domingo, 5 de janeiro de 2014

Gratidão por Eusébio


Ainda não estou bem em mim. Ou talvez esteja exactamente em mim. De manhã, apeteceu-me chorar. E, de facto, chorei. Ainda me vêm as lágrimas aos olhos, assim aos bocados, não se sabe bem donde.

Eusébio já nos tinha pregado alguns sustos nos últimos anos. Desta, pela madrugada, foi mesmo. Deus foi seu amigo: deu-lhe uma morte serena e suave – sossegada. Eusébio é dos que o merecia. Nós é que gostávamos de o ter mais tempo connosco. Quereríamos tê-lo sempre connosco, ser cada um de nós a partir antes dele. É isso que faz de alguns eternos. Eusébio é um desses, raros: eterno.

Para aqueles, como eu, que nasceram para a vida nos anos 60, Eusébio é uma marca profundíssima. Essa década, que foi a década do Eusébio, foi a década principal da minha juventude, a década de todas as perguntas e das principais respostas, a década das descobertas, a década das primeiras escolhas, a década das referências fundamentais, a década dos sabores, a década das emoções, a década das pertenças, a década do caminho. Eusébio esteve nisso tudo. 

Nesse território tribal intenso que é o mundo do futebol e da sua indescritível paixão total, Eusébio deu significado e intensidade única à emoção de multidões. No Benfica, para os que somos benfiquistas, e em Portugal, para os que somos portugueses, Eusébio fez mais nós cada um de nós. Uniu. E, para aqueles que não são nem benfiquistas, nem portugueses, foi sempre evidente a profunda admiração e respeito que tinham por esse fortíssimo símbolo pessoal de tribos alheias.

Eusébio era uma grande figura. Uma grande figura do futebol, do desporto, da sociedade e da vida. Uma grande figura do Benfica, de Portugal e do mundo. No seu génio, na sua raça, no seu talento, na sua capacidade de luta, no seu sentido de equipa, na sua humildade, na simplicidade, na garra, nos seus golos, claro! Foi verdadeiramente nosso, era verdadeiramente um de nós e nós dele.

Está tudo dito e escrito sobre a final de Amesterdão contra o Real Madrid, nos Campeões Europeus, ou sobre aqueles quartos-de-final loucos com a Coreia do Norte, no Mundial de 66. Está tudo dito e escrito sobre momentos e jornadas inumeráveis. Está tudo dito e escrito sobre o talento extraordinário desse jogador fabuloso que foi o Eusébio. Mas queremos ler, ver e ouvir tudo outra vez. Eusébio é tema incansável.

Ontem, por sinal, fui almoçar num tascozito de bairro com um amigo com quem não estava há muito: o António Lobo Antunes. Benfiquista como eu, a viagem da nossa conversa cruzou-se às tantas com Eusébio. O António lançou o tema da inteligência do Eusébio. Concordei. E ali estivemos cinco minutos a discorrer, a saborear, a avaliar, a admirar a extraordinária inteligência do Eusébio. Era preciso conhecê-lo – e ter falado com ele. Era preciso também – como nos achámos a discorrer nesses cinco minutos, o António e eu – ter presente a extraordinária inteligência que qualquer grande jogador de futebol tem de ter: em vários momentos, é ele sozinho contra 11 do outro lado e agindo com 10 atrás de si. A capacidade de discernimento, o sentido de “leitura de todo o jogo” (como dizem os comentadores), a memória acumulada de situações, a rapidez de decisão, a intuição, a acção cruzada com o raciocínio a altíssima velocidade – são desafios e situações que requerem não só habilidade, mas sobretudo inteligência, inteligência fulminante e certeira. Eusébio tinha-a a rodos. Era muito inteligente! A vida fez com ele ainda mais que isso: deu-lhe sabedoria. Eusébio era um sábio.

Um último traço que me ocorre é o traço da fidelidade. Eusébio era um fiel. Ao seu modo masculino e africano, creio que foi fiel à sua família. E Eusébio foi fiel, sempre fiel, à sua gente: aos seus colegas, aos seus amigos, aos adeptos, aos companheiros, ao povo que o seguia, aos jovens, aos miúdos, à criançada que o bebia como inspiração, ao Benfica, aos benfiquistas, aos portugueses, a Portugal, a Moçambique. Eusébio foi sempre fiel. Eusébio nunca desapontou, Eusébio nunca traiu, Eusébio nunca faltou. 

Eusébio – no que é outro sinal da sua inteligência e sabedoria – soube manter-se fiel, até em terrenos muito difíceis, delicados e sensíveis. Eusébio é moçambicano, natural de Lourenço Marques, hoje Maputo. E foi atravessado no seu tempo e na sua vida pela separação de Portugal e de Moçambique, pela descolonização, como dizemos. Eusébio soube ser fiel, como poucos, a Portugal e a Moçambique, atravessando de forma imaculada esse tempo de travessia. É um herói nacional português e nunca traiu Moçambique ou os moçambicanos. É fortíssima referência de Moçambique e nunca teve que abandonar Portugal, nem de trair a selecção, a sua memória e a sua pertença. Atravessou o tempo da única maneira que tem de ser: com naturalidade. Eusébio era também assim: natural.

Se o tivéssemos ouvido ontem, tê-lo-íamos certamente ouvido contar jogadas, desafios, episódios como tantas vezes: um mais velho sorrindo como criança, um mais velho que acorda dentro de cada um de nós essa centelha boa de criança.

É esse Eusébio referência fundamental dos meus anos, esse Eusébio fabuloso, esse Eusébio inteligente e sábio, esse Eusébio fiel, esse Eusébio criança, esse Eusébio eterno, esse mais velho e menino – que eu recordo. Choro por partir. Ainda não estou bem em mim. Ou talvez esteja exactamente em mim. Sorrio por lembrar. Sorrio por poder agradecer. Tenho muito para lhe agradecer.

2 comentários:

Joaquim Carlos disse...

Muito bem.

João disse...

Mais um muito bom texto que leio em homenagem ao Eusébio. Gostava apenas de referir que secalhar um texto/crítica/opinião sobre o aproveitamento desprezível que o presidente LFV está a fazer desta situação, nem era mal pensado.