da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas. 
O meu testemunho cinge-se às actividades profissionais do FRC como oficial de Marinha e, mais recentemente, como Secretário-Geral do Fórum Empresarial da Economia do Mar. 
Com diferença de 5 anos no ingresso na Armada, conheci episodicamente o FRC em 1973, quando regressei de comissão no Ultramar e “estagiei” algumas semanas na Escola Naval quando ele era o “penico” do curso mais antigo. Notava-se claramente que era um líder carismático e uma personalidade forte e de referência. 
Mais tarde, em conversa com um camarada de curso, Comandante de Navio Patrulha em Angola onde o FRC era Oficial Imediato, ouvi rasgados elogios à sua acção, pela sua dinâmica, iniciativa e liderança. 
Regressado do MIT, em 1979, transitando da Classe de Martinha para a de Engenheiros Construtores Navais, o FRC rendeu-me na então 3ª Repartição da Direcção do Serviço de Manutenção, como Chefe da Secção Técnica de Estruturas, onde deu continuidade a um projecto, por mim desenhado e iniciado, de conservação estrutural das querenas dos navios da Armada, que terminou uma longa saga de problemas com as pinturas das obras vivas dos navios – assunto recorrentemente objecto de conversa entre os ECN mais antigos na antiga Inspecção das Construções Navais (a quem era cometida responsabilidade da gestão das docagens dos navios da Armada, onde o problema das tintas para as obras vivas era sempre atribuído ao mais moderno como assunto menor, insolúvel). 
Posteriormente, o FRC prestou provas e assumiu funções docentes na Escola Naval (EN). Nesse período, no exercício de profissão liberal, executou o primeiro anteprojecto de alteração do “Creoula”, para adaptação a “navio de treino de mar”, quando o navio ainda estava sob tutela da Secretaria de Estado das Pescas. 
Ainda como docente da EN, num período crítico e frágil da Direcção-Geral do Material Naval e do seu Gabinete de Estudos, o FRC foi pessoalmente incumbido pelo VAlm VCEMA de iniciar o projecto básico da Lanchas Costeiras, do que posteriormente seria a Classe “Argos”. 
Entretanto o FRC transitou para o Arsenal do Alfeite (AA) e “arrastou” consigo esse projecto que foi assumido em pleno e concretizado. As lanchas permanecem ao serviço da Armada, julgo que com satisfação generalizada. 
No período em que o FRC desempenhou funções de Chefe da Divisão de Projectos do AA, pude verificar a sua elevada dinâmica, determinação e capacidade intelectual. Para além do desenvolvimento do projecto das “Argos”, em especial com os esforços numa solução para a concepção e concretização do embarque/desembarque rápido e seguro da embarcação semi-rígida, que ainda hoje deve ser a única solução viabilizada em navios de pequenas dimensões (recordo-me, a propósito, das prelecções recorrentes a propósito de “Inovação” a que estamos sujeitos no dia-a-dia), recordo todas as iniciativas da altura no sentido de viabilizar novos projectos que por uma ou outra razão não se concretizaram (recordo em particular o projecto de um navio patrulha oceânico para a Argentina e do navio hidro-oceanográfico ALBA – sigla de junção do AA com a Empresa Nacional BAZAN). Dos projectos concretizados posteriormente recordo o das lanchas de fiscalização para República da Guiné-Bissau. 
Recordo também o entusiasmo e empenho do FRC na transição da informática do AA da esfera financeira (a época da mecanografia) para a área técnica, percursora da criação do SIAGIP, sistema de informação de gestão da produção com características avançadas, que muito beneficiou o funcionamento do AA e que nunca foi devidamente valorizado fora do estaleiro. 
Na realidade, o FRC, no AA, confirmou que era um entusiasta lúcido e interveniente, isto é, não se limitava a apoiar – nunca se negava a novos desafios e empenhava-se ao máximo nos projectos que lhe eram cometidos. 
As circunstâncias práticas da vida e as limitações dos vencimentos no Estado levaram-no a pedir a passagem à situação de reserva, o que não lhe foi concedido, devido a uma daquelas decisões – “agora é que vamos pôr isto no são” – que morrem cedo. O FRC, como Capitão-de-Fragata ECN, foi obrigado, juntamente com mais dois ou três camaradas, a requerer o abate ao efectivo da Armada. Recordo, com muita tristeza que, na altura, um justo louvor militar do Administrador do Arsenal do Alfeite não foi superiormente avocado, inviabilizado o que em condições normais levaria a uma justíssima concessão de medalha de serviços distintos. As decisões ficam na consciência de quem as aconselha e de quem as toma. 
Depois de quase duas décadas de actividade fora do meio naval e marítimo, foi com satisfação que o vi contratado para Secretário-Geral do Fórum Empresarial da Economia do Mar (FEEM), onde novamente a sua inteligência, natural empatia, empenho e determinação, foram postos ao serviço das actividades marítimas, agora num âmbito alargado ao todo nacional. A acção do FRC no FEEM foi e tem sido publicamente reconhecida nestes últimos tempos. 
Como Secretário-Geral do FEEM, nunca se furtou a divulgar as oportunidades de actuação nos assuntos do mar e a diligenciar por demover as barreiras burocráticas existentes que dificultavam novos projectos e iniciativas. Aceitava todos os convites para divulgar a mensagem do aproveitamento económico do mar, por vezes, no último ano, com grande sacrifício físico, embora sempre com grande entusiasmo e minimizando os efeitos da doença. 
Já com a saúde muitíssimo debilitada, reuni-me com o FRC por sua convocação como SG do FEEM, no dia 13 de Março. Ficou-me na memória a frase: “o médico quer que eu pare de trabalhar – eu disse-lhe que tinha de mudar o discurso, pois eu continuaria a trabalhar”. Nunca mais o vi, embora ainda tivéssemos trocado mails de circunstância. 
Este é o meu testemunho sentido sobre uma vertente de actuação de um Homem cujo falecimento muito lamento. Ninguém será perfeito e sobre o FRC haverá por certo quem tenha opiniões menos abonatórias. 
Mas para mim foi das pessoas que mais me marcaram, pela sua humanidade, apego à família, brilhantismo intelectual, simplicidade, desprendimento, determinação e entusiasmo por causas. 
Por estar impedido fora de Lisboa não pude estar presente nas cerimónias fúnebres, o que muito lamentei. Mas não quero deixar de testemunhar o meu apreço e homenagear quem, com o seu passamento, muita falta faz. 
Lisboa, 24 de Março de 2014
Victor Gonçalves de Brito
CAlm ECN (ref)

 
Cadete (1969)
Aspirante (1970)
2º Tenente (1980)
2º Tenente (1980)
1º Tenente (1981)
Capitão-Tenente (1983)
Capitão-de-Fragata (1987)