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quarta-feira, 26 de março de 2014

O meu irmão Fernando. E a Leonor.


Não há muitas semanas, alguém me observou isto. Penso que foi a Margarida. Não tenho a certeza, mas acho que foi a Margarida Neto que me notou que não há um Dia do Irmão; e que tínhamos de fazer qualquer coisa para preencher esta lacuna.

É verdade: não há. Há tantos dias de tanta coisa e não existe um Dia dos Irmãos. Andei a ver na Internet – hoje, vê-se tudo na Internet. É exacto: não há mesmo, estabelecido, um Dia dos Irmãos e Irmãs. Depois de ter feito este comentário público, há dias, a seguir à morte do meu irmão, já recebi indicações de movimentos nesse sentido. Mas são notícias escassas e incertas, que já pus na Internet. Temos caminho para fazer.

O meu Dia do Irmão é 31 de Maio, o dia em que o Fernando nasceu.  Já não resistiu para chegar ao 31 de Maio deste ano. Já não chegou aos 62 anos. Partiu com a mesma idade do nosso pai, aos 61 anos. Parece-nos cedo; parece-nos mesmo muito cedo.

Quando eu nasci, o Fernando já cá estava. Sempre conheci a vida com o meu irmão. Foi o meu primeiro companheiro: um grande companheiro, um verdadeiro camarada.

Das frases que mais gostava de ouvir ao Fernando, no seu labor pelas famílias e pelas famílias numerosas em especial, aquela de que eu mais gosto e mais cito é esta: “Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.” Repito: “Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.”

É verdade. É exactamente assim. Eu só posso falar – e falo – da felicidade que é ter um irmão: uma felicidade indescritível, um tesouro de cumplicidade. Os meus filhos e, sobretudo, os meus sobrinhos, que são desse departamento, podem confirmar, e confirmam, a muita felicidade que é ter muitos irmãos, muitos irmãos.

Quando éramos crianças, tinha eu 10, ele já 12 anos de idade, Setembro de 1964, demos uma volta pela Europa com os nossos pais. De carro: um velho Taunus 17M, matrícula CI-79-16. Ao chegarmos a Saló, em Itália, nas margens do Lago Di Garda, entrando no hotel, o Touring Hotel, a recepcionista exclamou para os pais, apontando para nós: “Belli bambini! Uno como mamma, altro como papa!” A coisa deu risota, claro. E ficou como anedota repetida de brincadeiras familiares: “Uno como mamma, altro como papa!” Um seria mais parecido com a minha mãe, o Fernando; outro com o meu pai, eu próprio.

À medida que os anos foram passando, e sobretudo os quilos pesando e a convergência grisalha fazendo a maquilhagem a partir dos nossos 40 anos, fomo-nos achando cada vez mais parecidos. E eu sempre sorri muito ao ver os meus filhos ou os meus sobrinhos, diante de um gesto, de um à parte, de um comentário, de um riso, de uma piada, de um trejeito, de um repente qualquer, exclamarem, apontando para nós: “Iguais! São iguais! Iguaizinhos…”

Isso é uma grande responsabilidade para mim. Oxalá essa parecença e semelhança possa atenuar a dor e o vazio da partida do Fernando, no coração e no olhar daqueles que lhe são mais próximos. Deus queira.

*
* *

Nos sessenta anos que vivemos em comum este tempo, o último ano foi, para a família, carregado de novas experiências e ensinamentos. Densos, muito densos.

Fez agora um ano e um mês que foi detectada a doença que lhe foi fatal, um cancro nos pulmões da pior espécie. Foi uma terrível notícia – prognóstico ruim, mau, muito mau.

Este tempo teve dois tempos: um tempo de luta e muita esperança, sobretudo até ao Verão passado e depois ainda até Dezembro; e outro tempo de luta ainda, de esperança sempre, mas já marcado pela fatalidade, de Dezembro para cá, mais estreito desde Janeiro.

Lembro-me de ter acompanhado, não há muito, a última estrada  de uma grande amiga, a Maria José, que, nesses seus meses finais, me dizia: “Ó Zé, agora é que vamos ver se acreditamos mesmo naquilo em que andámos a dizer que acreditamos.” Ela mostrou não só acreditar, mas confiar: no Bom Pastor, de que nos deixou um testemunho formidável. O Fernando também.

Eu não sou de muitas palavras; e, nestas coisas, o Fernando também não. Entendíamo-nos sem palavras. Nestas coisas, que são difíceis e dolorosas, há como que uma “no talk rule” (uma regra de não falar) por que achamos fazer assim mais suaves estas travessias e viagens, afastando as más notícias.

De Dezembro para cá, desde antes do Natal, o caminho tornou-se mais duro e apertado. E, nas nossas conversas, com o Fernando e, às vezes, também com a Leonor, os véus foram caindo a pouco e pouco. Do que sabíamos e desconfiávamos; ou temíamos. Foi-se passando do “sei que tu sabes” ou “tu sabes que eu sei”, para “tu sabes que eu sei que tu sabes” e, mais à frente, para “tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei”.

A cada um destes véus que caía, era preciso, interiormente, fazer um luto – o outro, afinal, também sabia – e, ao mesmo tempo, recuperar o fôlego, manter e alimentar a esperança para seguir o caminho. Em frente. O Fernando foi exemplar nessa estrada de fé e testemunho. E a Leonor também. E os meus sobrinhos.

Na penúltima vez que almoçámos juntos, perto do seu trabalho, o Fernando contou-me como, aquando de uma das suas últimas crises, a meio de Fevereiro, morreu uma senhora na cama ao seu lado, no 6º andar do I.P.O., onde era assistido e socorrido nos sobressaltos que lhe aconteciam, cada vez mais frequentes. E pela forma como me contou, com pormenor, as conversas da Leonor e dele com a senhora, e com a sua filha, como a senhora voltara a rezar, a sua breve agitação final e o repentino momento sereno da partida, eu percebi que o Fernando, nesse almoço, desse dia, me estava a querer dizer que pedia a Deus que, na sua terrível doença,  lhe desse uma morte assim: que, chegada a hora, o chamasse de uma vez só.

Acredito que Deus lhe correspondeu. Ainda na terça-feira da semana passada, ao fim do dia, em sua casa em S. Domingos, rimos e planeámos coisas como se não houvesse fronteira. Na quarta-feira, faz hoje uma semana, teve o seu último Dia do Pai – merecia-o: Pai foi sempre o seu posto principal – e foi trabalhar, fora de casa; foi também à missa por S. José na Igreja de S. José. Na quinta-feira, o seu último dia, todos contam que esteve muito bem e activo de manhã, a trabalhar em casa; e, depois, à tarde, passou mal, voltou de urgência ao I.P.O., onde nos juntámos todos – e Deus chamou-o. Não sofreu muito. Graças a Deus.

Por curiosidade, nesse mesmo último dia, quinta-feira, à noite, na Internet (hoje, vê-se tudo na Internet), fui ler o Salmo da missa do dia da partida do meu irmão. Diz assim, o Salmo do dia 20 de Março:
«Feliz o homem que não segue o conselho dos ímpios,
nem se detém no caminho dos pecadores,
antes põe o seu enlevo na lei do Senhor
 e nela medita dia e noite.»
Pelo Fernando, não tenho dúvida alguma: estava preparado. Assim Deus o receba na Sua graça – e o Fernando possa já estar na companhia da nossa mãe e do nosso pai, que também partiram cedo.

Imagino até que, neste reencontro, uma vez que o Fernando foi sepultado de novo fardado como Capitão-de-Fragata, o nosso pai tenha ido logo verificar se trazia as meias bem calçadas. Há uma história, na verdade, que ilustra bem uma das facetas do temperamento do meu irmão.

Um dia, aluno ainda da Escola Naval, já depois da Páscoa, foi a casa trajando a farda de Verão, a farda branca da Marinha. Ao sentar-se e cruzar a perna, o pai, que era bom observador, notou que o Fernando trazia calçadas meias diferentes: uma curta e outra de cano alto. E disse-lhe: «Ó Fernando, tens que ter cuidado. Estás com meias diferentes.» Resposta pronta do Fernando: «Ó Pai, o Regulamento diz que as meias têm que ser brancas, não diz que têm que ser iguais.»

*
* *

O Fernando foi um grande homem. O melhor irmão que eu tive – não houve igual. Foi bom marido e um grande pai e avô. Um tio querido dos meus filhos. Um óptimo companheiro de toda a gente, um camaradão. Um bom carácter, um homem simples. Um aluno brilhante e um profissional distinto. Um excelente professor da Escola Naval. Um militar dedicado e marinheiro de eleição, a sua grande vocação. Nas curvas, e contracurvas, e percalços da vida, agradeço que o Fernando  possa ter morrido de novo ao serviço do mar, embora agora em capacidade civil, regressando ao seu território, no Fórum que dirigia – o Fernando era verdadeiramente um homem do mar. Foi o “penico” do seu curso de Marinha (para quem não saiba, “penico” é o primeiro do Curso) e o primeiro também no exigente M.I.T., em Boston, Massachusetts. Foi um grande engenheiro – desde garoto que o conheci como um “engenhocas” de grande capacidade inventiva e de solução de problemas. Fizemos inesquecíveis brincadeiras de engenharia. E era ainda um mais competente e brilhante profissional.

Foi um lutador, um lutador incansável. Uma fonte inesgotável de alegria, de optimismo e de confiança. Um homem de grandes capacidades cívicas, que pôs ao serviço da sociedade e do país, com  grande generosidade e capacidade de entrega.

Na quinta-feira à noite também, na Internet (hoje, vê-se tudo na Internet), li este título: «Morreu o “pai” das Famílias Numerosas» – era o título da notícia da Rádio Renascença online. É verdade. Todos sabemos a obra ímpar que imaginou e concretizou, concebendo, lançando e fortalecendo a APFN em Portugal. E eu pude ver (e ter o privilégio de, às vezes, acompanhar) o trabalho extraordinário que desenvolveu e edificou por toda a Europa, na ELFAC – European Large Families Confederation, e a forma como era tão estimado e tão admirado em muitos países europeus.

Fosse na temática familiar, na causa da Vida, na militância católica – De Colores! –, na visão do Mar como grande desígnio do país, ou noutras causas calorosas que abraçou na sua vida, o Fernando povoou o terreno de sinais: fez muitos amigos, incontáveis amigos, e deixou muitas sementes, inumeráveis sementes. Deixou muito por fazer. São coisas que temos de continuar.

Ainda bem que é assim. Ainda bem que nos deixou muito para fazer. É sempre bom sabermos o que temos para fazer; e para onde.

Graças a Deus.

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* *

Umas palavras finais com alguns agradecimentos.

Na missa de encomendação, exprimi os agradecimentos da família ao município de Cascais – que foi o município do meu irmão -, à Marinha – que foi sempre o seu povo – e à Igreja, que somos todos os cristãos – Igreja que sempre acolheu o Fernando e onde ele sempre se sentiu cada vez melhor.

Junto mais alguns agradecimentos. À freguesia de S. Domingos de Rana, que era a sua Sesame Street familiar (a sua Rua Sésamo, de à vontade, pertença e confiança), onde passámos férias da nossa juventude, onde conheceria a Leonor, onde sempre viveram com todos os filhos quando por cá – e ficou, em definitivo, a ser a sua terra. Um agradecimento também ao Sistema Nacional de Saúde, em especial aos médicos, enfermeiras e auxiliares que o trataram e socorreram, sobretudo neste último ano tão exigente, a todos os que puseram o sistema de pé, o desenvolvem e mantêm, apesar das dificuldades – sem o sistema de Saúde, nós não teríamos como.

Enfim, uma palavra para a Leonor. Os meus pais foram padrinhos de casamento da Leonor e do Fernando, em 2 de Junho de 1973. Em representação da mãe e do pai, que já não estão cá para o fazerem directamente, eu quero agradecer à Leonor a felicidade que deu e partilhou com o Fernando, o amor e a coragem incondicionais de vida inteira e total, desde aquele primeiro dia adolescente junto ao nicho de Santo António, nos Gafanhotos, até ao leito da morte propriamente dito, no cubículo discreto da urgência do I.P.O. Eu sou testemunha. Alguns de nós, amigos e familiares aqui presentes, estivemos em S. Domingos de Rana nas Bodas de Prata do Fernando e da Leonor, em 1998. No passado dia 20 de Março deste ano, 2014, a Leonor e o Fernando celebraram também as suas Bodas de Diamante: de diamante, porque são rijas, porque são eternas e porque brilham. Hoje, é também o 7º dia dessa festa.

Graças a Deus.

José Ribeiro e Castro
Lisboa, Santa Maria de Belém, quarta-feira, 26 de Março de 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Dia dos Irmãos e Irmãs


Depois das palavras que disse, aquando da morte do meu irmão Fernando, lembrando uma conversa com a Margarida Neto, a ideia do “Dia do Irmão” pegou por aí. Tenho recebido reacções e apoios. Uma sobrinha-neta minha, a Andreia, já começou mesmo uma página no Facebook: "Queremos o Dia do Irmão". Foi ela que me convidou para aderir - e já aderi. E a Margarida Neto também me diz querer não largar o assunto. Voltámos a falar, ontem.

Num comentário num post no meu mural do Facebook (hoje, de facto, vê-se tudo pela internet…), indicaram-me que já havia um Brothers and Sisters Day nos Estados Unidos, a que se somou, mais tarde, outro comentário, acrescentando que o mesmo se passaria no Brasil.

Fui, por isso, fazer uma busca mais demorada e usando também outras línguas, nomeadamente o inglês. Em espanhol, francês, alemão ou italiano, não encontrei nada de novo ou diferente.

Como disse no meu texto inicial, só tinha encontrado referências a um Dia do Irmão, na Índia, celebrado a 5 de Setembro - e com indicações muito escassas e incertas. Ver: aqui; ou aqui; ou aqui.

A indicação fornecida para a escolha desta data é a de que foi escolhida por ser o 10º aniversário da morte de Madre Teresa de Calcutá, que efectivamente faleceu a 5 de Setembro de 1997. Ora, salvo o devido respeito, isto não faz muito sentido, por duas razões: primeiro, o dia é sempre o mesmo, seja o primeiro, o segundo … o décimo ou o centésimo aniversário; e, segundo, não se intui facilmente, nem se percebe muito bem o que é que a morte de Madre Teresa de Calcutá tem a ver com a celebração dos irmãos no sentido familiar ou biológico do termo.

Vasculhando por aí, verifiquei que é esta data também que estará a chegar ao Brasil e é referida nalgumas fontes brasileiras. Uma fonte pergunta: «você viu na novela né?» E outra fonte comenta: «Na cultura da Índia é dia 5 de Setembro. Como o Brasil importa tudo, tem uns birutas tentando emplacar isso aqui.» Mas há quem não esteja sequer muito certo da coisa: aqui. Enquanto um outro procurou lançar um "Dia do Irmão", a fim de tentar localizar os seus irmãos que não conhecia - e acabou por desistir: aqui.

Penso que essa história do "10º aniversário" será provavelmente outra: terá correspondido à primeira vez em que se assinalou esse "Dia do Irmão" ou a fonte deu por isso, em 5 de Setembro de 2007. E, depois, o mal-entendido prosseguiu, como é habitual nestas coisas da internet, quando são mal verificadas e não estudadas. 

E, buscando melhor, nomeadamente numa fonte católica credível (o Zenit), sou levado a pensar que este 5 de Setembro – que, em qualquer caso, é muito recente e creio que não oficialmente assumido de forma significativa, nomeadamente a nível internacional – celebra o “irmão” no sentido cristão, evangélico e espiritual (todos somos irmãos em Cristo) e não no sentido de celebração da relação familiar propriamente dita a que me referi e que procuro. É o que, na verdade, se lê e verifica claramente por aqui - e, nesta perspectiva, a relação com a extraordinária figura de Teresa de Calcutá já faz todo o sentido.

Porém, entre fontes brasileiras, há quem situe esta mesma data como tendo origem no Nepal e a relacione com cerimoniais hindus - ver aqui. Teríamos que investigar melhor as singularidades da cultura nepalesa e o rigor dessa informação, para verificar se a data viajou do Nepal para a Índia (a que está ligada a vida e obra de Madre Teresa de Calcutá) ou se, ao contrário, foi da Índia que passou também ao vizinho Nepal. E apurar em definitivo, ao mesmo tempo, se esse 5 de Setembro tem a explicação acima relatada ou outra qualquer com origem na cultura nepalesa ou, mais amplamente, hindu.

Nos Estados Unidos é que, na verdade, encontrei outras notícias sobre o nosso dia no sentido de família: o Dia do Irmão, como dele falei, ou, para ser mais completo e exacto, um Dia dos Irmãos e Irmãs.

De facto, há um Brothers and Sisters Day, para que Irene Grais me alertou, no seu comentário no meu mural do Facebook. Há até uma página-portal na Internet. Será um dia que se celebra no último sábado do mês de Março, nalguns lugares norte-americanos – neste ano, portanto, festeja-se já no próximo sábado, 29 de Março de 2014. É uma iniciativa muito recente, que começou em 2007, e resulta do impulso particular de uma mulher em homenagem a um seu irmão falecido: «a woman who realized - too late - when her brother died, that she had never let him adequately know how much he meant to her.» Também tem página no Facebook, além do portal próprio. A sua oficialidade é duvidosa e a divulgação parece ainda fraca.

Para complicar as coisas, há outros datas para que se reclama a mesma celebração, também nos Estados Unidos.

Há fontes que situam um outro Brothers and Sisters Day a 2 de Maio, não tendo ainda conseguido descobrir nem o porquê deste dia, nem a extensão e efectividade que esta celebração já terá. As fontes não são muitas: ver aqui e aqui. Também parece ser uma coisa muito recente e ainda em movimento. Uma fonte italiana também aponta para este dia - Giorno dei Fratelli e delle Sorelle - embora esta fonte, isoladamente, não pareça muito fiável.

E aparece ainda um Siblings Day ou Dia dos Irmãos ("siblings” é o nome colectivo em Inglês para “irmãos” sem distinção de género), que se celebra, anualmente, a 10 de Abril.  Também resultou de uma iniciativa particular de uma mulher (Claudia Evart), em homenagem a um irmão e a uma irmã que faleceram tragicamente (ambos em acidentes). Este dia também é de invocação muito recente, desde 1997, e já terá alguma expressão nos Estados Unidos da América, embora ainda sem adopção oficial. Há uma fundação que o promove, a Siblings Day Foundation (com portal na internet e página no Facebook), e também é mais conhecido como National Siblings Day (Dia Nacional dos Irmãos). O dia 10 de Abril era o dia de anos da irmã Lesette Evart, como é explicado neste vídeo por Claudia Evart, a dinamizadora do movimento - ver também no YouTube.

Este é, portanto, como consegui recolher até este momento, o estado da arte.

Tirando o 5 de Setembro, que celebrará os “irmãos” noutro sentido (o sentido evangélico e cristão), temos já estas datas em circulação, tudo carecendo de melhor verificação e prova: o último sábado de Março (em dia móvel, portanto), o dia 10 de Abril e o dia 2 de Maio.

Temos já muito por onde escolher e a que nos associarmos, para instituirmos capazmente e passarmos a celebrar, como faz falta, o Dia dos Irmãos e das Irmãs. Ou, então, temos que fixar outra data, que faça mais sentido e tenha mais sólidos fundamentos na nossa avaliação. A meu ver, é muito importante que nos fixemos numa data que tenha condições para a respectiva internacionalização.

Até lá, como disse, o meu Dia do Irmão é 31 de Maio. É o dia em que nasceu o meu irmão Fernando. É também o último dia do mês de Maio (mês de Maria, que é, para os cristãos, a Mãe de todos). É a véspera do dia 1 de Junho, Dia Mundial da Criança – e como é mais feliz a criança se, desde a véspera, sabe que tem irmãos e/ou irmãs ou os vai ter. Como dizia o meu irmão Fernando, presidente e fundador da APFN e da ELFAC: «Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.»

Temos que nos organizar, auscultar e escolher. E, depois, instituir e fazer instituir o "Dia do Irmão" ou, mais exactamente, "Dia dos Irmãos e Irmãs".


sexta-feira, 21 de março de 2014

O meu irmão Fernando


Não há muitas semanas que alguém me observou isto. Penso que foi a Margarida. Não tenho a certeza, mas acho que foi a Margarida Neto que me notou que não há um Dia do Irmão; e que tínhamos de fazer qualquer coisa para preencher esta lacuna.

É verdade: não há um Dia do Irmão. Há tantos dias de tanta coisa e não há um Dia do Irmão. Andei a ver na Internet – hoje, vê-se tudo na Internet. É verdade: não há mesmo um Dia do Irmão. Parece que, na Índia ou no Nepal, se celebra um 5 de Setembro ou coisa assim. Mas, mesmo essas, são notícias escassas e incertas. 

O meu Dia do Irmão é 31 de Maio, o dia em que o Fernando nasceu.  Já não resistiu para chegar ao 31 de Maio deste ano. Já não chegou aos 62 anos. Partiu com a mesma idade do nosso pai, aos 61 anos. Parece-nos cedo; parece-nos muito cedo. 

Quando eu nasci, o Fernando já cá estava. Sempre conheci a vida com o meu irmão. Foi o meu primeiro companheiro: um grande companheiro, um verdadeiro camarada.

Das frases que mais gostava de ouvir ao Fernando, no seu labor pelas famílias e pelas famílias numerosas em especial, aquela de que eu mais gosto e mais cito é esta: “Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.” Repito: “Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.”

É verdade. É exactamente assim. Eu só posso falar – e falo – da felicidade que é ter um irmão: uma felicidade indescritível, um tesouro de cumplicidade. Os meus filhos e, sobretudo, os meus sobrinhos, que são desse departamento, podem confirmar, e confirmam, a muita felicidade que é ter muitos irmãos, muitos irmãos.

Quando éramos crianças, tinha eu 10, ele já 12 anos de idade, Setembro de 1964, demos uma volta pela Europa com os nossos pais. De carro: um velho Taunus 17M, matrícula CI-79-16. Ao chegar a Saló, em Itália, nas margens do Lago Di Garda, entrando no hotel, o Touring Hotel, a recepcionista exclamou para os pais, apontando para nós: “Belli bambini! Uno como mamma, altro como papa!” A coisa deu risota, claro. E ficou como anedota repetida de brincadeiras familiares: “Uno como mamma, altro como papa!” Um seria mais parecido com a minha mãe, o Fernando; outro com o meu pai, eu próprio.

À medida que os anos foram passando, e sobretudo os quilos pesando e a convergência grisalha fazendo a maquilhagem a partir dos nossos 40 anos, fomo-nos achando cada vez mais parecidos. E eu sempre sorri muito ao ver os meus filhos ou os meus sobrinhos, diante de um gesto, de um à parte, de um comentário, de um riso, de uma piada, de um trejeito, de um repente qualquer, exclamarem a rir, apontando para nós: “Iguais! São iguais! Iguaizinhos…”

Isso é uma grande responsabilidade para mim. Oxalá essa parecença e semelhança possa atenuar a dor e o vazio da partida do Fernando, no coração e no olhar daqueles que lhe são mais próximos. Deus queira.

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Nos sessenta anos que vivemos em comum, este tempo, o último ano, foi, para a família, carregado de novas experiências e ensinamentos. Densos, muito densos.

Faz agora um ano e um mês que foi detectada a doença que lhe foi fatal. Foi uma terrível notícia – prognóstico ruim, mau, muito mau.

Este tempo teve dois tempos: um tempo de luta e muita esperança, sobretudo até ao Verão passado e depois ainda até Dezembro; e outro tempo de luta ainda, de esperança sempre, mas já marcado pela fatalidade, de Dezembro para cá, mais estreito desde Janeiro.

Lembro-me de ter acompanhado, não há muito, a última estrada  de uma grande amiga, a Maria José, que, nesses seus meses finais, me dizia: “Ó Zé, agora é que vamos ver se acreditamos mesmo naquilo em que andámos a dizer que acreditamos.” Ela mostrou não só acreditar, mas confiar: no Bom Pastor, de que nos deixou um testemunho formidável. O Fernando também.

Eu não sou de muitas palavras; e, nestas coisas, o Fernando também não. Entendíamo-nos sem palavras. Nestas coisas, que são difíceis e dolorosas, há como que uma “no talk rule” (uma regra de não falar) por que achamos fazer assim mais suaves estas travessias e viagens, afastando as más notícias.

De Dezembro para cá, desde antes do Natal, o caminho tornou-se mais duro e apertado. E, nas nossas conversas, com o Fernando e, às vezes, também com a Leonor, os véus foram caindo a pouco e pouco: do que sabíamos e desconfiávamos; ou temíamos. Foi-se passando do “sei que tu sabes” ou “tu sabes que eu sei”, para “tu sabes que eu sei que tu sabes” e, mais à frente, para “tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei”

A cada um destes véus que caía, era preciso, interiormente, fazer um luto – o outro, afinal, também sabia – e, ao mesmo tempo, recuperar o fôlego, manter e alimentar a esperança para seguir o caminho. Em frente. O Fernando foi exemplar nessa estrada de fé e testemunho. E a Leonor também. E os meus sobrinhos.

Na penúltima vez que almoçámos juntos, perto do seu trabalho, o Fernando contou-me como, aquando de uma das suas últimas crises, a meio de Fevereiro, morreu uma senhora na cama ao seu lado, no 6º andar do I.P.O., onde era assistido e socorrido nos sobressaltos que lhe aconteciam, cada vez mais frequentes. E, pela forma como me contou, com pormenor, as conversas da Leonor e dele com a senhora, e com a sua filha, como a senhora voltara a rezar, a sua breve agitação final e o momento sereno da partida, eu percebi que o Fernando, nesse almoço, desse dia, me estava a querer dizer que pedia a Deus que, na sua terrível doença, lhe desse uma morte assim: que, chegada a hora, o chamasse de uma vez só.

Acredito que Deus lhe correspondeu. Ainda na passada terça-feira, ao fim do dia, aqui em S. Domingos, rimos e planeámos coisas como se não houvesse fronteira. Na quarta-feira, teve o seu último Dia do Pai – merecia-o: Pai foi sempre o seu posto principal – e foi trabalhar, fora de casa. Na quinta-feira, ontem, o seu último dia, todos contam que esteve muito bem e activo de manhã, a trabalhar em casa; e, depois, à tarde, passou mal, voltou ao I.P.O., onde nos juntámos, e Deus chamou-o. Não sofreu muito. Graças a Deus.

Por curiosidade, ontem mesmo, quinta-feira, à noite, na Internet (hoje, vê-se tudo na Internet), fui ler o Salmo da missa do dia da partida do meu irmão. Reza assim, o Salmo do dia 20 de Março: 
«Feliz o homem que não segue o conselho dos ímpios,
nem se detém no caminho dos pecadores,
antes põe o seu enlevo na lei do Senhor
e nela medita dia e noite.» 
Pelo Fernando, não tenho dúvida alguma. Estava preparado. Assim Deus o receba na Sua graça – e o Fernando possa já estar na companhia da nossa mãe e do nosso pai, que também partiram cedo.

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O Fernando foi um grande homem. O melhor irmão que eu tive – não houve igual. Foi bom marido e um grande pai e avô. Um tio querido dos meus filhos. Um óptimo companheiro de toda a gente, um camaradão. Um bom carácter, um homem simples. Um aluno brilhante e um profissional distinto. Um excelente professor da Escola Naval. Um militar dedicado e marinheiro de eleição, a sua grande vocação. Nas curvas, e contracurvas, e percalços da vida, agradeço que o Fernando  possa ter morrido de novo ao serviço do mar, embora agora em capacidade civil, regressando ao seu território, no Fórum que dirigia – o Fernando era verdadeiramente um homem do mar. Foi o “penico” do seu curso de Marinha (para quem não saiba, “penico” é o primeiro do curso) e o primeiro também no exigente M.I.T., em Boston, Massachusetts. Foi um grande engenheiro – desde garoto que o conheci como um “engenhocas” de grande capacidade inventiva e de solução de problemas. Fizemos inesquecíveis brincadeiras de engenharia. E era ainda um mais competente e brilhante profissional.

Foi um lutador, um lutador incansável. Uma fonte inesgotável de alegria, de optimismo e de confiança. Um homem de excepcionais capacidades cívicas, que pôs ao serviço da sociedade e do país, com  grande generosidade e capacidade de entrega.

Ontem à noite também, na Internet (hoje, vê-se tudo na Internet), li este título: «Morreu o “pai” das Famílias Numerosas» – era o título da notícia da Rádio Renascença online. É verdade. Todos sabemos a obra ímpar que imaginou e concretizou, concebendo, lançando e fortalecendo a APFN em Portugal. E eu pude ver (e ter o privilégio de, às vezes, acompanhar) o trabalho extraordinário que desenvolveu e edificou por toda a Europa, na ELFAC – European Large Families Confederation, e a forma como era tão estimado e tão admirado em muitos países europeus.

Fosse na temática familiar, na causa da vida, na militância católica – De Colores! –, na visão do Mar como grande desígnio do país, ou noutras causas calorosas que abraçou na sua vida, o Fernando povoou o terreno de sinais: fez muitos amigos, incontáveis amigos, e deixou muitas sementes, inumeráveis sementes. Deixou muito por fazer. São coisas que temos de continuar.

Ainda bem que é assim. Ainda bem que nos deixou muito para fazer. É sempre bom sabermos o que temos para fazer; e para onde. 

Graças a Deus.


José Ribeiro e Castro
S. Domingos de Rana, sexta-feira, 21 de Março de 2014