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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O zero europeu



O ambiente que rodeia a visita da Senhora Merkel a Lisboa é sintomático. 

Não só é só revelador da nossa mediocridade dirigente e mediática, agindo como basbaques diante da senhoria que visita os súbditos. Seja da parte dos que veneram, seja dos que protestam, os sinais são fundamentalmente os mesmos: inferioridade. 

Já tinha sido assim, quando chegou a troika; e assim se repetiu em visitas sucessivas, até Fernando Ulrich ter dado “um berro na mesa” e ter feito acabar com aquele vexame trimestral das conferências de imprensa dos funcionários inspectores-gerais de FMI/CE/BCE. Toda a gente seguia, caninamente, o trio como se fossem os senhores do Mundo e nossos donos.

Mas o ambiente desta visita, hoje, da Chanceler alemã é também demonstrativo do absoluto zero institucional a que chegou a União Europeia. 

Desde o Tratado de Lisboa, na esteira do grotesto passo em falso que foi a “Constituição Europeia”, que os chefes dos Executivos dos Estados-membros foram afastados de qualquer função de liderança nas instituições europeias. A sua presença no Conselho Europeu está “subordinada” a esse mistério que é o Senhor Van Rompuy. Os ministros ainda presidem rotativamente às diferentes formações do Conselho, mas os chefes de Governo não chefiam, nem presidem a nada, o que é obviamente um absurdo e um erro monumental. A Senhora Merkel não é nada na União Europeia, mas, afinal, é - ou parece que é - tudo.

Quando hoje olhamos para Merkel como se fosse o poder na Europa, pagamos o preço desses erros e fífias em que fomos afundando institucionalmente a União Europeia nos últimos quinze anos. 

O que se passa é muito mais consequência do fracasso institucional da Europa e da abdicação do debate político europeu do que efeito do reforço do poder da Alemanha. Por outras palavras, a Alemanha é forte porque a Europa é fraca.

Faz-nos muita falta uma política externa vigorosa com uma política europeia a sério na linha da frente.

Quanto ao mais, seja muito bem-vinda. E sinta-se bem entre nós.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A ruína grega e os cacos


As ruínas do Pártenon são a imagem adequada da Grécia de agora. Estão despidas de beleza e da História. É somente o retrato de um país que se vai escavacando.

As notícias da Grécia entristecem. A Grécia foi o berço da civilização? Ou o berço da corrupção? É a Grécia um pólo de cultura? Ou o laboratório de todos os truques e manobras? Mora na Grécia a fonte da democracia? Ou é a Grécia o seu coveiro?

Depois de tudo o que vimos e lemos desde há dois anos, as notícias destes dias espantam - se algo, da Grécia, ainda pode espantar. Não é só brincar com o fogo - é brincar com o fogo no meio do incêndio. É fazer equilibrismo no arame... sem arame. É fazer piruetas e malabarismos já bem para lá do precipício.

Ontem, até o sereno e cordato Juncker ameaçava, para infundir algum juízo e bom senso. Hoje, vêm notícias de que nada disso serviu. Como diriam Astérix e Obélix, "ils sont fous ces grecs!" A Grécia actual pode mesmo ser um caso perdido - e perder-nos a todos. Maus políticos, muito maus políticos! E forças sociais completamente alienadas e descabeladas. 

Tenho ouvido muitas vezes a ideia de que, se Angela Merkel tivesse cedido e agido depressa logo ao princípio da crise grega, nada teria acontecido - e tudo estaria resolvido. Cheguei a pensar assim. Hoje, tenho as mais sérias dúvidas disso. Não só por causa da Grécia e da sua flagrante e insistente irresponsabilidade, mas também por tudo o que temos visto neste corso do euro: se, até hoje, nada tem resultado de vez, por que é que acudir aos gregos logo no princípio teria resultado de vez?

Se calhar, vai ser preciso deixar cair a Grécia. O pior é o resto. Melhor dito, o pior é o arrasto. Foi muito mau Sócrates ter-nos deixado parecer demasiado com a Grécia. Como foi muito mau ter-se deixado Sócrates a gesticular para além do prazo. Muito má estratégia política. Mas todo o quadro é muito mau, mesmo abstraindo, agora, da herança de Sócrates. Descolámos da Grécia na imagem geral, mas descolamos pouco na sentença das agências de rating e nos números frios dos mercados da dívida, que continuam mortais.

Apetece pensar na Grécia como uma vacina. Mas vacina de quê? Qual foi, afinal, a doença? E qual será o preço final da "vacina"?

A ruína grega só traz cacos? E já são muitos. Ou trará também o caos? 

A Grécia e as forças sociais e políticas gregas não estão a jogar só consigo e com os gregos - jogam também connosco. Na roleta de Atenas, também está o euro. E também estamos nós.

Tempos difíceis.Tempos duros. Tempos muito incertos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Max Weber e Angela Merkel

O embaixador alemão Helmut Elfenkaemper

O embaixador da Alemanha em Lisboa, Helmut Elfenkämper, é o próximo orador da TERTÚLIA DIPLOMÁTICA, na próxima terça-feira, na Livraria Férin. 

Nascido pouco depois do fim da guerra, em 1947, na Renânia do Norte-Vestfália, em Rheine, perto da fronteira holandesa, Helmut Elfenkämper concluiu formação universitária em Ciências Jurídicas, em História e em Língua e Literatura Francesa. Desde Setembro de 2009 é o embaixador em Portugal, onde já tinha estado de 1993 a 1997, como Chefe Adjunto da missão: conhece-nos bem e é um bom amigo, seguidor atento da vida portuguesa e sempre pronto a estreitar o diálogo luso-alemão, de tão fortes e importantes tradições entre nós, em especial desde a consolidação da democracia em Portugal. Não é demais recordar o apoio da República Federal da Alemanha e das suas fundações políticas nos primeiros anos do regime democrático.

Helmut Elfenkämper é um diplomata experimentado. Ingressou na carreira diplomática há trinta e seis anos, logo após sair da Universidade. Além de Lisboa, ocupou postos diplomáticos em Varsóvia (ainda no tempo do regime comunista), Nova Iorque, Paris e Praga e desempenhou funções dirigentes no Ministério, nos serviços da OSCE, na Divisão da Europa Central e do Leste e no Planeamento Estratégico.

Foi uma das estrelas dos “Colóquios Diplomáticos” que promovi na Assembleia da República, quando fui presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros. Estávamos, então, em meados de 2010, quando tanto se comentava – e criticava – a demora do Governo de Angela Merkel em reagir à crise da Grécia. E o embaixador ajudou-nos a compreender um pouco melhor os sentimentos e preocupações dominantes da sociedade alemã, que, naturalmente, condicionam a acção do seu governo.

Agora, o embaixador Helmut Elfenkämper irá voltar, de certo modo, ao mesmo tema, numa altura em que a acção liderante da Alemanha e da dupla chamada "Merkozy" continuam debaixo de intenso escrutínio. Fá-lo-á por uma perspectiva mais penetrante: o pensamento profundo da Alemanha, ilustrado a partir de uma obra clássica (já centenária) do grande economista e sociólogo alemão, Max Weber, «Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus» (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), onde aflora a conhecida ideia da afinidade entre protestantismo e o desenvolvimento do espírito comercial moderno, na medida em que a ética protestante legitimou claramente, no plano ético, a busca racional do ganho económico. Um livro com escritos de 1904 e 1905.

Tem-se falado muito da ética luterana por detrás da reflexão e análise da Chanceler Angela Merkel. Em que medida Max Weber nos ajuda a compreendê-la? Em que medida Max Weber e o espírito alemão, bem como o quadro concreto da actual situação económica e social da Alemanha, nos permitem compreender melhor a política do Governo de Berlim, a acção e as afirmações dos seus principais actores, e antecipar a sua provável evolução?

O embaixador Elfenkämper ajudar-nos-á também, sem dúvida, a conhecer e a interpretar o intenso debate democrático que existe na própria sociedade alemã sobre a política europeia da CDU/CSU, da coligação de Governo e de Angela Merkel. Curiosamente, no mesmo dia (17 de Janeiro) em que se espera a eleição de outro alemão para a presidência do Parlamento Europeu: o social-democrata Martin Schulz, que, ao contrário, tem criticado fortemente as posições da Chanceler Angela Merkel

Para onde vai a Alemanha? E para onde conduz a Europa? Estas as questões que nos bailam no espírito. A palavra ao embaixador Helmut Elfenkämper. Tudo isto, bem entendido, com estrito respeito da regra de Chatham House, que rege a participação de qualificados diplomatas nas nossas sessões. O que se passa na Tertúlia Diplomática pode ser reportado nas suas conclusões e apreciação geral, mas, nomeadamente quanto às intervenções dos diplomatas, não devem ser feitas citações, não devendo ser atribuídas opiniões ou informações a A ou a B. No final, todos estaremos à disposição de quem o pretenda para quaisquer declarações ou comentários em "on", sem quebra daquela regra da Tertúlia.

Amanhã, terça-feira, 17 de Janeiro, o encontro é na Livraria Férin (ao Chiado), pelas 18:30 horas, para mais uma Tertúlia Diplomática, uma parceria Avenida da Liberdade/Livraria Férin, com o apoio da Rádio Renascença e do Diário Económico como media partners.