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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Foto-estalinismo: o original, na URSS


Um dos traços do estalinismo foi a manipulação da História ao serviço da propaganda, nem só para serviço da ideologia comunista, mas para afirmação do seu poder pessoal.

Famoso pela impiedade perante os adversários, prolongava-a contra a sua memória, apagando-os de registos, rasto de acontecimentos e imagens.

São célebres alguns casos desta censura demencial, mandada executar em fotografias públicas. Os mais famosos são o apagão de Trotski e de Yezhov em fotografias com Lenine e com o próprio Estaline. Estaline não suportava a ideia - nem a imagem - de Trotski ter sido o braço-direito de Lenine ou de Yezhov ser seu leal colaborador, chefe da polícia política e executante diligente da política de encarceramento, tortura e assassinato de centenas de milhares de cidadãos da URSS.

Estaline mandou matar um e outro, Trotski e de Yezhov. Contudo, não foi suficiente matá-los. Foi preciso apagá-los também das fotografias.

Assim nasceu o foto-estalinismo, uma técnica que outros têm aprendido e vindo a copiar. Mas o autor é Estaline, honra à sua memória. Conhecido pela ferocidade brutal, este foi, em paradoxo, o maior sinal da fragilidade e insegurança de Estaline: a necessidade de apagar aqueles que abatera.


Lenine ao lado de Trotski

Trotski censurado da foto com Lenine

Estaline com Yezhov

Yezhov apagado

Lenine discursa com Trotski ao lado

Trostki "entaipado" na foto

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Kremlin doméstico


A votação, na Assembleia da República, do voto de pesar pelo falecimento de Václav Havel, na passada quinta-feira, surpreendeu quase toda a gente, embora não fosse novidade, nem surpresa. Tendemos a esquecer o que é realmente o PCP - e é sempre o PCP que faz questão de nos querer lembrar o que é.

Este 22 de Dezembro de 2011 merece ficar na História, pelo menos desta XII Legislatura. 

Vinte e dois anos depois da queda do muro de Berlim e da "revolução de veludo", que devolveu a independência e a democracia à Checoslováquia, a bancada comunista em São Bento votou contra a História, opondo-se ao pesar pela morte do histórico dirigente checo.

O voto do PCP é mais do que apenas o alinhamento passivo pelo que seria o pensamento de Estaline, Kruschev ou Brejnev, e talvez ainda Andropov, se estivessem vivos e ainda reinassem no Kremlin. É mais do que a mera rejeição da "revolução de veludo" e da democracia checa. É ainda o eco pesado dos mesmos tanques soviéticos que esmagaram a "primavera de Praga", em 1968, esse marco de tantas dissidências entre os comunistas do mundo inteiro e também nos comunistas portugueses. E é o sinal de ódio especial a um líder do antigo "bloco comunista" que provou não esquecer o que sofreu e foi sempre, até ao último dia de vida, especialmente consequente na denúncia dos regimes comunistas sobrantes e na promoção internacional da causa da liberdade e da democracia: Václav Havel, precisamente. Em Cuba, o regime castrista detesta-o. Em Lisboa, a bancada do PCP também.

O voto do PCP foi um manifesto. Um manifesto activo contra a democracia. Um manifesto contra a liberdade dos povos. Um manifesto contra o futuro.

É muito curioso este tique recorrente dos comunistas portugueses: em política externa, continuam a agir como "5.ª coluna" do imperialismo soviético. Repete-se sempre, uma e outra vez, já o observei noutras ocasiões: sempre que se trata de matéria de política internacional, o PCP age, em reflexo condicionado, como "franchising" póstumo da Praça Vermelha e dos velhos senhores do Kremlin. 

Quanto a democracia, liberdade, direitos do Homem fundamentais, o que nos safa não são os comunistas domésticos; é o Kremlin soviético que já lá não está.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

URSS - a abolição da memória



Não deixa de ser sintomático e surpreendente que o facto de passarem, hoje, exactamente 20 anos sobre o fim da União Soviética (a URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), tenha passado praticamente despercebido nos noticiários. Não mereceu qualquer destaque na imprensa, na rádio e na televisão e, na generalidade, nem sequer uma simples menção. Se alguém leu, viu ou ouviu alguma coisa sobre a efeméride, agradecemos que nos diga para fazermos uma breve estatística.

Que o fim de uma das duas potências que dominaram o século XX; de um regime nascido de uma revolução brutal, com frio poder assassino, e de uma terrível Guerra Civil; de um país, ou melhor, um regime autor dos maiores horrores e atrocidades de toda a História da Humanidade (nomeadamente no período do Estalinismo); do epicentro de exportação da revolução comunista para dezenas de países, explorando fracturas de injustiça e manipulando ilusões; do Estado que, depois de ter integrado os Aliados que derrotaram o nazismo de Hitler, fez dividir a Europa e o mundo com o Muro de Berlim e a "cortina de ferro"; de um dos pólos da "guerra fria", que nos colocou nos anos '60 a '80 à beira da III Guerra Mundial e do pavor de um Holocausto Nuclear - é mais do que simples mostra de falta de memória. É um péssimo sinal do fim da memória, de abolição da memória.

Uma das frases mais citadas de Georges Santayana diz que «quem não se lembra do passado está condenado a repeti-lo». Esperemos que não - ninguém merece voltar a viver a ruína, a brutalidade, o atraso, a ameaça, os horrores da União Soviética. Uma vez chega.




 e a AFP fizeram excelentes e curtos trabalhos de evocação da efeméride. 


Não custava nada usá-los ou referi-los.

Em 8 de Dezembro de 1991, acabou a URSS. Saudemos o fim da União Soviética! 

Façamos-lhe o inventário. E que não volte.