sexta-feira, 15 de maio de 2015

Notas sobre as eleições britânicas (3): subir e perder

Convidado para participar num debate sobre as eleições britânicas do passado dia 7 de Maio, tive que analisar os seus resultados com atenção. Partilho algumas conclusões a que cheguei, contrariando nalguns casos algumas análises superficiais que ouvi na noite eleitoral e no dia seguinte e que não levavam em conta as particularidades do sistema eleitoral britânico.

Vistos os números dos votos, as coisas não são o que parecem. E os mais queixosos bem podem ser os trabalhistas, que subiram... mas desceram.


Os trabalhistas, de facto, "ganharam": subiram em votos (mais 740.000 votos) e em percentagem eleitoral (mais 1,4%). Mas perderam 26 deputados, o que não é coisa pouca. Curiosamente, o Labour teve mais 8% de votos eleitorais que em 2010; mas perdeu 10% dos lugares que detinha nos Comuns. Houve uma relação inversa entre os seus votos e os mandatos obtidos. Coisas... do sistema eleitoral britânico.

À parte a sova que levaram na Escócia (onde perderam 1/3 do seu eleitorado e baixaram de 42% para 24,3%) - consequência do patriotismo britânico com que se atravessaram no referendo escocês de Setembro passado -, os trabalhistas melhoraram a sua votação em Inglaterra e em Gales. No País de Gales, passou-se, porém, a mesma curiosidade britânica: os trabalhistas ganham, mas perdem - têm mais 20.000 votos e mais 0,7 pontos percentuais, mas perdem 1 deputado. Contudo, já em Inglaterra, os trabalhistas consolidaram posições, subindo em votos (mais 1 milhão de votos), em percentagem (mais 3,5 pontos percentuais) e mais mandatos (mais 15 deputados).

Em síntese, a quebra de mandatos dos trabalhistas deveu-se unicamente à dimensão da tareia escocesa, que o sistema eleitoral britânico amplia enormemente: a perda de 1/3 de eleitores escoceses levou à perda de 40/41 dos mandatos parlamentares.

O outro grande frustrado da noite eleitoral, foi o UKIP, que galgou para o estatuto de terceiro partido britânico, com 3.881.099 votos e 12,6% de percentagem eleitoral, mas... apenas 1 deputado na Câmara dos Comuns.

E o grande perdedor acaba por ser Nick Clegg e os seus LibDem. Estes, sim, perderam tudo: perderam votos (menos 3.660.000 votos), perderam peso eleitoral (menos 16,3 pontos percentuais) e perderam mandatos em Westmisnter (menos 49 deputados).

Na minha interpretação, foi o eleitorado LibDem que foi dar a surpreendente vitória com maioria absoluta a David Cameron: assustado com as persistentes sondagens que davam empate entre conservadores e trabalhistas e com um cenário à vista de possível coligação Labour/SNP, 3/5 do eleitorado LibDem tirou-se de cuidados e foi votar direitinho no anterior parceiro de coligação. Pimba! Chorou Nick Clegg, riu-se por último David Cameron.

Foi este factor, a meu ver, o principal factor da maioria absoluta parlamentar de Cameron (não o único, obviamente). E é também esse mesmo factor - o "voto útil" dos LibDem nos candidatos Tories, decidido à boca das urnas - que explica a discrepância, tão comentada, entre as sondagens antes das eleições e logo as exit polls, confirmadas (e reforçadas) pelos resultados finais.

Notas sobre as eleições britânicas (2): estabilidade na Irlanda do Norte

Convidado para participar num debate sobre as eleições britânicas do passado dia 7 de Maio, tive que analisar os seus resultados com atenção. Partilho algumas conclusões a que cheguei, contrariando nalguns casos algumas análises superficiais que ouvi na noite eleitoral e no dia seguinte e que não levavam em conta as particularidades do sistema eleitoral britânico.

Vista a votação na Escócia, é interessante olhar para o que se passou no Ulster.


Na Irlanda do Norte, há muito que os partidos "nacionais" não contam e nem sequer se apresentam a votos. Curiosamente, agora, apresentaram-se candidatos Conservadores e do UKIP ao sufrágio dos irlandeses. Mas pouco pesaram: os Tories não foram além de 9.000 votos (1,3%) e o UKIP alcançou o dobro (18.000 votos, 2,6%).

Os mandatos foram distribuídos pelos partidos irlandeses e sem grandes alterações. Apenas a assinalar uma ligeira quebra do Sinn Fein. A nota irlandesa foi: estabilidade.

Notas sobre as eleições britânicas (1): a Escócia

Convidado para participar num debate sobre as eleições britânicas do passado dia 7 de Maio, tive que analisar os seus resultados com atenção. Partilho algumas conclusões a que cheguei, contrariando nalguns casos algumas análises superficiais que ouvi na noite eleitoral e no dia seguinte e que não levavam em conta as particularidades do sistema eleitoral britânico.

As primeiras observações são sobre os resultados na Escócia.


Muitos comentadores disseram que os resultados eleitorais na Escócia tinham sido uma desforra face ao referendo de 18 de Setembro do ano passado: os escoceses tinham virado maioritariamente nacionalistas.

Não há dúvida de que Scottish National Party (SNP) teve uma vitória retumbante e esmagadora, elegendo 56 dos 59 deputados em disputa, na "nação" escocesa. Porém, se o referendo fosse no mesmo dia, o mais provável é que o Não à separação do Reino Unido tivesse triunfado de novo. 

Bem vistas as coisas, os resultados escoceses surpreendem muito pouco; e estão perfeitamente em linha com o referendo de fresca data.

O que se passou é que o SNP limitou-se a concentrar, como era natural e expectável, a totalidade dos votos pela independência da Escócia, tendo atraído os votantes tradicionais de outros partidos nacionais, agora ressentidos como "estrangeiros". Vistos os números, o SNP obteve até menos 160.000 votos do que os que votaram pela independência em Setembro - dizendo de outro modo, 10% dos que votaram pela independência não foram votar no SNP. Em boa parte, isto deveu-se à abstenção que, como é natural, foi menor no referendo, dramático (apenas 15,4% se abstiveram), do que nestas eleições de Maio (abstenção de 28,9% na Escócia).

Quem levou para contar na Escócia foram sobretudo os trabalhistas (perderam 40 de 41 deputados) e também os LibDem (perderam 10 de 11 deputados), que foram, assim, quase completamente varridos da representação parlamentar escocesa em Westminter. O famoso discurso - e corajoso - de Gordon Brown pela unidade do Reino Unido na campanha do referendo, pagou, agora, este preço amargo. E o mesmo, na sua escala, aconteceu com os seguidores de Nick Clegg. Os conservadores já só tinham, há muito, 1 deputado pela Escócia - desde 1997 que tinham sido, aí, "apagados". Agora, Labour e liberais-democratas ficaram reduzidos a isso também - veja-se o interessante quadro abaixo.


Todavia, não esqueçamos as peculiaridades do sistema eleitoral britânico. Num sistema proporcional à europeia, o SNP teria obtido, mesmo nestas circunstâncias excepcionais, apenas pouco mais de metade dos lugares.

Na verdade, o SNP ficou-se pelos 50,0% exactos dos votos. E, embora derrotados, Labour (24,3 %), Tories (14,9%) e LibDem (7,5%) mantêm votações relevantes na Escócia.

Por curiosidade, fui fazer as contas a uma hipótese de a Escócia corresponder a um círculo eleitoral único, em que se aplicasse o método d'Hondt, como em Portugal e em muitos países. Com estes resultados eleitorais, o SNP teria eleito 30 deputados, os trabalhistas 15, os conservadores 9, os liberais-democratas 4 e o UKIP 1.


Um ano após a saída da troika, como estamos de energia e rendas excessivas?

Com a devida vénia, divulgamos um importante artigo de Henrique Gomes, ex-secretário de Estado da Energia, hoje publicado no DIÁRIO ECONÓMICO. Um olhar atento, uma voz que fala verdade, um governante que faz falta.



Um ano após a saída da troika, como estamos de energia e rendas excessivas?
Por uma vez, estou de acordo com Eduardo Catroga: "O PSD atrasou-se no processo de redução da despesa pública e, por isso, devia pedir desculpa aos portugueses. E, em vez do colossal aumento de impostos, deveria ter feito uma colossal redução da despesa". Foi também assim na energia. Em vez do corte das rendas e redução de custos, o Governo aumentou os preços da energia aos consumidores.
O Executivo afirma que, "... nos últimos três anos o Governo promoveu três pacotes de redução de custos no sector energético... No total estamos a falar de cortes no sector energético de 4,4 mil milhões de euros, até 2020". "A EDP teve um corte de 1.800 milhões de euros."
Porém, na realidade, o contributo total para o Sistema Eléctrico Nacional é de cerca 1.600 milhões de euros até 2020 a que se deve somar mais 200 milhões de euros da contribuição especial (CESE) para o Orçamento do Estado. No total teremos 1.800 milhões de euros que se contrapõem aos 4.400 milhões de euros que o Governo reclama. Em 2015, essas verbas serão um total de 376 milhões de euros nelas já considerados os 100 milhões de euros para o Orçamento do Estado. Quanto ao esforço da EDP até 2020, ao invés de 1.800 milhões de euros, não deverá ultrapassar os 800 milhões de euros.
Entretanto, nos últimos três anos, o Governo tem vindo a sobrecarregar ainda mais os consumidores aumentando os preços, em termos reais, em cerca de 3% em vez dos 1% com que se prometeu. Essa, tem sido a grande medida para atenuar o défice tarifário que, definitivamente, não será eliminado em 2020.
As rendas excessivas continuam intocadas. Se olharmos para os resultados do primeiro trimestre da EDP Renováveis, acabados de divulgar, verificamos que o preço médio de venda nos mercados de Espanha e dos Estados Unidos (que representam 75% da electricidade vendida) está nos 45 euros por megawatt/hora. Em Portugal, a empresa facturou a mais do dobro, a quase 108 euros! Um escândalo!
É com este enquadramento que, apesar de Portugal já ter uma taxa de penetração de energia renovável muito importante e, além disso, ter um consumo de energia per capita e intensidades energética e carbónica baixas, o Governo entra na obsessão esverdeada actual.
A energia renovável tem sobrecustos. Até agora, os sobrecustos do nosso percurso já totalizam os dez mil milhões de euros! Vamos continuar neste percurso suicida?
Aproximando-se um novo ciclo legislativo, o meu balanço é feito recordando um trecho do discurso de posse do nosso actual primeiro-ministro:
"É urgente reduzir os custos de contexto; acentuar a intensidade concorrencial, em particular nos sectores que geram bens e serviços consumidos pela generalidade das empresas (como a energia e as telecomunicações); quebrar a rede de incentivos formais e informais que favorecem artificialmente o sector dos bens não transaccionáveis."
Henrique GOMES
  

Excessivamente imediatizados e mediatizados

Como corre a "actualidade"

Estamos excessivamente imediatizados e mediatizados. Torna-se quase assustador como, hoje, conseguimos “arranjar” temas que se sobrepõem a uma velocidade louca a tudo o que, ontem, era o tema do dia, sem este ficar minimamente resolvido.

O que ainda é mais “assustador” é como nos vai sendo possível a todos colaborarmos nestes esquemas, que fazem com que a informação flua a uma velocidade estonteante, mas que tudo, mas tudo, seja tratado pela rama e nada com um mínimo de tempo e cuidado. Claro que alguns dos temas, nem notícia deveriam ser; e podem deixar de imediato de o ser, indo para o lixo. Já que, antes, só inoportunamente chegaram a ser noticiados. 

Tudo tem que ser visto, e revisto, hoje, com a certeza de que amanhã aparecerá qualquer “outra coisa” que irá abafar o que, ontem, foi notícia por todo o lado, que ficou num “limbo”, e que só voltará a ser falado se for no Dia Especial De...” ou se acontecer algo “idêntico a...”.

Claro que “isto” interessa a muitos que nos bombardeiam com “informação” e nos abafam todo e qualquer “conhecimento”.

E admiramo-nos quando os jihadistas barbaramente destroem Cultura aos tiros de canhão, e nós esquecemos, todos, abafamos todos A Nossa Cultura, Os nossos Conhecimentos, não aos tiros, mas pondo-lhe notícias e noticiazinhas por cima, de forma a não termos Cultura, algo tão necessário e tão importante, que nos ajuda a escolher o que queremos ser e saber.

Talvez seja de um dia pararmos para pensar, por nós e não com a cabeça feita por outros! De não ser um avião que cai a notícia, até ser um homem que se afoga, os desgraçados que morrem nas águas do Mediterrâneo, a criancinha que é violada pelo padrasto e fica com outra criancinha dentro da barriga, a greve de uns pilotos da aviação, e tudo flui sem nada “ser”!

Não é possível assim continuar. Não temos capacidade para sermos “usados” como marionetas face a demasiada informação, que é levada de ânimo tão leve e não de forma séria, até ao fim.

E os políticos ajudam, a isto tudo, com biografias sem qualidade, com reacções tempestivas por SMS a noticias hoje normais na imprensa, para além de uma loucura de recandidatos a putativos Presidentes da República, como se as eleições fossem amanhã, e se tudo neste pobre País ficasse resolvido e “curado” com um novo PR. Este PR - ainda em exercício - não tem sido, de facto, o que o momento exigia; mas colocando lá muitos, uns ou outros, ficaremos com um País resolvido? Sem pensar num verdadeiro Governo. que só governe pelo País, e não por outros interesses?

Tudo tão mediatizado, tudo tão mediatizado, tudo tão fútil, tudo tão superficial.

Talvez ainda haja tempo para termos cuidado em nos tratarmos bem melhor, ou vai-nos correr tudo muito mal.

Augusto KÜTTNER DE MAGALHÃES
15 de Maio de 2015


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Xenofobia judiciária?

Casamento cigano

O caso já aqui tinha sido criticado pelo João Luís Mota Campos, no post Romeu e Julieta: uma ode à pedofilia. Mas confesso que pensei que houvesse algum exagero. Podia lá ser que o Ministério Público estivesse a perseguir por "crimes sexuais" uma família cigana toda inteira!

Afinal, é mesmo assim. Hoje, li eu a notícia com os meus olhos: Menina cigana é mãe aos 14 e aos 15 anos e o marido está no banco dos réus.

Resumo da história: a jovem casou com 12 anos e já teve, entretanto, dois filhos. O rapaz tinha 17 anos à data do casamento. O casamento foi consentido por ambos e também pelas famílias dos dois jovens. Presumo que tenha sido devidamente celebrado conforme aos usos e costumes da comunidade.

Conclusão do Ministério Público: a jovem foi abusada; e vai tudo dentro! O marido como abusador e os pais e sogros como cúmplices. O Ministério Público tem na acusação criminal contra o jovem marido, entre várias outras, esta frase que é um verdadeiro hino ao absurdo: «manteve relações sexuais de cópula completa com a menor, assim satisfazendo os seus instintos libidinosos.». A pena poderá ir de ano e meio a 12 anos de prisão. Pergunta: estará tudo louco?

Tenho ideia de que a Justiça tem coisas bem mais importantes a tratar do que obedecer a agendas que tresandam a ideologia e a perseguição. Apetece-me cada vez mais voltar ao Direito.


Representantes do povo ou moinhos de orações?

Na série de divulgação do Manifesto POR UMA DEMOCRACIA DE QUALIDADE, republicamos este artigo de António Pinho Cardão, hoje saído no jornal i.

No Tibete, as versões dos moinhos variam dos grandes maquinismos dos mosteiros às pequenas maquinetas de mão.


Representantes do povo ou moinhos de orações?

Nos templos tibetanos, e funcionando em movimento contínuo, os moinhos de orações substituem ou completam as preces dos fiéis. Como as orações impressas na roda moageira têm a mesma capacidade de chegar aos céus que as preces individuais, realiza-se o ritual e folgam os penitentes.

Lembro-me destes equipamentos de cada vez que ouço uma sessão parlamentar, nomeadamente a habitual jornada periódica de perguntas ao primeiro-ministro. Palavra por palavra, repetem-se as perguntas já mil vezes feitas e dão-se as respostas já mil vezes dadas, num ritual cíclico e infindável. Tudo se passa de modo tão igual e previsível que um cidadão minimamente atento seria capaz de relatar uma sessão de perguntas e respostas, qualquer que fosse o governo, na véspera de ela se realizar.

Sendo as coisas como se apresentam, não se perderia nada, e traria até óbvias vantagens, substituir os deputados por um moinho tibetano, trocando na roda as preces pelas orações dos deputados. Estes deixariam de se cansar com as mesmas perguntas e os primeiros- -ministros poderiam trabalhar no que mais interessa ao país, ficando, acima de tudo, o ritual salvaguardado. E assim como, no Tibete, as versões dos moinhos variam dos grandes maquinismos dos mosteiros às pequenas maquinetas de mão, entre nós, o problema ficaria resolvido com um moinho de grandeza adequada à dimensão oratória dos nossos deputados. E estou certo de que S. Bento receberia muito bem tal equipamento, lembrado do convento que em tempos já foi.

De facto, uma simples máquina era capaz de reproduzir com rigor os temas, os tiques, o estilo, a oratória vã, o vazio de conteúdo, a insistência no acessório, os remoques pessoais, a violência verbal, até o insulto que constituem palavra corrente dos nossos políticos nas intervenções, nos discursos, nas entrevistas, nos comícios, na omnipresença nas rádios e televisões.

Toda esta situação é o óbvio resultado de, legislatura após legislatura, não ter havido uma verdadeira e efectiva remodelação da classe política. Repetindo-se as mesmíssimas personagens, as ideias cristalizam e o processo bloqueia: em idênticas circunstâncias, os aplausos da maioria passam a ser os insultos, se na oposição, e as vaias da oposição transmudam-se em aplausos, se no governo.

Urge alterar este estado de coisas que, a perdurar, ferirá de morte a ideia de democracia.

No estado actual, e dada a importância do parlamento, por si e por ser um lugar privilegiado de recrutamento de pessoal para os governos, condição necessária para tal alteração é uma reforma do sistema eleitoral para a AR que atribua aos eleitores um efectivo poder na escolha dos deputados, através do voto preferencial, ou que faculte a introdução de círculos uninominais, como forma de impor um cuidado acrescido na selecção dos melhores candidatos, ou ainda que permita a admissão ao sufrágio de cidadãos independentes com genuíno interesse no serviço público.

Lamentavelmente, não se crê que os directórios partidários o façam espontaneamente, pelo que só um movimento vigoroso de opinião pública poderá levar os partidos a moverem-se no sentido de escolherem os melhores, os mais capazes, os mais sensatos, os mais devotados para as mais responsabilizantes funções públicas, a começar pelos candidatos a eleger para o parlamento.

Temos todos o dever de participar nesse movimento. Aqui e agora, passa também por aí a democracia. Substituindo por gente viva os moinhos das palavras gravadas e sempre repetidas.

António PINHO CARDÃO
Economista e gestor - Subscritor do Manifesto por Uma Democracia de Qualidade

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Tempo de acção e não apenas de palavras

Na série de divulgação do Manifesto POR UMA DEMOCRACIA DE QUALIDADE, republicamos este artigo de Henrique Neto, ontem saído no jornal i.
A questão é saber se temos no horizonte personalidades políticas com a experiência, a coragem e a ausência de compromissos partidários ou económicos para fazer as mudanças necessárias. 
Tempo de acção e não apenas de palavras
Vamos ter eleições legislativas este ano e receio que saiamos das eleições sem projecto e estratégia para Portugal e sem fazer uma avaliação séria do passado. Ora foram os erros do passado, nomeadamente das três últimas legislaturas, que conduziram o país à estagnação económica, ao empobrecimento das famílias e ao mal-estar social e político que a corrupção e os sucessivos escândalos têm agravado.

Trata-se, como já aqui escrevi, de uma questão essencialmente política, que o “Manifesto para Uma Democracia de Qualidade” escalpelizou, nomeadamente através do reconhecimento de que os deputados da Assembleia da República, escolhidos pelas direcções partidárias e votados em listas fechadas, não representam os eleitores, e, consequentemente, não fiscalizam os governos como era seu dever.

Consequentemente, acumularam-se custos enormes para os portugueses, resultantes da má gestão política, alguns provocados por uma aparente infantilidade, custos que num país mais devotado à defesa do interesse público seriam completamente inaceitáveis, porventura com implicações criminais. Por exemplo: a duplicação de tantas auto-estradas com fraca utilização, para mais à custa de um abandono da rede de caminho-de-ferro que transformou Portugal numa ilha ferroviária; os estádios de futebol caros e sem utilização económica; a generalização pelo país de estações de carregamento de energia dos inexistentes carros movidos a electricidade; o aeroporto fantasma de Beja; um Museu dos Coches desnecessário e que poderia ficar nas suas anteriores instalações; tudo feito a crédito em condições ruinosas para os contribuintes, através de parcerias público-privadas sem qualquer controlo público digno do nome.

Muitos dos erros raiam o absurdo, como construir novas vias férreas em bitola ibérica quando em Espanha, que teremos de atravessar, há anos se fez a opção de construir milhares de quilómetros de novas vias em bitola europeia. Ou, em vez de investir no futuro da ferrovia em novas linhas e comboios, gastar rios de dinheiro em estações faraónicas, como em Castanheira do Ribatejo ou Braga, ambas um case study de desperdício de dinheiros públicos, como aliás tudo o resto.

Os acontecimentos que levaram à prisão de políticos e funcionários e as acusações e condenações já formuladas sugerem que muita desta febre gastadora tinha o objectivo de servir interesses privados ilegítimos, mas, seja assim ou não, são factos incontroversos que revelam a gestão ruinosa de um número assustador de projectos executados nos últimos 20 anos, em que as revisões de preços orçamentados foram regra.
A probabilidade de que cheguem neste ano ao fim três legislaturas consecutivas sem o apuramento de responsabilidades diz muito sobre o regime político nacional e a necessidade de reformas profundas.
Em ano de eleições a questão é saber se temos no horizonte personalidades políticas com a experiência, a coragem e a ausência de compromissos partidários ou económicos para fazer as mudanças necessárias no sentido de limpar a casa e fornecer os recursos exigidos pela justiça para que esta faça o que lhe compete sem deixar dúvidas acerca da intervenção, activa ou passiva, do poder político. E temos assistido a demasiados silêncios partidários para podermos acreditar que isso aconteça. De facto, não é de esperar que quem foi parte do problema, ou esteve calado durante todos estes anos, possa agora ser parte da solução.

Por isso é essencial que nas campanhas eleitorais deste e do próximo ano os portugueses se pronunciem de forma clara sobre estas questões – questões centrais numa democracia feita de valores e de gente honrada, questões que não podem ser iludidas uma vez mais.

E que escolham novos interlocutores com o currículo, a coragem e a determinação que a tragédia portuguesa justifica, porque enfrentamos desafios que não se resolvem com discursos ideológicos ou líricos, mas com uma acção experiente e determinada.
Henrique NETO
Empresário
NOTA: artigo publicado no jornal i.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Romeu e Julieta: uma ode à pedofilia

Desculpa Julieta, tenho de fugir! Vem aí o procurador
para me prender por atentado ao pudor e estupro de menores.

Li no Público e acho que não tresli: um casal de adultos, os seus compadres, sogros da filha e o respectivo marido, um miúdo de duas escassas décadas, foram constituídos arguidos e presos por terem conspirado para casar a filha com o genro e esta ter dado à luz duas criancinhas, nos anos seguintes ao casamento.

A rapariga tinha doze anos, à época do casamento. O marido tinha dezassete. Eram ambos menores, mas ele tinha mais de 16 anos, e por isso imputável criminalmente.

Estava eu neste ponto da história, sem entender o nexus de tudo isto, quando cheguei á parte em que os pais e sogros e o marido, foram presos num acampamento familiar no Alentejo. Fez-se-me luz: eram ciganos.

Em parte nenhuma do artigo se diz que eram ciganos, mas sem essa informação a notícia é completamente destituída de sentido. A mais pura «langue de bois» que me recordo de ter lido na imprensa portuguesa.

Sendo ciganos e sendo claro que a rapariga tinha chegado à puberdade, ou seja, podia ter filhos, como teve, parece de elementar bom senso concluir que o que aconteceu é a coisa mais conforme com as tradições tribais da raça. Não para o procurador que acusou nem para o Juiz que enfiou a família na cadeia. Esses só viram o atentado ao pudor de menor.

Não lhes aconselho a leitura do Romeu e Julieta, essa peça de teatro imortal do William Shakespeare: a Julieta tinha 12 anos! A peça é uma ode à pedofilia! Devia ser era proibida…

Entretanto, a pobre miúda tem os pais, os sogros e o marido presos e dois filhos a cargo, a menos que a segurança social, os tenha posto num orfanato do Estado...

Haja Deus!

Um encontro de amigos


Terei sonhado? Diz-se que há dias, em Aguiar da Beira, terra rude e granítica do nosso interior, o Primeiro Ministro Passos Coelho encontrou na sala onde proferia uma homilia dominical, só que ao Sábado, um «velho amigo», que deu por exemplo acabado de grande empresário português, sério, recto, capaz, competente, metódico, vistas largas, mundo, grande rede de contactos de negócios, enfim, tudo o que os empresários portugueses deviam ser e não são.

O nome de tão extraordinário empresário é Manuel Dias Loureiro. Esse! Esse Loureiro.

Quando se fala em Manuel Dias BPN Loureiro - ex-conselheiro de estado, ex-ministro da Administração Interna, e ex-apoderado de Daniel Sanches, também ele por seis meses ministro dessa coisa (homem competente, em 6 mezinhos adjudicou um extraordinariamente inútil sistema de comunicações, por 510 milhões de euros, uma bagatela), ex-várias coisas, entre as quais um rombo de 6.000 milhões nas contas nacionais, à conta do BPN, desmemoriado, oficialmente mentiroso – a única coisa que vem à cabeça é que «não falem» em tal cavalheiro: é o exemplo acabado do que não devia existir em Portugal.

Mas o PM falou. Em tom tão encomiástico, que dá para acreditar que ele acha que o MDL é mesmo um exemplo a seguir. Precisávamos disto? Decerto que não.

O que é que este obiter dicta nos diz sobre o PM? Que é descarado? Que não tem vergonha na cara? Que é um imbecil? Ou que é um Forrest Gump da Politica, que chegou a PM sem saber como, mas não esquece os amigos que o fizeram lá chegar?

Diz que o Imperador Dario, o Persa, depois da revolta da liga Jónica apoiada por Atenas, ordenou a um criado que lhe repetisse todos os dias, ao sentar-se à mesa, «não te esqueças dos Atenienses». Pois Passos, devia pedir, sei lá eu, ao Relvas ou ao Portas, que em cada encontro lhe repetissem «não te lembres de falar no Dias Loureiro».

A ver se pomos um módico de higiene pública na nossa vida politica! Alguém que explique ao Passos que, mesmo que ache MDL um homem extraordinário, se lembre que a hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude…