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domingo, 25 de maio de 2014

Europeias (3): O 3º voto de protesto


Continuando a série, o 3º voto de protesto destas eleições europeias é claramente a votação do PS, que as projecções não dão acima de 35%/36%. Este é também um protesto duro, que não deixará seguramente - não é piada o advérbio de modo... - dentro dos socialistas.

Para os socialistas, é uma vitória bem amarga a de hoje à noite: o PS é, há que dizê-lo, o vencedor formal das eleições, mas perde o que queria; e Seguro é claramente um derrotado. Não é preciso ser bruxo para imaginar que as facas-longas recomeçaram já a afiar-se.

Voltando à fasquia dos 40%, que alinhei no post anterior, o protesto eleitoral contra Seguro - e a linha de captura "socrática" em que este PS se arrasta - está em não ter conseguido ficar acima de 40%; e será tanto mais intenso quanto mais longe ficar desta marca. Na verdade, neste contexto geral, resultados do principal partido da oposição de cerca de 35%, ou ainda menos, são também uma pancadita jeitosa.

Recordando as europeias de 2004, em que a coligação PSD/CDS ficou nos 33,3% (a tal excepção), o PS, então liderado por Ferro Rodrigues, disparou reciprocamente para 44,5%. Ora, quando a direita e o centro-direita afundam brutalmente bem para baixo dos 40%, o facto de o PS não conseguir atingir essa fasquia, nem superá-la largamente, significa claramente que os eleitores não identificam uma alternativa no PS - pior que isso: que não querem mesmo identificá-lo como alternativa.

É esse o 3º protesto deste dia: "os outros estão mal; mas tu também"

Não é preciso ser adivinho, para antecipar grandes debates e confrontos no PS; e que António José Seguro provavelmente não chegará como líder às próximas eleições legislativas.

ACTUALIZAÇÃO: O resultado final também conseguiu ser bem pior do que as projecções que iniciaram a noite: 31,5% e pouco mais de um milhão de votos. Foi um dos piores resultados de sempre do PS para o Parlamento Europeu. Este paupérrimo desempenho, em tempo de maré favorável, só pode antecipar mudança - coisa que, aliás, o cartaz de campanha bem anunciava... (Ver Resultados)

Europeias (2): O 2º voto de protesto


As projecções à boca das urnas, apontando para que PSD e CDS-PP, na Aliança Portugal, tenham um resultado inferior a 29% dos votos, sinalizam o 2º voto de protesto destas eleições: um voto de protesto contra os partidos da maioria e de Governo. 

A confirmar-se, será um péssimo resultado eleitoral, bem mais do que apenas desastroso. Na minha leitura histórica das eleições em Portugal, um protesto (e a sinalização de descontentamento) contra a coligação eleitoral PSD/CDS-PP medir-se-ia abaixo dos 40%; e seria tanto mais intenso, quanto mais longe ficasse deste chão, este limiar mínimo normal. E, ainda assim, já traduziria uma quebra significativa contra os 50,4% que os dois partidos, somados, alcançaram nas legislativas de 2011.

Terei ocasião de o comentar mais pormenorizadamente, mais tarde. Mas estas projecções indicam que os eleitores quiseram sinalizar os seus sentimentos de forma particularmente dura. 

Desde 1976, as primeiras eleições do regime democrático, nunca PSD e CDS tiveram, em eleições nacionais, um resultado inferior a 40%. Separados ou coligados, 40% foi sempre a maré baixa dos dois partidos que representam o centro e a direita democrática em Portugal. Isto aconteceu sempre, em dezanove eleições, com uma única excepção: a coligação para as europeias, em 2004, recolheu apenas 33,3%, o que antecipou a hecatombe do ano seguinte nas legislativas de 2005 com 36% somados (PSD - 28,8%; CDS-PP - 7,2%). Esta, em 2004/05, foi a única excepção, que confirma em absoluto aquela regra. Agora, as projecções indicam que será ainda pior. E é, de facto, muito mau: mesmo nas eleições constituintes, em Abril de 1975, em pleno PREC, com um fortíssimo condicionamento esquerdista e a revolução na rua, os dois partidos somaram heroicamente 34% (PPD - 26,4%; CDS - 7,6%).

Este protesto carece de ser lido sob vários ângulos - e a sério. Mas não creio que possa reflectir-se na estabilidade política do país, nem que se repercutisse numa queda do Governo e eleições antecipadas. Isso seria a continuação do discurso do "golpe de Estado", feito pelo PS e outras oposições, e que nada legitima - o 1º protesto, inscrito na massiva abstenção, também o afasta liminarmente.

Esse "golpe de Estado" seria uma absoluta catástrofe financeira, económica e política. que só irresponsáveis poderiam querer cavalgar. Os eleitores não querem nada disso. Mas o protesto precisa de ser lido e entendido - respondido também.

ACTUALIZAÇÃO: O resultado final ainda conseguiu ser pior para a coligação PSD/CDS-PP: 27,7% e pouco mais de 900 mil votos! Nunca se viu uma coisa assim. Uma sova e uma indiferença como não havia nem registo, nem memória. (Ver Resultados)

Europeias (1): O 1º voto de protesto


As primeiras projecções apontam já para uma abstenção gigantesca, em Portugal: 62,2% a 66,6%.

É o primeiro voto de protesto destas eleições. Neste caso, contra os partidos todos, contra o sistema, contra a forma como se participa (ou não) no funcionamento da União Europeia, contra o baixo envolvimento da cidadania, contra o estado geral da política. 

Dois em cada três eleitores, pura e simplesmente, não vão lá: votam com os pés. É um sintoma que se repete, doentio e deprimente.

E é também um primeiro sinal de fracasso daqueles partidos que apelaram a fazer destas eleições uma mobilização geral contra o Governo. Há que esperar pelos resultados das votações nos diferentes partidos e coligações. Mas, para já, essa mobilização "anti"... finou-se. É um fracasso para muitos - e, nesta perspectiva, sobretudo para o PS. É, porém, provável e previsível que haja votos de protesto em várias direcções. Há que aguardar.

ACTUALIZAÇÃO: a abstenção cifrou-se em 66,1%. Um record absoluto, um protesto monumental - a que importa ainda somar a cifra extraordinária de 7,5% de votos brancos e nulos. (Ver Resultados

terça-feira, 10 de abril de 2012

Rangel e a Europa


Estes tempos de crise e de debate são uma época privilegiada para os deputados ao Parlamento Europeu - tenho-o dito várias vezes por aí. Para participarmos e podermos agir no debate europeu, é indispensável que nos contem o que anda a discutir-se nas arenas da política europeia e nos demais Estados-membros da União. Este é o momento mais propício a dizerem-nos o que se passa, a contarem-nos as opiniões e sensibilidades que se confrontam e a adiantarem o que eles próprios pensam - e como intervêm.  

O artigo de hoje de Paulo Rangel no PÚBLICO é um bom exemplo disso: A Europa e o "esmagamento" das médias potências (I). Rangel escreve para abordar uma proposta de Andrew Duff, um velho e experimentado eurodeputado liberal inglês, federalista persistente. E promete continuar com a análise da proposta do britânico em próximo(s) artigo(s).

Mas o mais interessante - e importante - do texto de Rangel são algumas linhas que dedica à política europeia, que coincidem também com intervenções avulsas que tenho feito por aí. Qualquer dia, vou começar a escrever também sobre isto. A política europeia - que discutimos tão pouco e pesa tanto na nossa realidade e no nosso futuro - deveria estar na primeira linha do palco, e não nos bastidores.

Escreve Paulo Rangel:
«A política europeia desenrola-se hoje em diferentes palcos e dimensões várias. A ideia de que a política europeia se faz basicamente à mesa das instituições europeias e, em especial, da Comissão e do Conselho poderia ser válida para uma União com 12 Estados. Mas já não tem sentido numa realidade política que acolhe como membros 27 países. Para lá da relação estreita e necessária com as instituições (a que agora se soma, indubitavelmente, o Parlamento Europeu), hoje é indispensável identificar "redes de Estados" com os quais possamos inventariar problemas afins e ensaiar posições comuns. De certa maneira, assumir esta "institucionalização" de redes de contactos é aceitar o regresso em força da diplomacia. Na complexidade das relações a 27, é fundamental fazer o trabalho de casa e criar ligas de solidariedade que possam ter peso na decisão final. Esse trabalho exige uma activíssima diplomacia "intra-europeia", em que a dança e o bailado das pequenas, médias e grandes potências voltaram ao trânsito habitual. Essa política externa tem também traços novos: exige uma especial articulação das nossas embaixadas na Europa com a Representação Permanente em Bruxelas, abre-se a uma diplomacia parlamentar desenvolvida pela Assembleia da República com os restantes parlamentos nacionais e o Parlamento Europeu, pode implicar ou propiciar outras plataformas de diplomacia paralela.»
É sem dúvida tema absolutamente central da nossa política externa, para estar bem focada no presente e no futuro.