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quinta-feira, 5 de abril de 2018

A sociedade suicida

Na série de divulgação do Manifesto POR UMA DEMOCRACIA DE QUALIDADE, republicamos este artigo de João Luís Mota Campos, saído ontem no jornal i
Da família alargada passámos à família nuclear, desenraizada e desestruturada, fora do seu ambiente tradicional, e desta à atomização social em que o paradigma da família de pai, mãe, filhos, avós, primos, tios passou a ter o nome de “família tradicional”.  
A sociedade suicida
“Tenho defendido que vivemos em sociedades capitalistas, coloniais e patriarcais, por referência aos três principais modos de dominação da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado, mais precisamente heteropatriarcado” – Boaventura Sousa Santos, “Público”, sexta-feira, 30 de março de 2018.

Não há democracia com qualidade que possa singrar numa sociedade desequilibrada que não cumpra adequadamente as cláusulas do contrato social entre o Estado e os cidadãos.

Portugal, tal como muitas outras sociedades do mundo ocidental a que pertencemos, é uma sociedade profundamente desequilibrada, atravessada por desigualdades enormes e falta de coesão social e de crença nos seus próprios princípios fundadores, em que os cidadãos consideram ter sido traídos pelo Estado e pelas elites.

É no âmbito da estruturação social ou, mais precisamente, da desestruturação social, que este desequilíbrio mais se faz sentir: de uma sociedade que há meio século era ainda profundamente rural, atávica, que tinha uma taxa de fecundidade e de poupança superiores à média europeia, passámos para uma sociedade de consumo, com uma taxa de fertilidade das mais baixas da Europa, até negativa, com famílias profundamente endividadas, por via de uma urbanização/litoralização crescente e caótica que subverteu completamente os pilares estruturais da organização territorial do país.

Da família alargada passámos à família nuclear, desenraizada e desestruturada, fora do seu ambiente tradicional, e desta à atomização social em que o paradigma da família de pai, mãe, filhos, avós, primos, tios passou a ter o nome de “família tradicional”, como se estivéssemos a descrever uma reserva de índios…

A esta engenharia social, nas palavras de Adriano Moreira, a sociedade portuguesa não deu durante décadas qualquer resposta, antes pelo contrário, assistiu imperturbável – e com aplauso – à destruição da “sociedade patriarcal, mais precisamente heteropatriarcal”, que a esquerda portuguesa considera a forma de “dominação” a abater.

Uma forma de combater esta sociedade “heteropatriarcal” foi a invenção de uma novilíngua destinada a desmerecer os princípios fundadores da sociedade e a promover em seu lugar novos paradigmas sociais, apresentados como merecedores de aplauso. Helena Sacadura Cabral escrevia há dias um artigo em que denunciava precisamente esta novilíngua como arauto da nova sociedade que estamos a criar.

Uma das características desta nova sociedade é a imposição à opinião pública de noções desmerecedoras daquilo em que fomos educados a acreditar e que constitui a pedra de base e o cimento de qualquer sociedade, que necessita, para poder funcionar, dos seus mitos fundadores e dos seus heróis. Sem isso não há uma sociedade, há um conjunto de pessoas que nada liga entre si.

É-nos vendida a ideia de que o “Portugal que deu novos mundos ao mundo” era antes uma sociedade racista e esclavagista, que a nossa gesta universalista foi, antes do mais, um ato de agressão religiosa e racial contra povos que subjugámos, que a nossa pretensa superioridade cultural, no mundo de relativismo em que vivemos, é uma falsidade, que a nossa cultura judaico-cristã foi apenas uma invenção para permitir a elites racistas e gananciosas dominar o resto do mundo.

Muito a propósito, num filme recentemente chegado às salas de cinema, “7 Dias em Entebbe”, que conta a história do desvio de um avião da Air France com dezenas de judeus a bordo por terroristas alemães e palestinianos, um combatente palestiniano diz a um alemão que não entende porque é que ele está a fazer aquilo e conclui: “Eu faço isto porque amo o meu país, tu fazes isto porque odeias o teu.” E é isso mesmo.

Este ódio da esquerda ao nosso país, à sociedade em que nascemos e crescemos, aos seus princípios fundadores, tem consequências gravíssimas que os anos estão a cavar e a aprofundar.

De particular relevo é o ódio da esquerda à dita sociedade “heteropatriarcal”, em tudo o oposto à sociedade que a parte caviar dessa esquerda se habituou a sonhar no Frágil e que hoje tem finalmente a oportunidade de pôr em prática.

Indiferente ao facto de essa sociedade “heteropatriarcal” ser a pedra de toque da estabilidade social, o motor último da poupança, da aposta na educação dos filhos, a esquerda procura imprimir uma especial nota de desvalor a esse tipo de família, ridicularizando-a como um reduto de reacionários sociais.

Mais preocupada em acolher dignamente os desvalidos do mundo, a esquerda parece indiferente à sorte das centenas de milhares de jovens casais portugueses, famílias em potência, que não conseguem encontrar numa cidade como Lisboa um porto de abrigo familiar, uma casa que os acolha, bem como aos seus sonhos, aos seus filhos e, em suma, à sua vida.

Só isto daria um longo artigo, um tratado, mas permitam-me fazer, tão ao jeito da esquerda, uma “modesta proposta”: o que falta à Câmara Municipal de Lisboa, cujo presidente e vereadores hão de ter olhos na cara para ver o que se passa, para decidir urbanizar, de uma forma civilizada e com o fito de criar milhares de domicílios com rendas ao alcance da classe média, as dezenas e dezenas de hectares que existem por urbanizar em Lisboa, em vez de empurrar para periferias cada vez mais desestruturadas e desumanizadas esses jovens casais cujo crime é o de não serem milionários para poderem comprar casa em Lisboa?

O que lhes falta, a eles e aos municípios circundantes, para implementar e pôr a funcionar uma eficiente rede de transportes urbanos que torne suportável a vida a quem já vive longe do centro?

Uma sociedade que não cuida dos seus, que os abandona à sorte ingrata, que é indiferente ao seu próprio futuro, endividada e em regressão, é uma sociedade suicida que a prazo terá perdido o direito de existir.

Nessa sociedade, que é o contrário de tudo o que defendo, não há qualquer democracia, nem de qualidade nem outra.
João Luís MOTA CAMPOS
Advogado, ex-secretário de Estado da Justiça
Subscritor do Manifesto Por uma Democracia de Qualidade


NOTA: artigo publicado no jornal i.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Os Referendos serão reflexo de declínios da Democracia?


Em Democracia, em oposto à Ditadura, em teoria o “poder” é da População, delegado pelos votos nos eleitos “democraticamente"; em Ditadura, um chefe decide e manda como quer e lhe apetece.

Em Democracia os eleitos tratam de legislar e governar “supostamente” no interesse de bem “servir” a população.

Quando tal vai “deixando” de funcionar aberta e claramente, como está a suceder na grande maioria das Democracias Ocidentais - o resto ou são Ditaduras claramente assumidas ou Democracias a tender para a Ditadura - vão surgindo, em simultâneo, Movimentos dos Extremos e solicitações de “Referendos”, dado ter-se deixado de confiar – se alguma vez tal sucedeu – em quem elegeram/elegemos.

E supôs-se que o Referendo, sendo exclusivamente sobre um ou dois temas, se associados, é a representação directa e individual de cada cidadão no futuro desse capítulo no seu País, sem intermediários.

Por cada Referendo proposto, e mais, por cada Referendo realizado, maior machadada é dada na Democracia, mais um acto claro e explícito de que se não confia nos eleitos.

Logo, tem a População que a esses se substituir, directamente, para poder de facto expressar e concretizar o que pretende em dado momento para o seu País, se o deixarem acontecer.

Claro que os políticos eleitos têm mais visibilidade e espaço, mas também todos os outros vão tentando influenciar a votação no Referendo. Mas, de facto, já não são os – eles/elas – políticos que decidem entre si o que vai acontecer; já há uma ligação directa da População à solução.

Ao suceder assim, pode-se pensar que os eleitos democraticamente não estão a fazer o que devem, não estão a dar conta do recado como “os representantes” eleitos de/e pela população.

E, de facto, hoje, com ou sem referendos, vive-se um momento dificílimo para as Democracias, que  ainda o acham poder sê-lo.

Tal deve-se à Economia ter-se totalmente sobreposto à Política e aos políticos se terem deixado anular por aquela.

Verdadeiros políticos, como tivemos em várias ocasiões e até do final da II Guerra Mundial até à década de 70 e pouco do século passado, não existem.

Hoje, já há uns anos, mas mais nos recentes últimos vinte anos, não temos políticos de qualidade com qualidade e carisma. Só quantidade! A Política passou a ser algo de muito menos importância para os próprios. O carreirismo e o profissionalismo, em vez do carisma, têm vencido.

E, se bem que os políticos não nasçam da geração espontânea, antes surgem do meio da População, só vai para a Política quem quer; e estão a faltar Pessoas, por todo o Mundo, com qualidades intrínsecas para saber ser políticos.

Daí a classe política ter totalmente deixado de saber fazer política, o Económico “mandar” no Político, arrastando a necessidade de Referendos para haver uma ligação directa, efectiva e aberta de cada eleitor não ao seu eleito, mas à decisão a tomar.

Talvez esteja chegado o tempo de todos pensarem/pensarmos “nisto”; e de a Sociedade Civil, sem barulhos, sem banalidades, sem atrocidades, sem extremismos, fazer-se presente e ajudar a reconstruir uma verdadeira Democracia, sem ter que passar por uma penosa ditadura, de facto e sem direitos.

Augusto KÜTTNER DE MAGALHÃES
22 de Junho de 2016


quinta-feira, 27 de março de 2014

Outra homenagem: "Fernando, o semeador"

Transcrevo um texto de João Lobo Machado, originalmente publicado no aceprensa.pt, no passado dia 24 de Março:


Fernando, o semeador 
Nestes dias, têm-se multiplicado as homenagens e as palavras de reconhecimento pela sua valiosa obra e pela marca, indelével, que deixa na sociedade Portuguesa. Testemunham-no todos aqueles que o conheceram de perto - a própria família, os alunos da Escola Naval, os companheiros das inúmeras iniciativas cívicas, os muitos amigos que tinha - mas, igualmente, a própria sociedade civil. Elogiam o seu trabalho e as suas enormes qualidades, que soube, sempre, pôr ao serviço do bem comum.
As cerimónias fúnebres, incluindo o cortejo até ao cemitério, foram marcadas por uma impressionante moldura humana. Familiares, colaboradores, amigos e admiradores, quiseram dizer o último adeus e prestar uma merecida homenagem e alguém que se preocupou em ser útil à sociedade, servindo os outros.
Quem o conhecia bem admirava a sua inteligência, organização, perseverança, espírito de luta, enorme fé e um amor incondicional à família, a que juntava uma característica adicional que era uma gargalhada absolutamente contagiante.
Todos estes talentos, o Fernando partilhou com aqueles que com ele se cruzaram e aplicou nos distintos desafios que a vida lhe foi colocando e que ele, com enorme dedicação e paixão, foi abraçando. Salientam-se, de entre eles, o trabalho inestimável que fez na Associação das Famílias Numerosas, a defesa da vida, os referendos sobre o aborto, a participação e intervenção na sociedade.
Numa palavra, a sua atenção era defender e valorizar a família, a verdadeira célula base da sociedade. O Fernando e a sua mulher, Leonor, foram, pois, uns verdadeiros Embaixadores da Família.
A realidade da sociedade Portuguesa não tem sido nada favorável aos valores da família, razão pela qual mais se enaltecem as causas pelas quais o Fernando se bateu. Algumas já deram os seus frutos, enquanto outras deixaram a sua semente, bem cuidada. Caberá, agora, a cada um de nós, regar essas sementes e fazer o que nos toca para que elas frutifiquem e gerem muitos frutos.
Como homenagem ao Fernando, que bom seria que muitas empresas, associações e demais entidades, definissem e adoptassem, publicamente, o estatuto de Amigas da Família.
Parafraseando o Padre Henry Scott Holland, que dizem ter sido inspirado em Sto. Agostinho, a morte não é nada; o Fernando agora está do outro lado, à nossa espera, mas continua a pensar em e a rezar por nós.
Estou certo que Deus, contente com a forma como o Fernando usou e multiplicou os talentos que recebeu, já o recebeu na Sua casa.
Bem hajas, Fernando, por tudo o que fizeste e por aquilo que, para nós, alcançaste e semeaste.
João Lobo Machado

quarta-feira, 26 de março de 2014

O meu irmão Fernando. E a Leonor.


Não há muitas semanas, alguém me observou isto. Penso que foi a Margarida. Não tenho a certeza, mas acho que foi a Margarida Neto que me notou que não há um Dia do Irmão; e que tínhamos de fazer qualquer coisa para preencher esta lacuna.

É verdade: não há. Há tantos dias de tanta coisa e não existe um Dia dos Irmãos. Andei a ver na Internet – hoje, vê-se tudo na Internet. É exacto: não há mesmo, estabelecido, um Dia dos Irmãos e Irmãs. Depois de ter feito este comentário público, há dias, a seguir à morte do meu irmão, já recebi indicações de movimentos nesse sentido. Mas são notícias escassas e incertas, que já pus na Internet. Temos caminho para fazer.

O meu Dia do Irmão é 31 de Maio, o dia em que o Fernando nasceu.  Já não resistiu para chegar ao 31 de Maio deste ano. Já não chegou aos 62 anos. Partiu com a mesma idade do nosso pai, aos 61 anos. Parece-nos cedo; parece-nos mesmo muito cedo.

Quando eu nasci, o Fernando já cá estava. Sempre conheci a vida com o meu irmão. Foi o meu primeiro companheiro: um grande companheiro, um verdadeiro camarada.

Das frases que mais gostava de ouvir ao Fernando, no seu labor pelas famílias e pelas famílias numerosas em especial, aquela de que eu mais gosto e mais cito é esta: “Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.” Repito: “Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.”

É verdade. É exactamente assim. Eu só posso falar – e falo – da felicidade que é ter um irmão: uma felicidade indescritível, um tesouro de cumplicidade. Os meus filhos e, sobretudo, os meus sobrinhos, que são desse departamento, podem confirmar, e confirmam, a muita felicidade que é ter muitos irmãos, muitos irmãos.

Quando éramos crianças, tinha eu 10, ele já 12 anos de idade, Setembro de 1964, demos uma volta pela Europa com os nossos pais. De carro: um velho Taunus 17M, matrícula CI-79-16. Ao chegarmos a Saló, em Itália, nas margens do Lago Di Garda, entrando no hotel, o Touring Hotel, a recepcionista exclamou para os pais, apontando para nós: “Belli bambini! Uno como mamma, altro como papa!” A coisa deu risota, claro. E ficou como anedota repetida de brincadeiras familiares: “Uno como mamma, altro como papa!” Um seria mais parecido com a minha mãe, o Fernando; outro com o meu pai, eu próprio.

À medida que os anos foram passando, e sobretudo os quilos pesando e a convergência grisalha fazendo a maquilhagem a partir dos nossos 40 anos, fomo-nos achando cada vez mais parecidos. E eu sempre sorri muito ao ver os meus filhos ou os meus sobrinhos, diante de um gesto, de um à parte, de um comentário, de um riso, de uma piada, de um trejeito, de um repente qualquer, exclamarem, apontando para nós: “Iguais! São iguais! Iguaizinhos…”

Isso é uma grande responsabilidade para mim. Oxalá essa parecença e semelhança possa atenuar a dor e o vazio da partida do Fernando, no coração e no olhar daqueles que lhe são mais próximos. Deus queira.

*
* *

Nos sessenta anos que vivemos em comum este tempo, o último ano foi, para a família, carregado de novas experiências e ensinamentos. Densos, muito densos.

Fez agora um ano e um mês que foi detectada a doença que lhe foi fatal, um cancro nos pulmões da pior espécie. Foi uma terrível notícia – prognóstico ruim, mau, muito mau.

Este tempo teve dois tempos: um tempo de luta e muita esperança, sobretudo até ao Verão passado e depois ainda até Dezembro; e outro tempo de luta ainda, de esperança sempre, mas já marcado pela fatalidade, de Dezembro para cá, mais estreito desde Janeiro.

Lembro-me de ter acompanhado, não há muito, a última estrada  de uma grande amiga, a Maria José, que, nesses seus meses finais, me dizia: “Ó Zé, agora é que vamos ver se acreditamos mesmo naquilo em que andámos a dizer que acreditamos.” Ela mostrou não só acreditar, mas confiar: no Bom Pastor, de que nos deixou um testemunho formidável. O Fernando também.

Eu não sou de muitas palavras; e, nestas coisas, o Fernando também não. Entendíamo-nos sem palavras. Nestas coisas, que são difíceis e dolorosas, há como que uma “no talk rule” (uma regra de não falar) por que achamos fazer assim mais suaves estas travessias e viagens, afastando as más notícias.

De Dezembro para cá, desde antes do Natal, o caminho tornou-se mais duro e apertado. E, nas nossas conversas, com o Fernando e, às vezes, também com a Leonor, os véus foram caindo a pouco e pouco. Do que sabíamos e desconfiávamos; ou temíamos. Foi-se passando do “sei que tu sabes” ou “tu sabes que eu sei”, para “tu sabes que eu sei que tu sabes” e, mais à frente, para “tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei”.

A cada um destes véus que caía, era preciso, interiormente, fazer um luto – o outro, afinal, também sabia – e, ao mesmo tempo, recuperar o fôlego, manter e alimentar a esperança para seguir o caminho. Em frente. O Fernando foi exemplar nessa estrada de fé e testemunho. E a Leonor também. E os meus sobrinhos.

Na penúltima vez que almoçámos juntos, perto do seu trabalho, o Fernando contou-me como, aquando de uma das suas últimas crises, a meio de Fevereiro, morreu uma senhora na cama ao seu lado, no 6º andar do I.P.O., onde era assistido e socorrido nos sobressaltos que lhe aconteciam, cada vez mais frequentes. E pela forma como me contou, com pormenor, as conversas da Leonor e dele com a senhora, e com a sua filha, como a senhora voltara a rezar, a sua breve agitação final e o repentino momento sereno da partida, eu percebi que o Fernando, nesse almoço, desse dia, me estava a querer dizer que pedia a Deus que, na sua terrível doença,  lhe desse uma morte assim: que, chegada a hora, o chamasse de uma vez só.

Acredito que Deus lhe correspondeu. Ainda na terça-feira da semana passada, ao fim do dia, em sua casa em S. Domingos, rimos e planeámos coisas como se não houvesse fronteira. Na quarta-feira, faz hoje uma semana, teve o seu último Dia do Pai – merecia-o: Pai foi sempre o seu posto principal – e foi trabalhar, fora de casa; foi também à missa por S. José na Igreja de S. José. Na quinta-feira, o seu último dia, todos contam que esteve muito bem e activo de manhã, a trabalhar em casa; e, depois, à tarde, passou mal, voltou de urgência ao I.P.O., onde nos juntámos todos – e Deus chamou-o. Não sofreu muito. Graças a Deus.

Por curiosidade, nesse mesmo último dia, quinta-feira, à noite, na Internet (hoje, vê-se tudo na Internet), fui ler o Salmo da missa do dia da partida do meu irmão. Diz assim, o Salmo do dia 20 de Março:
«Feliz o homem que não segue o conselho dos ímpios,
nem se detém no caminho dos pecadores,
antes põe o seu enlevo na lei do Senhor
 e nela medita dia e noite.»
Pelo Fernando, não tenho dúvida alguma: estava preparado. Assim Deus o receba na Sua graça – e o Fernando possa já estar na companhia da nossa mãe e do nosso pai, que também partiram cedo.

Imagino até que, neste reencontro, uma vez que o Fernando foi sepultado de novo fardado como Capitão-de-Fragata, o nosso pai tenha ido logo verificar se trazia as meias bem calçadas. Há uma história, na verdade, que ilustra bem uma das facetas do temperamento do meu irmão.

Um dia, aluno ainda da Escola Naval, já depois da Páscoa, foi a casa trajando a farda de Verão, a farda branca da Marinha. Ao sentar-se e cruzar a perna, o pai, que era bom observador, notou que o Fernando trazia calçadas meias diferentes: uma curta e outra de cano alto. E disse-lhe: «Ó Fernando, tens que ter cuidado. Estás com meias diferentes.» Resposta pronta do Fernando: «Ó Pai, o Regulamento diz que as meias têm que ser brancas, não diz que têm que ser iguais.»

*
* *

O Fernando foi um grande homem. O melhor irmão que eu tive – não houve igual. Foi bom marido e um grande pai e avô. Um tio querido dos meus filhos. Um óptimo companheiro de toda a gente, um camaradão. Um bom carácter, um homem simples. Um aluno brilhante e um profissional distinto. Um excelente professor da Escola Naval. Um militar dedicado e marinheiro de eleição, a sua grande vocação. Nas curvas, e contracurvas, e percalços da vida, agradeço que o Fernando  possa ter morrido de novo ao serviço do mar, embora agora em capacidade civil, regressando ao seu território, no Fórum que dirigia – o Fernando era verdadeiramente um homem do mar. Foi o “penico” do seu curso de Marinha (para quem não saiba, “penico” é o primeiro do Curso) e o primeiro também no exigente M.I.T., em Boston, Massachusetts. Foi um grande engenheiro – desde garoto que o conheci como um “engenhocas” de grande capacidade inventiva e de solução de problemas. Fizemos inesquecíveis brincadeiras de engenharia. E era ainda um mais competente e brilhante profissional.

Foi um lutador, um lutador incansável. Uma fonte inesgotável de alegria, de optimismo e de confiança. Um homem de grandes capacidades cívicas, que pôs ao serviço da sociedade e do país, com  grande generosidade e capacidade de entrega.

Na quinta-feira à noite também, na Internet (hoje, vê-se tudo na Internet), li este título: «Morreu o “pai” das Famílias Numerosas» – era o título da notícia da Rádio Renascença online. É verdade. Todos sabemos a obra ímpar que imaginou e concretizou, concebendo, lançando e fortalecendo a APFN em Portugal. E eu pude ver (e ter o privilégio de, às vezes, acompanhar) o trabalho extraordinário que desenvolveu e edificou por toda a Europa, na ELFAC – European Large Families Confederation, e a forma como era tão estimado e tão admirado em muitos países europeus.

Fosse na temática familiar, na causa da Vida, na militância católica – De Colores! –, na visão do Mar como grande desígnio do país, ou noutras causas calorosas que abraçou na sua vida, o Fernando povoou o terreno de sinais: fez muitos amigos, incontáveis amigos, e deixou muitas sementes, inumeráveis sementes. Deixou muito por fazer. São coisas que temos de continuar.

Ainda bem que é assim. Ainda bem que nos deixou muito para fazer. É sempre bom sabermos o que temos para fazer; e para onde.

Graças a Deus.

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Umas palavras finais com alguns agradecimentos.

Na missa de encomendação, exprimi os agradecimentos da família ao município de Cascais – que foi o município do meu irmão -, à Marinha – que foi sempre o seu povo – e à Igreja, que somos todos os cristãos – Igreja que sempre acolheu o Fernando e onde ele sempre se sentiu cada vez melhor.

Junto mais alguns agradecimentos. À freguesia de S. Domingos de Rana, que era a sua Sesame Street familiar (a sua Rua Sésamo, de à vontade, pertença e confiança), onde passámos férias da nossa juventude, onde conheceria a Leonor, onde sempre viveram com todos os filhos quando por cá – e ficou, em definitivo, a ser a sua terra. Um agradecimento também ao Sistema Nacional de Saúde, em especial aos médicos, enfermeiras e auxiliares que o trataram e socorreram, sobretudo neste último ano tão exigente, a todos os que puseram o sistema de pé, o desenvolvem e mantêm, apesar das dificuldades – sem o sistema de Saúde, nós não teríamos como.

Enfim, uma palavra para a Leonor. Os meus pais foram padrinhos de casamento da Leonor e do Fernando, em 2 de Junho de 1973. Em representação da mãe e do pai, que já não estão cá para o fazerem directamente, eu quero agradecer à Leonor a felicidade que deu e partilhou com o Fernando, o amor e a coragem incondicionais de vida inteira e total, desde aquele primeiro dia adolescente junto ao nicho de Santo António, nos Gafanhotos, até ao leito da morte propriamente dito, no cubículo discreto da urgência do I.P.O. Eu sou testemunha. Alguns de nós, amigos e familiares aqui presentes, estivemos em S. Domingos de Rana nas Bodas de Prata do Fernando e da Leonor, em 1998. No passado dia 20 de Março deste ano, 2014, a Leonor e o Fernando celebraram também as suas Bodas de Diamante: de diamante, porque são rijas, porque são eternas e porque brilham. Hoje, é também o 7º dia dessa festa.

Graças a Deus.

José Ribeiro e Castro
Lisboa, Santa Maria de Belém, quarta-feira, 26 de Março de 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Fernando Ribeiro e Castro: “Vai ser o meu último mandato!”

A Ana Cid Gonçalves, secretária-geral da APFN - Associação Portuguesa das Famílias Numerosas, escreveu, no mural da página de Facebook do meu irmão Fernando, este testemunho, que aqui agradeço e partilho, de forma reconhecida. É tudo verdade. Também fui testemunha.


“Vai ser o meu último mandato!”
Foi o que o Fernando declarou nas últimas eleições da APFN em que ainda se candidatou a Presidente da Direcção após a nossa insistência para que o fizesse. 
Longe estávamos, ele e nós, de saber do terrível cancro que o viria a levar tão precocemente… 
Conheci-o há 10 anos quando um amigo me pediu que desse uma ajuda na organização do II Congresso Europeu de Famílias Numerosas que se realizou em Portugal em 2004. O Fernando que eu conheci fazia de tudo na APFN: colava etiquetas, atendia telefones, fazia apresentações, escrevia, angariava artigos e compunha o boletim, geria os sócios numa aplicação informática integralmente criada por ele e que ainda hoje usamos... Mas também realizava trabalhos de fundo que exigiam muito tempo de recolha e tratamento de dados, pesquisa e compilação de informação (como os primeiros cadernos da APFN) e até mesmo o desenho conceptual de políticas públicas que hoje se mantém totalmente actual. Isto tudo de forma totalmente generosa e voluntária, noite dentro, após o seu horário de trabalho profissional e contribuindo muitas vezes com recursos próprios seus, como quando correu o país para arranjar delegados a expensas próprias.  
Fui totalmente contagiada por esta energia e generosidade, e um assunto que para mim nem sequer era assunto, passou a ser o assunto da minha vida.  
Sempre admirei a sua frontalidade e transparência. Nada na manga… Tudo o que pensava se conhecia. Muito directo e nada politicamente correcto, afirmava as suas fortes convicções de forma desabrida. Tinha sempre opinião que invocava muito seguramente mas, da mesma forma que o fazia, também era capaz de, no minuto seguinte e com toda a humildade, reconhecer razão na outra pessoa. 
Era muitas vezes mal interpretado, o que às vezes me entristecia. Frequentemente lhe atribuíam palavras, ideias e pensamentos que nunca teve. E ele sabia isso e, também por essa razão, queria que mais pessoas falassem em nome da APFN. 
Totalmente liberto de protagonismos, não procurava as luzes da ribalta. Sempre teve a preocupação e o cuidado de garantir que, como ele dizia, “a APFN não pode ser a Associação do Fernando”. Tudo fez para que tivéssemos uma equipa profissional capaz de dar resposta aos desafios com e sem ele. 
Apesar de profissionalmente ter tido sempre profissões exigentes e trabalhosas em termos de tempo, nunca deixou de dar pronta resposta a todas as necessidades da APFN e acredito que também de outros assuntos como, por exemplo, os da Confederação Europeia de Famílias Numerosas a que também presidia. Milagrosamente, arranjava sempre tempo para responder a todos os assuntos, muitas vezes no minuto seguinte. Extraordinariamente inteligente e rápido.  
Um maravilhoso sentido de humor. Achava tanta graça às nossas palhaçadas que chegámos a fazer capas de boletim falsas e outras brincadeiras só para ouvir as suas gargalhadas estrondosas. Era rara a vez que estávamos juntos e que não brincássemos a propósito de qualquer coisa.  
Mal entrava na sede, dava-se por ele. Acompanhava e estava próximo do nosso trabalho. Valorizava e entusiasmava muito a equipa. Distribuía os louros e agradecia constantemente o trabalho dos outros. 
Muito exigente, pensava em tudo e tudo fazia com enorme dedicação, mas também era muito compreensivo quando alguém falhava e as coisas não corriam exactamente como deviam. Podia até ficar bastante zangado num minuto mas, no minuto seguinte, já não era nada. 
Sempre apaixonado pela sua querida Leonor e pelos seus filhos e netos, vivia aquilo em que acreditava: uma família estável, unida e forte, e muitos irmãos, "é o melhor que se pode dar aos filhos". Os olhos brilhavam e sorriam quando falava deles e falava muitas vezes. 
Foi um visionário e antecipou muito do que hoje vivemos e do que teremos que enfrentar no futuro. Mesmo sabendo das dificuldades, era um optimista com uma enorme alegria de viver. Mas, tal como adorava viver, entregou-se tranquila e corajosamente à realidade de uma morte prematura anunciada.  
Embora sabendo que continuas connosco, sentimos e sentiremos muito a tua falta, Fernando.  
Agradeço muito o tanto que me deste. O exemplo, o testemunho, a força, o entusiasmo… Também tudo o que deste à APFN.  
Ana Cid Gonçalves

sexta-feira, 21 de março de 2014

O meu irmão Fernando


Não há muitas semanas que alguém me observou isto. Penso que foi a Margarida. Não tenho a certeza, mas acho que foi a Margarida Neto que me notou que não há um Dia do Irmão; e que tínhamos de fazer qualquer coisa para preencher esta lacuna.

É verdade: não há um Dia do Irmão. Há tantos dias de tanta coisa e não há um Dia do Irmão. Andei a ver na Internet – hoje, vê-se tudo na Internet. É verdade: não há mesmo um Dia do Irmão. Parece que, na Índia ou no Nepal, se celebra um 5 de Setembro ou coisa assim. Mas, mesmo essas, são notícias escassas e incertas. 

O meu Dia do Irmão é 31 de Maio, o dia em que o Fernando nasceu.  Já não resistiu para chegar ao 31 de Maio deste ano. Já não chegou aos 62 anos. Partiu com a mesma idade do nosso pai, aos 61 anos. Parece-nos cedo; parece-nos muito cedo. 

Quando eu nasci, o Fernando já cá estava. Sempre conheci a vida com o meu irmão. Foi o meu primeiro companheiro: um grande companheiro, um verdadeiro camarada.

Das frases que mais gostava de ouvir ao Fernando, no seu labor pelas famílias e pelas famílias numerosas em especial, aquela de que eu mais gosto e mais cito é esta: “Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.” Repito: “Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.”

É verdade. É exactamente assim. Eu só posso falar – e falo – da felicidade que é ter um irmão: uma felicidade indescritível, um tesouro de cumplicidade. Os meus filhos e, sobretudo, os meus sobrinhos, que são desse departamento, podem confirmar, e confirmam, a muita felicidade que é ter muitos irmãos, muitos irmãos.

Quando éramos crianças, tinha eu 10, ele já 12 anos de idade, Setembro de 1964, demos uma volta pela Europa com os nossos pais. De carro: um velho Taunus 17M, matrícula CI-79-16. Ao chegar a Saló, em Itália, nas margens do Lago Di Garda, entrando no hotel, o Touring Hotel, a recepcionista exclamou para os pais, apontando para nós: “Belli bambini! Uno como mamma, altro como papa!” A coisa deu risota, claro. E ficou como anedota repetida de brincadeiras familiares: “Uno como mamma, altro como papa!” Um seria mais parecido com a minha mãe, o Fernando; outro com o meu pai, eu próprio.

À medida que os anos foram passando, e sobretudo os quilos pesando e a convergência grisalha fazendo a maquilhagem a partir dos nossos 40 anos, fomo-nos achando cada vez mais parecidos. E eu sempre sorri muito ao ver os meus filhos ou os meus sobrinhos, diante de um gesto, de um à parte, de um comentário, de um riso, de uma piada, de um trejeito, de um repente qualquer, exclamarem a rir, apontando para nós: “Iguais! São iguais! Iguaizinhos…”

Isso é uma grande responsabilidade para mim. Oxalá essa parecença e semelhança possa atenuar a dor e o vazio da partida do Fernando, no coração e no olhar daqueles que lhe são mais próximos. Deus queira.

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Nos sessenta anos que vivemos em comum, este tempo, o último ano, foi, para a família, carregado de novas experiências e ensinamentos. Densos, muito densos.

Faz agora um ano e um mês que foi detectada a doença que lhe foi fatal. Foi uma terrível notícia – prognóstico ruim, mau, muito mau.

Este tempo teve dois tempos: um tempo de luta e muita esperança, sobretudo até ao Verão passado e depois ainda até Dezembro; e outro tempo de luta ainda, de esperança sempre, mas já marcado pela fatalidade, de Dezembro para cá, mais estreito desde Janeiro.

Lembro-me de ter acompanhado, não há muito, a última estrada  de uma grande amiga, a Maria José, que, nesses seus meses finais, me dizia: “Ó Zé, agora é que vamos ver se acreditamos mesmo naquilo em que andámos a dizer que acreditamos.” Ela mostrou não só acreditar, mas confiar: no Bom Pastor, de que nos deixou um testemunho formidável. O Fernando também.

Eu não sou de muitas palavras; e, nestas coisas, o Fernando também não. Entendíamo-nos sem palavras. Nestas coisas, que são difíceis e dolorosas, há como que uma “no talk rule” (uma regra de não falar) por que achamos fazer assim mais suaves estas travessias e viagens, afastando as más notícias.

De Dezembro para cá, desde antes do Natal, o caminho tornou-se mais duro e apertado. E, nas nossas conversas, com o Fernando e, às vezes, também com a Leonor, os véus foram caindo a pouco e pouco: do que sabíamos e desconfiávamos; ou temíamos. Foi-se passando do “sei que tu sabes” ou “tu sabes que eu sei”, para “tu sabes que eu sei que tu sabes” e, mais à frente, para “tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei”

A cada um destes véus que caía, era preciso, interiormente, fazer um luto – o outro, afinal, também sabia – e, ao mesmo tempo, recuperar o fôlego, manter e alimentar a esperança para seguir o caminho. Em frente. O Fernando foi exemplar nessa estrada de fé e testemunho. E a Leonor também. E os meus sobrinhos.

Na penúltima vez que almoçámos juntos, perto do seu trabalho, o Fernando contou-me como, aquando de uma das suas últimas crises, a meio de Fevereiro, morreu uma senhora na cama ao seu lado, no 6º andar do I.P.O., onde era assistido e socorrido nos sobressaltos que lhe aconteciam, cada vez mais frequentes. E, pela forma como me contou, com pormenor, as conversas da Leonor e dele com a senhora, e com a sua filha, como a senhora voltara a rezar, a sua breve agitação final e o momento sereno da partida, eu percebi que o Fernando, nesse almoço, desse dia, me estava a querer dizer que pedia a Deus que, na sua terrível doença, lhe desse uma morte assim: que, chegada a hora, o chamasse de uma vez só.

Acredito que Deus lhe correspondeu. Ainda na passada terça-feira, ao fim do dia, aqui em S. Domingos, rimos e planeámos coisas como se não houvesse fronteira. Na quarta-feira, teve o seu último Dia do Pai – merecia-o: Pai foi sempre o seu posto principal – e foi trabalhar, fora de casa. Na quinta-feira, ontem, o seu último dia, todos contam que esteve muito bem e activo de manhã, a trabalhar em casa; e, depois, à tarde, passou mal, voltou ao I.P.O., onde nos juntámos, e Deus chamou-o. Não sofreu muito. Graças a Deus.

Por curiosidade, ontem mesmo, quinta-feira, à noite, na Internet (hoje, vê-se tudo na Internet), fui ler o Salmo da missa do dia da partida do meu irmão. Reza assim, o Salmo do dia 20 de Março: 
«Feliz o homem que não segue o conselho dos ímpios,
nem se detém no caminho dos pecadores,
antes põe o seu enlevo na lei do Senhor
e nela medita dia e noite.» 
Pelo Fernando, não tenho dúvida alguma. Estava preparado. Assim Deus o receba na Sua graça – e o Fernando possa já estar na companhia da nossa mãe e do nosso pai, que também partiram cedo.

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O Fernando foi um grande homem. O melhor irmão que eu tive – não houve igual. Foi bom marido e um grande pai e avô. Um tio querido dos meus filhos. Um óptimo companheiro de toda a gente, um camaradão. Um bom carácter, um homem simples. Um aluno brilhante e um profissional distinto. Um excelente professor da Escola Naval. Um militar dedicado e marinheiro de eleição, a sua grande vocação. Nas curvas, e contracurvas, e percalços da vida, agradeço que o Fernando  possa ter morrido de novo ao serviço do mar, embora agora em capacidade civil, regressando ao seu território, no Fórum que dirigia – o Fernando era verdadeiramente um homem do mar. Foi o “penico” do seu curso de Marinha (para quem não saiba, “penico” é o primeiro do curso) e o primeiro também no exigente M.I.T., em Boston, Massachusetts. Foi um grande engenheiro – desde garoto que o conheci como um “engenhocas” de grande capacidade inventiva e de solução de problemas. Fizemos inesquecíveis brincadeiras de engenharia. E era ainda um mais competente e brilhante profissional.

Foi um lutador, um lutador incansável. Uma fonte inesgotável de alegria, de optimismo e de confiança. Um homem de excepcionais capacidades cívicas, que pôs ao serviço da sociedade e do país, com  grande generosidade e capacidade de entrega.

Ontem à noite também, na Internet (hoje, vê-se tudo na Internet), li este título: «Morreu o “pai” das Famílias Numerosas» – era o título da notícia da Rádio Renascença online. É verdade. Todos sabemos a obra ímpar que imaginou e concretizou, concebendo, lançando e fortalecendo a APFN em Portugal. E eu pude ver (e ter o privilégio de, às vezes, acompanhar) o trabalho extraordinário que desenvolveu e edificou por toda a Europa, na ELFAC – European Large Families Confederation, e a forma como era tão estimado e tão admirado em muitos países europeus.

Fosse na temática familiar, na causa da vida, na militância católica – De Colores! –, na visão do Mar como grande desígnio do país, ou noutras causas calorosas que abraçou na sua vida, o Fernando povoou o terreno de sinais: fez muitos amigos, incontáveis amigos, e deixou muitas sementes, inumeráveis sementes. Deixou muito por fazer. São coisas que temos de continuar.

Ainda bem que é assim. Ainda bem que nos deixou muito para fazer. É sempre bom sabermos o que temos para fazer; e para onde. 

Graças a Deus.


José Ribeiro e Castro
S. Domingos de Rana, sexta-feira, 21 de Março de 2014