Mostrar mensagens com a etiqueta resgate. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta resgate. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A hora de Centeno



A escolha para liderar o Eurogrupo é sem dúvida um grande êxito para Mário Centeno e uma fonte de regozijo para o governo onde é o ministro das Finanças. É também uma honra para Portugal. E uma oportunidade.

Por mim, estou contente. Sem qualquer espécie de reserva. Contente, ponto final.

Limitei-me a comentar, logo que foi anunciada a eleição do novo Presidente do Eurogrupo: “Uma boa notícia, a consagração de um bom trabalho, a responsabilidade de fazer melhor.” Isso mesmo repetiria agora. E repito.

Ontem, na rádio, ouvi Francisco Louçã prevenir contra a explosão de “centenismo” a que iria assistir-se, assestando contra a direita os seus tiros e procurando contrastar a política de Centeno com as políticas defendidas por PSD e CDS.

A prevenção de Louçã contra os “centenistas” da 25ª hora é, sem dúvida, avisada. Mas a prevenção aplica-se a si próprio e a outros das suas bandas. Ao apontar o dedo em riste, Francisco Louçã, ao espelho, está a apontar o dedo ao seu próprio nariz.

Centeno ganhou, porque, com indiscutível mérito seu e da sua equipa (bem como do primeiro-ministro), se tornou o “Ronaldo do Ecofin” (o conselho de ministros da Economia e Finanças da UE), nas palavras do diabolizado Wolfgang Schäuble.

Centeno ganhou, porque teve o apoio declarado de boa parte do PPE europeu, mostrando bem que a direita europeia não se rege pelo sectarismo dos companheiros e parceiros de Louçã.

Não vou obviamente dizer que Centeno aplicou a mesma política que PSD/CDS executariam, o que seria injusto e disparatado. Mas a política que Centeno aplicou só foi possível, porque PSD/CDS enfrentaram com coragem os anos da brasa da intervenção directa da “troika” e abriram espaço e tempo a novas escolhas e possibilidades de alternativa.

Hoje, com PSD/CDS, não teríamos políticas macroeconómicas muito diferentes, mas teríamos progressos sociais provavelmente mais lentos. O talento de Centeno, como quem faz um “patch work” muito cuidadoso e paciente, tem estado em ter mantido (e porventura melhorado) a trajectória de Portugal nos indicadores fundamentais para os equilíbrios do país e a nossa credibilidade nos mercados, nos parceiros e nas instituições, ao mesmo tempo que acelerou a chamada “reposição de rendimentos”, acorrendo à urgência de bem-estar de muitas famílias. “Chapeau!”

Mas onde a diferença de Centeno é fundamental é mesmo com os seus parceiros de geringonça. Se Centeno tivesse seguido a linha de Varoufakis, o grande herói de Louçã, Marisa Matias e Catarina Martins, estaríamos todos liquidados. Estaria Centeno destruído e nós também, debaixo da pata de um segundo resgate ou equivalente. Mesmo se o actual governo tivesse seguido uma mais moderada linha Tsipras 2, que já pediu desculpa pelo Tsipras 1 e se demarcou de Varoufakis, Centeno não teria sido consagrado como Presidente do Eurogrupo, mas não passaria de mais um pedinte humilhado por si mesmo e, por estar falido, incapaz de quaisquer escolhas.

Os derrotados da eleição de Centeno são os adversários consagrados do euro. Os vencidos pela eleição de Centeno são aqueles que sempre têm advogado a saída de Portugal da zona euro. Quem são, quem são? PEV, BE e PCP. Nem mais.

E quem foi o primeiro oráculo da eleição de Centeno? Wolfgang Schäuble, ele mesmo. E esta, hein?...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Toca o alarme e ninguém ouve

 

Saiu, anteontem, o Economic Insight do Commerzbank, sobre Portugal. As observações dos economistas deste influente banco alemão foram suficientemente tratadas pela imprensa portuguesa, também anteontem, como foi, pelo menos, o caso do: 
Jornal de Negócios: Commerzbank: Políticas do Governo podem ameaçar dívida e competitividade
Diário de Notícias: Commerzbank avisa: Políticas de Costa e Centeno podem fazer subir dívida
Observador: Commerzbank: “Portugal é a nova criança problemática” da zona euro
É útil ler cada uma destas notícias para entender bem aquilo que está em causa e os pontos principais de preocupação para estes analista externos.
 
Atentemos somente no lead do relatório, isto é, o parágrafo inicial de síntese (tradução minha):
Portugal: A nova velha criança problemática
O novo governo de esquerda de Portugal fez uma mudança fundamental na política. Como resultado, a dívida pública pode subir ainda mais e a competitividade do país pode deteriorar-se mais uma vez. Dito isto, é questionável por quanto tempo mais o governo irá continuar este curso; uma deterioração mais acentuada da situação orçamental implica o risco de que a última agência de notação diminua também o rating de Portugal para o nível de lixo no fim de Abril e, portanto, que o BCE já não possa comprar quaisquer títulos portugueses sem um novo programa de resgate. Portugal estaria, então, em risco de encontrar-se numa posição semelhante à da Grécia no último Verão. E o novo Presidente da República, a eleger em breve, poderia também parar o governo.
Lido isto, o que surpreende? 
 
Surpreende que, ao fim de dois dias sobre a apreciação do banco alemão, ainda ninguém tenha perguntado aos candidatos presidenciais sobre se, a confirmarem-se as razões desta advertência, parariam, ou não, parariam o governo. Isto é, deixam a casa arder? Ou agem antes?
 
Por que não fazem a pergunta? Que diabo! Isto é, ou não é, uma campanha eleitoral?
 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A falta de solidariedade com a Grécia: ora, puxem lá das calculadoras!

Plenário da Assembleia da República
3-Julho-2015

Todas as posições são legítimas, mas - é sabido - há umas que são mais verdadeiras do que outras. E algumas há que são completamente enganadoras e muito mentirosas.

Um dos mais flagrantes exemplos actuais é a ideia - e a afirmação - de que não tem havido (e não está a haver) solidariedade internacional com a Grécia, sobretudo por parte da União Europeia e dos seus Estados-membros.

Vamos, então, fazer umas continhas:
  • 2010 - 1º resgate: empréstimo à Grécia de 110 mil milhões de euros da troika
  • 2012 - 2º resgate: novo empréstimo à Grécia de 130 mil milhões de euros da troika 
  • 2012 - haircut, reestruturação da dívida grega, com perdão de 107 mil milhões de euros à custa dos credores, privados incluídos
  • 2015 - ELA, ajuda de liquidez de emergência do BCE, até mais de 90 mil milhões de euros
  • 2015 (em discussão) - 3º resgate: novo empréstimo de 86 mil milhões de euros do MEE - Mecanismo Europeu de Estabilidade 
Se a minha calculadora não mente, os montantes de ajuda disponibilizados à Grécia em cinco anos, ascendem a 523 mil milhões de euros! Tudo à custa do esforço de todos os outros, no equivalente a três vezes o nosso PIB.

Só a ajuda de liquidez de emergência assegurada pelo BCE, para que os bancos gregos continuassem a operar e as máquinas de multibanco a funcionar nestas semanas difíceis, foi superior ao nosso único resgate com a troika de 78 mil milhões de euros em 2011. E o perdão de dívida de que o Estado grego beneficiou foi equivalente a 52,3% do seu PIB desse ano e a cerca de 1/3 da dívida então existente.

Se isto tudo não é SOLIDARIEDADE, então já ninguém sabe o que significa a palavra solidariedade.

Tratem é de responsabilizar a incompetência dos governos gregos e a gritante irresponsabilidade dos seus políticos e dirigentes. E deixem a Europa e os outros europeus em paz.