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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Ainda está aí alguém?


O grande apagão demográfico de Portugal vai-se cumprindo, com a impressionante regularidade de um relógio. É um relógio que anda para trás - mas com cadência certa.

A última notícia foi esta: Portugal perde quase 0,5% da população num ano (Jornal de Notícias). Notícia que já tinha aparecido mais correcta (os números são referentes a 2014 e não 2015) e completa, aqui: Portugal "perde" 200 mil pessoas em cinco anos e isso é preocupante (Público). 

Há, porém, ainda, quem desdenhe destes dados ou desvalorize o seu significado; ou que considere os números não representativos e os qualifique de alarmistas. Vale a pena, portanto, recapitular algumas fundamentais informações objectivas.

Já escrevi alguns posts sobre este tema, a saber: Portugal do futuro: a catástrofe demográfica (Fevereiro 2012); A encolher... (Junho 2013); e O abismo demográfico (Setembro 2013). 

O primeiro dava conta das previsões demográficas das Nações Unidas para este século, com grande extensão, pormenor e variedade de dados - notícia com que deparei em Maio 2011, em plena campanha eleitoral para as legislativas de há quatro anos e a que ninguém ligou importância, nem debate motivou. E o título já assustava: Portugal vai perder 4 milhões de pessoas até 2100.

Ora, aquilo a que estamos exactamente a assistir, ano após ano, é ao cumprimento pontual desse quadro previsional. 

Os números de 2012 já o indicavam, como sublinhei no post A encolher...  - no ano anterior, a perda de população portuguesa fôra de 55 mil habitantes. E é isso mesmo que, agora, se confirmou de novo quanto a 2014: uma perda de 52.500 pessoas em 2014. 

Este cenário é, aliás, um pouco pior do que o apresentado pela "variante média" das Nações Unidas, que foi noticiada em Maio 2011 e que previa, naquele ano, uma perda média na população portuguesa de 47.000/ano para os anos futuros - como ilustrei, significava perder o equivalente à cidade do Porto a cada cinco anos! Esta "variante média" já foi corrigida, entretanto, para um pouco melhor, pelas Nações Unidas, passando a apontar, no final do século, para uma população portuguesa de 7.457.000, com uma perda acumulada de população de cerca de 3,1 milhões desde 2010 e uma perda média de 34.811 habitantes/ano.

Ora, a realidade está a ser bem pior do que isso: com números de perdas superiores a 50.000 habitantes/ano, o cenário assemelha-se mais à hipótese de "variante fertilidade constante" das Nações Unidas, perdendo-se a cada cinco anos o equivalente ao somatório dos concelhos de Cascais e Oeiras e chegando a 2100 com uma população de 6 milhões e uma perda acumulada de 4.587.000 de pessoas entre 2010 e ao final do século (perda média anual de 50.966 habitantes).

Portanto, não é tema com que devamos brincar, nem desdenhar. As Nações Unidas apresentam, aliás, uma previsão ainda mais pessimista, dita de "variante baixa": nesta hipótese, a população portuguesa será (não desmaiem...) de 4.425.000 no final do século, com uma perda acumulada de população de cerca de 6,2 milhões a seguir a 2010 e uma perda média de 68.500 habitantes/ano.

São, em qualquer caso, números de catástrofe. Com consequências económicas e efeitos sociais terríveis. Quando iremos todos despertar?

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O abismo demográfico



A notícia mais grave, mais preocupante, mais terrível dos últimos dias, em Portugal, foi a de que, neste ano, nasceram no primeiro semestre menos 4.000 crianças em Portugal! Isto é, fazendo as contas:
  • nasceram, em média, menos 22 crianças em cada dia; e
  • estamos em rota para, pela primeira vez, ficarmos abaixo da fasquia dos 80.000 nascimentos num ano.
O precipício demográfico português tem sido vertiginoso neste século. Como podemos verificar pelas tabelas da PORDATA, em Portugal tivemos mais de 120.000 nascimentos em 2000, caindo pela primeira vez para baixo dos 100.000 em 2009, para recuperarmos ligeiramente em 2010 e voltarmos a cair dos 100 mil em 2011, para baixo dos 90 mil em 2012 e, a continuarmos assim... para baixo dos 80 mil neste ano de 2013.

Na década de '60, era normal nascerem mais de 200 mil crianças todos os anos em Portugal - e, assim, entre outras coisas, gerámos as bases dos sistemas sociais que pudemos construir.

A notícia desta última quebra de natalidade foi, agora, uma notícia da LUSA, que apenas conseguir furar o bloqueio noticioso, salvo erro, nas edições online do PÚBLICO e do DN. A notícia já nem saiu sequer nas edições em papel destes jornais e não a vi, nem a ouvi em qualquer rádio ou televisão. 

Tão-pouco se ouviu uma só palavra a um único líder ou dirigente partidário. E estamos em plena campanha eleitoral, com todos os líderes e principais dirigentes a falarem todos os dias! O que faria se não fosse assim...

Não é só deserto, é também silêncio.

Vivemos tempos de superficialidade, em que não é importante o que tem importância. 

Já lá vão três dias e é como se não soubéssemos o que se sabe.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A encolher...


Já aqui tenho abordado o tema do declínio demográfico. Um dos meus posts foi "Portugal do futuro: a catástrofe demográfica", há mais de um ano.

É um problema a que não se liga a devida atenção, apesar de, desde pelo menos há dez anos, ser notícia regular na comunicação social. E já antes os mais lúcidos e atentos alertavam para isso. Mas é um tema que vem... e vai. Perante a indiferença geral e dos poderes públicos, o inverno demográfico é que é cada vez mais grave e alarmante.

Hoje, a notícia vem no PÚBLICO: Portugal acabou 2012 com menos 55 mil residentes. É um facto que não surpreende. Dói, mas não espanta. [Também no jornal i: População residente em Portugal em 2012 continua a cair. ]

Por mim, naquele post, tinha estimado, em linha com as projecções divulgadas pelas Nações Unidas para o final do século, que iríamos perder uma média de 47.000 habitantes por ano - o equivalente a um concelho como o Porto, a cada cinco anos.

Já estamos, afinal, pior que isso. Se nada for feito, perderemos, não 4 milhões, mas quase 5 milhões de habitantes até 2100.

Um país decadente, envelhecido e em declínio, uma economia anémica e miserável, os sistemas sociais em cacos - é o que espera quem cá estiver, se nada inverter a rota do desastre.

domingo, 11 de novembro de 2012

Dá que pensar...


Sem palavras. Este gráfico não precisa de legenda. Somos um país que desaparece. 

Portugal tem a segunda taxa de fecundidade mais baixa do mundo - noticiava, há dias,a TSF. Fez notícias e um debate público. Mas, apesar dos alertas repetidos, pouca gente faz alguma coisa. 

Qualquer dia, é demasiado tarde para fazer qualquer coisa de jeito. Já é tarde, aliás. Convém é que não seja demasiado tarde.

O gráfico foi importado daqui.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A crise da minha vizinha é melhor que a minha



Conheço bem Jo Leinen. Foi meu colega muitos anos no Parlamento Europeu. Alemão do Sarre, europeísta convicto, é um bom homem, inteligente e sério. Mas integra o sector que chamo dos "avancistas", os que mais fizeram para nos meter no enorme sarilho em que estamos na Europa: consideram-se "visionários", mas nunca vêem o passo seguinte. Têm um problema com a realidade e com o chão que pisam.

Na altura em que o conheci e trabalhámos/discutimos em conjunto, ocupava-se sobretudo dos Assuntos Constitucionais. Leio, na imprensa online, que ele chefia, agora, a delegação do Parlamento Europeu na conferência da ONU sobre alterações climáticas, a decorrer em Durban.

É fácil reconhecê-lo quando aparece, aí em Durban, a ser porta-voz do Parlamento Europeu na tese de que "a verdadeira crise do século XXI não é a financeira, mas sim a das alterações climáticas e do aquecimento global". 

Quando a Europa e o mundo caminham, a passo certo e cadenciado, para um cataclismo financeiro; quando, na Europa, no Norte e no Ocidente, assistimos a um acentuado declínio demográfico, que gerará prolongada estagnação ou recessão intermitente e crises sociais várias; quando a pobreza e a fome afligem, ainda, vastas regiões do Sul e bolsas cada vez mais preocupantes um pouco por todo o lado; quando o cataclismo financeiro, ainda bem presente no nosso radar, poderá, a acontecer, fazer-nos recuar de várias décadas e mergulhar-nos no absoluto caos - centrar o foco principal nas "alterações climáticas" e na agenda do "aquecimento global"... é obra!

Só um "visionário" do gabarito dos que conheci em Bruxelas/Estrasburgo é capaz de ignorar todas as crises que realmente pisa e aparecer a sustentar que uma outra "crise" é que é a verdadeiramente importante!

No Parlamento Europeu, este tipo de "visionarismo" é muito praticado em todas as áreas. Abundam, aí, os sábios da fantasia e os construtores do faz-de-conta. Não é só no clima e no ambiente, antes fosse.

A ideologia também consiste nisso: nunca ver a realidade como é, mas sempre com a cor dos óculos que temos postos.