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segunda-feira, 31 de maio de 2021

O último dos irmãos


Lançado há poucos anos, o Dia dos Irmãos começa a ser uma celebração social incontornável. É aí que as coisas realmente nascem: nos hábitos das pessoas e das famílias, nos costumes sociais; não nas proclamações políticas ou deliberações parlamentares. O Dia do Pai ou o Dia da Mãe, por exemplo, não têm rasto no Diário da República, nem, antes dele, no Diário do Governo. Existem, porque a sociedade se apoderou deles. Começando num só país ou comunicando-se cedo no plano internacional, são festas da sociedade civil, como dizemos.

A prova do sucesso desta ideia encontra-se no “Borda d’Água”, que, desde há uns anos, mostra, a cada 31 de Maio, o lugar certo do Dia dos Irmãos. Não é em nenhum Diário da República, mas no “Borda d’Água”, o jornal oficial dos usos e costumes populares, entre muitas outras informações úteis.

A iniciativa do Dia dos Irmãos foi afirmada e lançada, em 2014, a nível europeu, pela Confederação Europeia das Famílias Numerosas (ELFAC); e a APFN portuguesa (Associação Portuguesa das Famílias Numerosa) tem sido uma das principais dinamizadoras. Compreende-se: as famílias numerosas são aquelas que mais irmãos têm e, por conseguinte, são muito sensíveis à sua existência e à sua dinâmica.

Mas não é preciso ser família numerosa para se viver intensamente a realidade dos irmãos e irmãs. Nem eu (que muito defendo esta ideia), nem o meu irmão (fundador da APFN e da ELFAC) somos de famílias numerosas. Éramos apenas nós os dois. E tanto o nosso pai, como a nossa mãe tinham apenas um irmão também. O nosso quadro familiar mais próximo foi de dois irmãos apenas.

Tenho observado – e já tenho escrito – que tipicamente, além de outros factores, a experiência específica dos irmãos decorre muito do número de irmãos; de serem todos do mesmo sexo ou de sexos diferentes; do número dos de cada sexo; das diferenças de idades entre eles. As relações são sempre fortes e, com o avançar da idade, caminham para a proximidade crescente entre todos. Mas, em criança e jovem, a experiência e a dinâmica tendem a ser bastante diferentes, consoante aqueles factores. Além disso, as personalidades e os temperamentos não são iguais, o que também determina muita da vivência em que nos definimos e crescemos.

Odemira, Setembro 1955: eu e o meu irmão Fernando,
com os nossos pais, no terraço de todos os acontecimentos.

No caso do meu irmão Fernando, éramos dois rapazes, com um ano e meio de diferença – ele mais velho do que eu. Isso fez-nos muito próximos: realmente com fortíssima cumplicidade, como não existiria se fôssemos rapaz e rapariga ou tivéssemos uma grande diferença de idades. Dormimos sempre no mesmo quarto, desde que saí do berço; brincámos e estudámos aí; fizemos construções e invenções, juntos; bulhámos e fizemos as pazes; andámos nas mesmas escolas e liceus; estudámos os mesmos livros escolares; fizemos os mesmos exercícios; ajudámo-nos a resolver problemas; fomos confidentes um do outro e guardámos segredos um do outro; rezámos nas mesmas igrejas; lemos muitos dos mesmos livros e escritores; rimos e jogámos imenso; fizemos corridas de bicicleta; iniciámo-nos em conjunto na fotografia e no cinema amador; eu sei lá... De tal forma que, tendo morrido já há sete anos, ainda não sei bem se sinto imenso a sua falta (e sinto-a) ou se ele ainda está guardado nalgum bocado de mim, de onde nunca partiu, nem parte. Somos unha com carne.

Lisboa, Junho 1951: o meu pai, Fernando,
e o tio Gilberto, no dia do casamento dos meus pais.

Já o meu pai e o meu tio Gilberto faziam seis anos de diferença. Eram muito amigos, mas havia como que uma relação paternal do meu pai para com o meu tio. É natural: quando o meu tio Gilberto fez um ano, já o irmão Fernando tinha sete; quando um fez três, o outro estava nos dez; quando o meu pai fez 16, ainda o irmão tinha nove – um miúdo. Isto sou eu a imaginar. Nada vi dessa infância e adolescência muito felizes, passadas em Angola, nos anos ’20 e ‘30. Apenas o imagino a partir das histórias que ouvi contar ao meu pai, aos meus avós, ao meu tio. Mesmo nas brincadeiras mais estapafúrdias, há quase sempre, ali, um lado de mentor (o meu pai) e outro de aprendiz ou ajudante (o meu tio, seis anos mais novo). Talvez daí, aquilo que me pareceu ver sempre neles até ao fim: uma grande admiração do meu tio pelo meu pai; e do lado do meu pai, uma forte admiração também pelo meu tio (enérgico e corajoso militar), acompanhado de grande desvelo e carinho. Havia ali, marcadamente, um irmão mais velho; e havia também um irmão bem mais novo.

Lisboa, 1950: a minha mãe Maria Helena e o tio Zé.

Com a minha mãe Maria Helena e o meu tio Zé, a diferença era outra. Tinham idades próximas: um pouco mais de dois anos entre uma e outro. Mas eram rapariga e rapaz, com interesses muito distintos, educações diferentes e cada um com seus amigos. Nessa altura, anos ’20 e ’30, isso era bastante mais acentuado do que hoje ou nos meus anos ‘60. A minha mãe, a mais velha, creio que só teve amigas e sobretudo dentro da família: primas. O meu tio teve um caminho próximo dos nossos dias: cursou o liceu e foi, solto e livre, para a Universidade de Coimbra, onde se fez médico. Tinham amizade muito forte, mas não propriamente cumplicidade. Apesar da diferença de idades ser menor, parecia-me ver na minha mãe o mesmo desvelo e carinho pelo meu tio Zé, como no meu pai pelo irmão. Na minha mãe, um olhar maternal. E o meu tio olhava a minha mãe com uma admiração que, por vezes, parecia quase cerimoniosa, diante da sua serenidade, prudência e dedicação familiar. A minha mãe acabou por desenvolver doença grave, que perturbou muito a sua vida. O meu tio Zé, que gostava muito da minha mãe e era médico, parecia-me algo quebrado, depois das crises da irmã. Ele sabia. Sabia que ia vir mais a seguir. Entre as coisas mais difíceis com que lidamos na vida está, já se sabe, a nossa própria impotência. Também era assim connosco. Quantas vezes me senti vergado pela incompreensão de onde vinha aquele mal e a impotência de pôr boa a minha mãe.

Destes irmãos que me moldaram e são minha referência, foi, agora, em 13 de Maio, a altura de partir o meu Tio Zé, com 93 anos. Já tinha ido a minha mãe, depois o meu pai, mais tarde o meu tio Gilberto, há alguns anos o meu irmão, agora o meu tio médico. Do meu núcleo familiar mais directo, eis como fiquei o último dos irmãos. Cheguei à linha da frente.

Foram dias que, com a minha tia Isabel (santa e querida mulher) e os meus três primos, filhos de ambos, me fizeram rebobinar no espírito e na memória tantos momentos e marcas de vida. As cinzas do meu tio foram para o jazigo familiar em Odemira, onde estão também a minha mãe e os meus avós. Estivemos depois um pouco (a Conchita e eu, a minha tia e os meus primos) a conversar no terraço da casa que foi da minha avó e ficou para mim.

Em criança, íamos sempre a Odemira, uma semana por ano, no Verão. O meu tio era médico ali perto, em Garvão, onde os meus primos cresceram e entraram na escola primária. Nessa nossa semana alentejana, a família juntava-se toda uma ou duas vezes, naquela casa, naquele terraço, nesses verões. Tenho muitas memórias de brincadeiras e de joelhos esfolados no chão do terraço, então em cimento. Muitas bolas voaram para a Praça Sousa Prado, cá em baixo, ou para um terreno baldio, cavado, profundo, de um dos lados.

Garvão, 1956: nós e dois dos meus primos.
Da frente para trás: Zé, eu, Jaime e Fernando.

Nesse mesmo terraço, os meus primos, sabichões da vida do campo, deslumbraram-me com um mistério: as galinhas correm com a cabeça decepada. Num dia, em que a iríamos comer ao jantar, os meus primos convenceram a empregada a, depois de cortar a cabeça junto a um dos esgotos do terraço, a porem outra vez no chão. Disseram-me: "Queres ver, Zé Duarte? Queres ver?" E eu vi: a galinha lá foi, lesta pelo terraço abaixo, como se quisesse ir de volta para a capoeira, que ficava ao fundo. Se não tivesse visto, não acreditava. Eu teria oito anos e fiquei admirado como poucas vezes. Noutra ocasião, salvámos um gatinho que caíra ou se perdera naquele baldio profundo ao lado do terraço. Miava de solidão e desnorte. Montou-se uma operação familiar de socorro, manejada pelo tio Zé. A minha avó forneceu um pequeno cesto da arrecadação, que se atou a uma corda resistente e comprida. Todos debruçados na amurada do terraço, os cinco primos a fazer claque e os adultos a darem orientações e palpites, o meu tio manejou o cesto com mestria, o bichano acabou por entrar no elevador improvisado e lá subiu dentro do cesto, feito colo mecânico, até à salvação. Foi um triunfo formidável. Inesquecível.

O Duarte, meu primo mais novo,
ao colo do pai, o meu tio Zé.

Esses meus três primos (Jaime, Zé e Duarte), de quem sou muito amigo e eles meus, parecem-se muito na sua relação com o meu irmão e eu. O Jaime e o Zé ainda foram comigo para o CDS, quando era porta-voz e me ocupava da comunicação social: o Jaime fez-se muito bom jornalista, com larga carreira; o Zé ainda criou uma banda desenhada de sátira política e alguns cartoons, para a "Democracia 76", mas seguiu arquitectura competente, tirando melhor proveito do seu desenho. Os três têm estreita diferença de idades entre eles, como o Fernando e eu. Vejo-lhes o mesmo tipo de cumplicidade, que se mantém até hoje. Cresceram entre eles, como nós os dois. Cada um tem o seu modo, mas andaram sempre na mesma estrada, pelo mesmo lado e ao mesmo tempo. Unha com carne. Irmãos para a vida.

Mafra, 1958: nós e os primos filhos do tio Gilberto.
Da esquerda para a direita: Fernando, Pi, Carrucha, Gonçalo e eu.

Os outros meus três primos do tio Gilberto (Carrucha, Gonçalo e Pi), de quem sou muito amigo e eles meus, já são um quadro diferente. São duas raparigas e um rapaz; e a diferença de idades não é igual. São muito amigos, mas até pela vida do meu tio, nas comissões em África, os filhos não andaram sempre na mesma estrada – numa altura, por exemplo, a mais nova estava em Angola com os pais e os outros dois, por cá, nos respectivos colégios militares. São muito unidos e a vida fê-los ainda mais próximos, depois de a sua mãe (a tia Zé) ter morrido num acidente de automóvel e, mais tarde, aquando do exílio com o pai. Sólidos como rocha, seguros como cabo de aço.

Uma nota que aprendi entre todos, ao longo da vida, no mesmo quadro vivencial ou em quadros diferentes, foi a ternura e a confiança entre todos. Graças a Deus. Os meus anos ’60 foram marcados pela guerra do Ultramar. O meu tio Gilberto era militar e fez três comissões em Angola, admirado como o “Comando n.º 1”. Desde os meus 10 anos, ou um pouco antes, escrevia-lhe “aerogramas”, como se chamavam as cartas que mandávamos pelo correio militar. O meu tio gostava muito delas, o que me fazia muito orgulhoso. Era o meu herói privativo e qualquer opinião dele valia mais que Prémio Nobel. Essa correspondência durou até aos meus 15, 16 anos. Ele também respondia por “aerograma”, mas frequentemente tinha de pedir ajuda para ler – tinha letra dificílima. Com o meu tio Zé aconteceu parecido. A certa altura, foi mobilizado como médico e, contrariado, lá foi para o norte de Angola, para Maquela do Zombo e Bessa Monteiro. Esteve ainda noutros lugares. Gostavam muito dele, como pessoa e como médico. O meu tio Zé era, entre outras qualidades, o que se chama um tipo pachola. Também lhe escrevi “aerogramas”, embora o correio não tivesse a mesma intensidade. Sei que contribuiu para alimentar a estima e o afecto que sempre lhe conheci por mim. Ensinou-me segredos. Tivemos, todos juntos, grandes dias e serões de paródias, jogos, conversa e gargalhada, na Cova da Piedade, no Algarve e em Almada. Passeámos várias vezes no seu barco à vela, paixão que lhe crescera com minha mãe, em jovens, então num pequeno "Star" que os meus avós lhes haviam dado. A minha tia voltou-me a assegurá-lo, há duas semanas, quando morreu: “Sabes? Perdeste um grande amigo. O teu tio tinha muita amizade por ti.” Eu sei.

Estas minhas referências são pessoas de até ao fim do mundo, pessoas que sempre foram para mim porto seguro, zona de conforto. Pessoas até para depois do fim do mundo.

Agora, que cheguei à condição de último dos irmãos da minha linha para cima, olho no mesmo patamar para os meus primos de ambos os lados, olho para o patamar de baixo dos meus filhos e sobrinhos e, já para o patamar seguinte, de netos  e sobrinhos-netos. É uma multidão de gente. Não sou o último. Ainda na minha linha e, a seguir, dela para baixo, há muitos outros. 

Grande tribo que me conforta. Aponta estrada muito para lá e para depois de tudo o que posso ver ou imaginar. Sinto-me bem e confortado, mesmo quando há problemas. No fundo, é uma cascata de irmãos, assim como as grandiosas quedas de Calandula (as do Duque de Bragança), com várias frentes e outros tantos desdobramentos. Uma cascata de irmãos, na verdade.

José Ribeiro e Castro

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Olá, Fernando! Estás bom, pá? Um abraço


Uma das fotos da reportagem do jornal O Século, que narrou a nossa aventura.
Nós somos os dois de pé, à esquerda: o meu irmão atrás, eu à frente.


Desde que morreste, há coisa de cinco anos, só posso falar contigo por escritos como este, hoje, no Dia dos Irmãos, que é 31 de Maio. Ou também numa ou noutra oração para que estejas bem e, uma ou outra vez, quando os outros, olhando-me, noite entrada, são capazes de pensar que estou a falar sozinho. É uma chatice quando alguém parte cedo de mais. 61 anos é ainda demasiado cedo, quando tinhas tanto a dar e muita energia para gastar.

Há dias em Odemira, encontrei uma coisa a que vais achar graça. No escritório, ficou aquela secretária enorme do avô e respectiva estante. Remexendo numa gaveta, onde estão lápis, esferográficas, clips, borrachas, lacre, envelopes, encontrei um recorte de jornal muito dobradinho. Abri-o. É de O Século, de 21/7/1970, como está anotado pela letra do avô. É uma peça a três colunas, com quatro fotografias grandes. Devia ocupar uma meia página do jornal. O título, largo, é: “Salvos com dificuldade nas águas revoltas do Tejo quatro jovens cujo barco se voltou ao largo de Paço de Arcos”.

É isso mesmo: conta a nossa aventura que podia ter acabado muito mal. A reportagem começa assim: “A meio da tarde de ontem registou-se, ao largo da doca de Paço de Arcos, um acidente com uma pequena embarcação de recreio, no qual só por sorte e devido a serem bons nadadores, não foram tragados pelo mar quatro jovens (três rapazes e uma rapariga).” E lá diz quem éramos: “Seguia como patrão o cadete Fernando Augusto Castro, de 18 anos, acompanhado por seu irmão, José Duarte Castro, de 16, também cadete, e por dois amigos, Leonor Ramos, igualmente de 16, e pelo irmão desta, Salvador Sequeira, de 15, ambos estudantes.” O jornalista, vê lá tu, fez-me também cadete da Armada, certamente por ter imaginado a destreza com que nos safámos do naufrágio. A bordo do pequeno veleiro, classe “vouga”, do CNOCA, o Clube Náutico dos Oficiais e Cadetes da Armada, havia dois heroicos marinheiros, sábios navegadores: Fernando Augusto e José Duarte.

É impossível esquecer esse 20 de Julho, dia de anos do pai (fazia 48), que estava com a mãe em Lourenço Marques, numa conferência de cidades – nem sonharam a surpresa que lhes preparámos, se tivesse dado para o torto. O combinado era reunirmo-nos todos em Luanda – eu a 22, tu a 23.

A navegação do Alfeite para Santo Amaro tinha sido uma maravilha. Tu ao leme e na retranca com a vela grande e eu à proa no estai, parecíamos Vasco da Gama e seu imediato. Mas, no regresso, aquela manobra ousada de, com nortada muito forte e mar cheio de ondulação, irmos competir para o meio da embocadura do Tejo com outro veleiro, que fazia à vontade três do nosso “vouga”, revelou-se fatal. Conta o jornalista: “Tudo parecia correr da melhor maneira, quando, já no regresso à capital, a pequena embarcação, que navegava a cerca de mil metros da praia de Paço de Arcos, foi apanhada por violenta nortada, que, entretanto, se levantou naquela zona, e violento cachão e depois por uma volta do mar.” Segue a história trágico-marítima, focada no perigo extremo em que logo ficou o Salvador: “A situação agravou-se, tanto mais que a corrente naquele momento era também muito forte, dando origem a que o barco se voltasse, tendo caído ao mar todos os ocupantes, com excepção do Salvador, que ficou dentro da caixa do pequeno beliche da embarcação. A muito custo, o rapaz lançou-se à água e, a nado, conseguiu meios de safar-se pelos próprios meios da crítica situação, aproveitando a bolsa de ar formada pelo barco. Após certa luta com o mar, muito agitado, foi ao encontro dos companheiros que, nadando também com grande energia, e embora contra a corrente, conseguiram, ao fim de longo esforço, alcançar de novo a embarcação, para a qual se conseguiram, finalmente, içar.”

O quadro estava preto. Não conseguíamos endireitar a embarcação para ficarmos mais seguros. Manobrando com o nosso peso sobre o patilhão, duas vezes conseguimos pô-la direita; mas, com o vento e o peso da água que inundara o interior, logo se virava com o mastro para baixo. Estávamos já a mais de uma milha da costa e o dia a acabar. A corrente empurrava para fora. A esperança estava em alguém que nos visse na marginal e aos sinais que fazíamos. A ironia era estarmos em frente do Instituto de Socorro a Náufragos em Paço d’Arcos.

E foi a ironia que nos salvou: um passante viu-nos ainda a navegar; foi chamar a mulher para ver também o atrevimento do veleiro pequeno que voava atrás do veleiro grande; quando a mulher chega à amurada, só vê o veleiro grande e comenta, a rir-se, que o marido estava a ter visões; este quis provar que tinha razão, continuou de olhar fixo na área onde nos vira a navegar e viu, por duas vezes, o “vouga” endireitar-se e virar-se outra vez. Foi chamar mais gente. E todos viram os nossos sinais. Veio, então, o socorro do ISN. É o que conta a notícia: “Entretanto, os sinais foram vistos de terra por pessoas que imediatamente participaram o caso ao Instituto de Socorros a Náufragos, de Paço de Arcos, tendo avançado para o local o salva-vidas Almirante Freixo, sob o comando do patrão sr. Domingos Camarão e conduzido pelo motorista sr. José Augusto Canga, os quais acabaram por recolher os quatro jovens e rebocaram para a doca de Paço de Arcos a embarcação. O salvamento só foi possível devido à rápida intervenção do salva-vidas Almirante Freixo, pois com a fúria do mar, que aumentava de momento a momento, os quatro jovens já sem forças para se debaterem teriam sido arrastados pela forte corrente.”

A narrativa acaba com testemunhos mais ou menos abananados, depois de o jornalista elogiar as competências dos irmãos marinheiros: “A experiência dos dois cadetes, rapazes já com boas noções náuticas e conhecedores do mar, conseguiu acalmar os dois outros jovens que viveram momentos de profunda aflição na ânsia de se salvarem.” A mim, ficou-me a bastar ser arvorado em cadete pelo jornal. Mas, a ti, que o eras de verdade, sempre me pareceu, quando concluíste a Escola Naval, que não bastava seres o primeiro do teu curso, o “penico” do curso Afonso Cerqueira (o AC), mas cumpria que, em memória do “vouga” do CNOCA, te tivessem entregue uma distinção por honra, bravura e glória. Ficaram a dever-te esta.

Fizemos muitas aventuras. Nenhuma foi tão perigosa quanto este passeio no rio se tornou. Mas a pior aventura e a mais estúpida de todas foi termos começado a fumar. Éramos muito novos e o cigarro era um modo de afirmação. Foi esta aventura que te levou; e, embora eu tenha já deixado de fumar vai quase para 20 anos, a verdade é que não sei o mal que deixou e ainda fará.

A seguir ao naufrágio, juntámo-nos aos pais em Angola, como previsto, para um mês em Luanda com os tios e os primos. Olha: um programa de irmãos em diferentes tabuleiros. Marcou-me tanto essa estadia em Angola… Lembro-a muitas vezes como o tempo da minha vida em que, tendo muitas perguntas, recebi todas as respostas. De Angola. Há ali um feitiço qualquer. Não sei se se passou o mesmo contigo. Grande terra, gente fantástica. E ir aos sítios que o pai e o tio tinham contado da sua infância e juventude em Luanda e observar se eram iguais, ou não, ao que tínhamos imaginado – foi como reler uma novela ao vivo. Verdadeiramente único.

Há poucos dias, a Maia mandou-nos um vídeo dos meus netos de Macau, que já não te conheceram. Têm cinco e quatro anos. Fazem-me lembrar muito de nós os dois, quando os vejo a brincar ou a conversar. São dois rapazes, com um ano e picos de diferença – como nós. O vídeo mostra o mais velho a montar um aparelho luminoso, que vinha num estojo de “pequeno cientista”. A cena da montagem é deliciosa, com o mais novo, por trás ou ao lado, a seguir tudo com absoluta atenção e, às vezes, entrando a ajudar. Conseguiram montar a engenhoca, para orgulho da mãe que nos enviou o vídeo.

Daqui por uns anos, quando evoluírem para a química ou a física avançada, como nós fizemos com aquelas caixas magníficas do Chemical Engineering e material improvisado na drogaria, terei curiosidade em ver se a mãe terá o mesmo desvelo com as experiências químicas como as que fazíamos na casa de banho (e levavam a nossa mãe a um ataque de nervos, embora deixássemos tudo em ordem, com excepção daquele espelho que teve de ser substituído) ou investigações eléctricas, que rebentavam frequentemente o quadro. A verdade é que ficámos peritos em fusíveis e a electricidade não tem segredos para nós. Mas, hoje, com os disjuntores, imagino que, acima de certa carga, possa ser mais complicado.

Continuo a cruzar-me com pessoas que, não só na Marinha, se cruzaram contigo e me falam com saudade de ti. Não há dúvida, Fernando: deixaste uma boa pegada ecológica. Fizeste bom ambiente por onde passaste.

E os meus filhos, quando falamos de ti, dizem-me sempre que somos iguais. Os teus filhos também dizem isso. Eu não acho, mas talvez seja assim, à medida que fomos caminhando para velhos. Os nossos filhos o mais citam, como prova, são as nossas gargalhadas, de que se lembram quando estávamos juntos. Esta parte é que é a parte chata: não se consegue gargalhar sozinho.

No outro dia, dei-me conta de que, agora, sou mais velho que tu. Fui sempre o mais novo e, agora, sou mais velho. Tu paraste o teu contador e o meu continua a contar. Já vou com um pouco mais de três anos do que aqueles que fizeste. E tinha um ano e meio para menos. Esta parte também não gosto. Não me dá jeito nenhum ser mais velho. Como estava é que estava bem. E podíamos gargalhar os dois.

Olha: não sei se poderás responder-me e não estou a contar com isso. Nas nossas conversas agora, falo eu. E está bem assim. Mas, se me responderes, não quero que me contes como é onde tu estás. Se tiver a sorte de, um dia, ir ter contigo onde tu estás, eu quero ter o prazer de o descobrir e conhecer por mim próprio. Depois, poderás mostrar-me algum recanto de que gostes mais, como o pai e o tio fizeram connosco em Luanda naquele 1970 do naufrágio. Não contes agora.

Olha pelos teus filhos e netos. E, já agora, olha também pelos meus filhos e netos. Obrigado pelo tempo que passámos juntos. Obrigado por tudo o que crescemos.

José Ribeiro e Castro

segunda-feira, 20 de março de 2017

O meu melhor amigo


No burro da Cascalhosa

Foi em 28 de Fevereiro de 1969. O meu irmão tinha 16 anos, eu acabado de fazer 15. No Verão desse ano, ele acabaria o Liceu e entraria para a Escola Naval, onde seria um aluno brilhante: sempre o “penico”, isto é, o primeiro do curso, no calão da Marinha - mais tarde, seria também o “penico” do seu curso de Naval Architecture and Ocean Engineering no M.I.T., o Massachusetts Institute of Technology, em Boston.

Voltemos a esse dia de Fevereiro, 1969. Foi o dia do último grande sismo em Portugal. Foi forte. Morreram algumas pessoas, uma dezena. Atingiu sobretudo o sul do país. E abanou muito Lisboa. Foi de grau elevado e sobretudo foi muito comprido. O tremor-de-terra principal durou quase um minuto – um minuto de terra a tremer é muito minuto, muito tempo. Se medirem uns 50 segundos pelo relógio e imaginarem que a terra está a tremer durante esse tempo todo vão ver a eternidade que é.

Foi de madrugada, bem depois das três, já perto das quatro da manhã. Acordei com a casa a abanar. Vi logo o meu pai a sair do quarto, cuja porta era em frente do nosso. Foi até ao quadro de electricidade e desligou-o por completo – disse que era para evitar curtos-circuitos e incêndios. E mandou-nos pôr debaixo dos umbrais das portas – disse que, se o prédio ruísse, era o sítio mais seguro. Tudo sem berros, nem pânico; muito calmo e organizado. Pura precaução, que o prédio estava a abanar muito.

Damos conta de que o Fernando não estava e o pai manda-me ver o que se passava. Quando volto ao quarto, ainda a casa abanava, só o ouvi resmungar, na cama: “Que chatice! Não me chateiem! Deixem-me dormir.” No seu sono, sempre tranquilo e profundo, devia imaginar que alguém o abanava, para que acordasse e se levantasse. Como era cedíssimo, queria dormir – e estava no seu direito. O tremor-de-terra acabou logo a seguir. Não houve já necessidade de se levantar, nem de acordar. Em todo o sul de Portugal, deve ter sido dos poucos portugueses que não deram pelo sismo. O Fernando foi sempre uma alma descansada.

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Hoje, passam três anos que morreu. Também foi cedo – como naquela noite bem dormida. E, nestes dias de memória mais forte, em que o luto pinga às pinguinhas, é de histórias destas que me lembro do meu irmão.

Como o naufrágio perigoso num “Vouga” do CNOCA (Clube Náutico dos Oficiais e Cadetes da Armada), ao largo defronte de Paço de Arcos, num fim de tarde muito ventoso e de carneirada traiçoeira, com a Leonor e o Salvador – uma aventura náutica que podia ter acabado muito mal. Era Julho de 1970, um ano depois do sismo, com o Fernando tendo já acabado o 1º ano da Escola Naval e eu a caminho de entrar na Faculdade de Direito.

Ou das nossas brincadeiras cúmplices. As experiências e as prodigiosas descobertas químicas com um kit do Chemical Engineer, que saíra na altura, e por outras improvisações da nossa imaginação, que tinham o condão de deixar a nossa mãe entre a admiração pelo engenho dos seus rebentos e um ataque de nervos. Volta e meia, houve umas pequenas explosões, embora nada demais. E uns estalidos. A partir de um certo dia, a banheira lá de casa passou a ostentar, no esmalte, uma pequena mancha queimada por um ácido que ali entornámos. A mancha na banheira durou tantos anos quantos os anos que da banheira me lembro, assinalando aos usuários domésticos e a outros vindouros, que por ali havia passado um espírito científico inquieto – e o ataque de nervos da minha mãe também.

Os complementos desse kit para jovens iniciados Chemical Engineer comprávamo-los com o que as semanadas nos permitiam, na “Titarene”, uma pequena loja que havia, a meio da Avenida da Roma, ao lado da “Romeira” e que vendia um pouco de tudo. Espantava como tantas e tão variadas coisas cabiam numa loja tão pequena. Ao fundo da loja, havia uma salinha, onde tinham brinquedos diferentes do habitual. Tinha sido o Fernando a descobrir essa arca do tesouro, nas nossas viagens a pé entre casa e o liceu: primeiro, a secção de Alvalade do Liceu Camões; depois, o Liceu Padre António Vieira, de que ambos fomos fundadores – eu a partir do 3º ano do liceu, ele a partir do 4º.

Foi nas profundezas da “Titarene” que descobriu o fascinante Chemical Engineer, que tanto confundia a nossa mãe. E descobriu também – oh, prodígio da inventiva! – os comboios eléctricos da Märklin. Coleccionámos anos a fio, peça a peça, estes comboios, mobilizando também generosas ofertas da família em aniversários e Natais consecutivos. Não conseguimos uma frota milionária, mas, ainda assim, um conjunto apreciável. E, porque eram das peças mais baratas, investimos sobretudo em linhas, com que, no nosso quarto ou, às vezes, na sala, construímos os percursos e trajectos mais ousados e inverosímeis, que nem nos Alpes ou nas cordilheiras e abismos dos Andes. Volta e meia, o comboio, com sua locomotiva e carruagens, dava grandes estoiros a partir das alturas a que o sujeitávamos – felizmente, não havia vítimas. Depois, corrigíamos ligeiramente o percurso e o comboio fazia a travessia sem mais incidentes. No fundo, no fundo, éramos uns experimentalistas.

Lembro-me, claro!, muito crianças, talvez 1956, das viagens camponesas no burro da Cascalhosa, sob a apertada vigilância do avô Jaime e do Zé Gonçalinho, que não iam deixar que nos acontecesse o que, anos depois, fizemos aos comboios da Märklin. E, muitos anos depois, em 1977, de viagens inapagáveis na Costa Leste dos Estados Unidos da América, entre Boston e Nova Iorque. Foi nos tempos em que frequentou ao M.I.T., tinha ele já os primeiros três filhos (um nascido em Angola, outra no Alfeite e a última já em Boston) e a minha filha mais velha foi aí fazer um ano. O nosso pai também lá estava.

Lembro-me como ontem. Vivia-se ainda o “Spirit of 76”, o bicentenário da Revolução Americana, muito intensa na Nova Inglaterra. Fomos a Plymouth, onde estava a réplica da Mayflower, dos primeiros colonos. A qualidade de vida em Sommerville, o subúrbio onde viviam, era magnífica, com suas ruas ordenadas, abastecimento impecável, parques magníficos. Encantou-me a beleza clássica e moderna de Boston, a Prudence Tower, o Logan Airport, o Haymarket – na altura, uma coisa parecida ao que, agora, quarenta anos depois, fizemos no Mercado de Campo de Ourique e no Mercado da Ribeira – o Museu da Ciência, o Aquário, a Quincy Bay, e o Charles River com seus parques; Harvard e os espaços amplos das suas escolas e campus, que tinham sido o cenário de um filme de grande sucesso de anos antes, o Love Story; Rockport, Gloucester e Lynn, a norte de Boston; Cape Cod, Falmouth e Martha’s Vineyard, para sul. E, depois, os dias passados em família, nessa sempre espantosa Nova Iorque e na viagem de ida-e-volta pelos Estados de Rhode Island, Connecticut, Nova Iorque e Massachusetts, tudo em animada alegria na station wagon, muito americana, que eles tinham – no carro, éramos nove ao todo, cinco adultos e quatro crianças. Inesquecíveis essas semanas de estadia na Craigie Street 50, onde era o bloco de apartamentos em que viviam nos arredores de Boston.

Ele podia ter ficado por lá. Era muito qualificado e teve convites para isso. Mas preferiu vir. Escolheu sempre Portugal.

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*   *

A alma descansada que o Fernando sempre foi era também fermento de ânimo e de optimismo. Contagiava. Não contrastava com ninguém, nem nunca o ouvi ou senti interrogar-se por que era assim e outros não. Era assim. E usava essa força como uma força da sua própria natureza, sem grandes interrogações e nenhuma metafísica. Era essencialmente um espírito prático. Uma alavanca.

O seu encontro com Deus foi bastante natural. E era estreito – claramente próximo e íntimo. Sentia-se isso. Talvez fosse daí que lhe vinha aquela alma tão descansada e aquele transbordo constante de ânimo e optimismo. Era um espírito confiante – um espírito prático e confiante.

Digo “talvez fosse daí”, porque honestamente não sei – faço apenas uma conjectura. A nossa proximidade era tão grande que podíamos estar longos tempos sem nos vermos, mas sabíamos sempre tudo o essencial dum e doutro. Tínhamos aquilo que chamo de T.S.F., telefonia sem fios, uma espécie de telepatia, que nos permite comunicar, até ao nível emocional, e rir e chorar, sem qualquer necessidade de nos estarmos a ver.

Mas disso, da fonte da sua alma descansada e do seu ânimo transbordante, nunca falámos. E, de facto, não sei. Era um segredo próprio dele – e nunca lhe perguntei. Sinal de que, mesmo entre os mais próximos dos próximos, nunca ninguém sabe tudo do outro.

Obrigado, Fernando. T.S.F., meu irmão!

José RIBEIRO E CASTRO


O Fernando, meu irmão

terça-feira, 31 de maio de 2016

Um dia igual, um dia diferente

Publicamos, aqui, o texto integral do artigo com o mesmo título, de que uma versão mais curta foi publicada hoje no jornal Público, no contexto das comemorações do Dia dos Irmãos.


O Fernando e eu, na festa dos meus 60 anos

Um dia igual, um dia diferente

- por José Ribeiro e Castro


É lema conhecido: todos iguais, todos diferentes. O mesmo pode dizer-se dos dias: têm 24 horas, mas todos são diferentes – pelo tempo que faz, pela hora a que o sol nasce ou se põe, pelo calendário. Repetem-se, todos os anos; e, repetidos, podem ser diferentes. O traço distintivo é a memória que assinalam ou o valor que celebram: um aniversário; ou a referência social que lhe associamos.

O dia de hoje distingue-se por ser Dia dos Irmãos – festejamos os irmãos e a sua relação. Foi em 18 de Setembro de 2014 que a assembleia geral da Confederação Europeia de Famílias Numerosas (ELFAC) resolveu instituir o Dia dos Irmãos, fixando-o a 31 de Maio a nível europeu, e iniciou a sua celebração anual, na sequência de uma primeira experiência estreada em Portugal nesse ano.

Já havia dias para praticamente tudo, não ainda para celebrarmos irmãs e irmãos. E, todavia, termos irmãos, sermos irmãos, é tipicamente a relação mais forte, mais próxima, mais duradoura na nossa vida. As experiências não são iguais. Há irmãos que se dão mal, não só os que se dão bem – estes predominam largamente sobre aqueles e são o exemplo que guardamos. Variam também os quadros e circunstâncias. Há os que só têm um irmão ou irmã e os que têm muitos. Há os irmãos de idade próxima e os de idades muito afastadas. Há irmãos dos dois pais e meios-irmãos, só de mãe ou só de pai. Há ser o mais velho e ser o mais novo. Há os gémeos e os que o não são. Há ter só irmãos, ou ter só irmãs, ou tê-los de ambos os sexos. Mas seja qual for o quadro, é singular e fortíssima a relação de irmãos. Prolonga-se e alarga-se por tios, primos e sobrinhos. Há sobrinhos, filhos de irmãos, que nos são tão queridos como filhos. Há primos, filhos de irmãos dos pais, com que enturmamos como irmãos – os primos-irmãos, propriamente ditos. E os tios, irmãos dos pais, são os que frequentemente têm connosco as conversas que os pais não têm, grandes camaradas de rectaguarda. É a relação de irmãos que estrutura a ampla e alargada relação familiar.

A lacuna já não existe. Ary dos Santos escreveu no poema que Fernando Tordo musicou para Paulo de Carvalho: “Natal é quando o homem quiser”. Assim é o Dia dos Irmãos: é quando o quisermos – não só quando nos lembramos dos irmãos, mas também neste Dia que, a partir da afirmação civil, escolhemos para os celebrar socialmente. Escolhemos 31 de Maio, hoje.

Existe, é certo, uma petição. Aliás, três: uma, dirigida à Assembleia da República; outra, para as instituições europeias; e outra, para as Nações Unidas. Essas petições são instrumentos de divulgação e agregação – não se destinam a pedir para ser criado o que já está criado. O Dia dos Irmãos existe desde 2014, instituído pela ELFAC.

Claro que será bom que qualquer dessas instituições públicas, superando partidarismos, o abrace e afirme também. Mas estes “Dias” existem fora de qualquer deliberação política. Onde está a lei ou a resolução que criou o Dia do Pai? Ou o Dia do Mãe? Ou o Dia dos Namorados? Não há. Vivem de afirmações sociais. O Dia Mundial do Escutismo resultou dos próprios escuteiros, que adoptaram o Dia de S. Jorge. O Dia Mundial da Terra decorreu da proclamação de um senador americano que foi fazendo o seu caminho. O Dia Mundial da Voz foi a escolha e decisão das associações de otorrinolaringologistas.

O Dia dos Irmãos já está aí para o celebrarmos; e só existe na medida em que o celebremos. De que serviria qualquer instituição proclamá-lo, se os irmãos não o festejássemos? O que seria do Dia da Mãe se não lembrássemos a nossa mãe, não lhe falássemos com um mimo ou uma graça, não lhe déssemos um beijo ou um abraço, não lhe escrevêssemos um bilhete, não lhe levássemos aquela flor?

De tão habituados estarmos aos eventos do “Portugal sentado”, perguntam-nos por vezes: o que vai acontecer no Dia dos Irmãos? O que vão fazer no Dia dos Irmãos? Será como cada um quiser. Ninguém pode substituir-se à singularidade da nossa relação com os nossos irmãos e à imaginação que cada um escolher. Pode ser uma almoçarada ou jantarada. Aquele encontro alargado de família que se adia há tantos anos, fazendo até o plenário dos irmãos, isto é, com tios, primos e sobrinhos também. Uma conferência telefónica via Skype, entre os que estão longe. Começar um jornal de família ou estrear uma página ou grupo no Facebook. Buscar e partilhar fotografias e vídeos antigos. Um concurso de textos, pequenas histórias, quadras, desenhos. Uma futebolada ou um torneio de matraquilhos, malha ou ping-pong. Redescobrir as caricas e os berlindes e fazer um campeonato. Um festival de karaoke. Um simples reencontro. Isso! O mais importante de tudo: reencontro.

Os irmãos marcam-nos para sempre. São como nossa segunda natureza. Na minha circunstância, só tive um irmão. Melhor dito, só tenho um irmão. É facto que já morreu; mas nunca deixei de o ter. Só vivendo, percebemos o que estou a dizer. Não o entendia antes; entendo-o agora.

Um cancro levou-o de repente: ainda novo, com 61 anos. Um cancro de pulmão de células pequenas: terrível! Um cancro de fumador, particularmente agressivo. Num ano, deixámos de o ter connosco. Foi diagnosticado em Fevereiro; morreu em Março do ano seguinte.

O meu irmão tinha qualidades extraordinárias, não só de inteligência, trabalho e dedicação, mas também de temperamento e alegria. Crescemos muito, cultivando sentido de humor diante da vida, das situações e das dificuldades. O desenvolvimento do cancro teve duas fases: uma, em que pensou num milagre; outra, de contra-ataque inexorável do bicho. Numa das últimas semanas, fui almoçar com ele perto do seu trabalho. Não tinha cabelo, por causa da quimioterapia. Ao sairmos para o restaurante, cruzámo-nos com umas jovens, colegas dele, que fumavam à porta do edifício. O meu irmão, sorrindo muito, olhou para elas e disse-me: “Zé! Eu já disse a estas meninas para terem cuidado: fumar faz cair o cabelo.” Elas sorriram também. Sorriso contido.

Nunca o ouvi lamentar a sua sorte. Mas o meu irmão gostava muito de viver. Adorava a vida. Sinto que partiu triste. Gostava de ter mais tempo. E tinha muito para fazer.

Tenho sempre dúvidas sobre se estas coisas funcionam, pois também fui grande fumador e as recomendações não funcionavam comigo. Mas sinto que a prevenção do meu irmão a quem fuma é esta: “Cuidado! Fumar faz cair o cabelo.”


domingo, 22 de março de 2015

O meu irmão


Fez na passada sexta-feira, 20 de Março, um ano que o meu irmão morreu. Tinha 61 anos, a idade que eu tenho agora. Um cancro levou-o. De repente, assim no espaço de um ano. Já falei disso, há um ano.

Na missa de anteontem, em São Domingos de Rana – a sua Rua Sésamo –, falei do luto, de como as palavras vão lavando a tristeza e o vazio e deixando apenas o rasto que inspira e a presença. Sempre a presença - vaga, mas real. É uma coisa pascal, quadra que vivemos nesta altura: damo-nos conta de que é quando vemos que não é, sentimos que está quando reparamos que já não está. Foi assim com as mulheres cristãs que primeiro viram o túmulo vazio; e é assim com todos nós, quanto aos nossos que lembramos partidos.

Falei também dos seus filhos, treze irmãos: o Miguel, a Catarina, a Filipa, o Rodrigo, o João, a Madalena, a Carmo, o Marcos, o David, o Bernardo, o Samuel, o Lourenço e a Teresa. Foi este currículo que fez dele o fundador, o grande animador e o primeiro presidente da APFN – Associação Portuguesa das Famílias Numerosas, uma obra e um legado extraordinários. E também o líder europeu da ELFAC – European Large Families Confederation.

Diversamente dos meus sobrinhos, eu não tenho mais nenhum irmão. Éramos só o Fernando e eu. Não tinha escolha, nem ele. Não tínhamos “irmãos p’rá troca”, mas apenas a nós os dois. Talvez isso fizesse crescer entre nós uma cumplicidade fortíssima. Mesmo nos tempos de silêncio e de distância.

Em criança, zangámo-nos muitas vezes e bulhámos outras tantas. A espécie humana não é imune à luta animal pelo território; também isso temos de aprender a ocupar e a partilhar, a descobrir o que é reservado e o que é comum. Mas tínhamos, e desenvolvemos, uma cumplicidade fortíssima. E, talvez porque, nos conflitos, não tínhamos mais nenhum outro a quem recorrer, nem para pedir consolo, ou apoio, ou abrigo, nem para buscar uma qualquer arbitragem, soubemos – e aprendemos – que era entre nós os dois, mesmo, que tínhamos de reencontrar a paz e os seus termos. Só nós dois podíamos resolver os problemas que nós dois havíamos gerado ou entre nós dois haviam surgido. Nunca ficou nenhum por resolver.

Éramos diferentes. Por isso, complementares – nunca me lembro de rivais, nem eu dele, nem ele meu. Éramos uma parelha bem-disposta. É esse espírito e essa memória que tenho presente quando me empenho na instituição do Dia dos Irmãos, um projecto APFN e ELFAC. (Já agora, assine também a petição nacional e as internacionais.)

Ele era o mais velho e, desde muito miúdo, manifestamente engenheiro. Muitas engenharias fizemos lá em casa!

Uma vez, teríamos entre 11 e 13 anos – estaríamos, portanto, em 1965 ou por aí – resolvemos modernizar a casa e o conforto do nosso quarto. O meu pai, que era melómano, havia comprado, uns anos antes, um pick-up (assim se dizia) Blaupunkt, que era o seu orgulho: um móvel rádio e gira-discos, estereofónico, o último grito das maravilhas da técnica alemã. Tinha um pequeno inconveniente o aparelho: só dava para ouvir música na sala-de-estar. 

Lembrámo-nos, por isso, de instalar uma extensão para o nosso quarto. Comprámos longos metros de fio eléctrico, duas pequenas colunas de som em segunda mão e pregos e braçadeiras em abundância. E com mestre engenheiro à frente e eu de operário aprendiz, esventrámos a parte traseira do pick-up Blaupunkt do meu pai e ligámos as suas colunas estereofónicas ao fio eléctrico, que meticulosamente estendemos, em duplicado, até ao nosso quarto, bordejando os rodapés e os alizares (i.e., as ombreiras) das portas de passagem. Chegada a ligação ao nosso quarto, foi ligar as extremidades dos dois fios às novas colunas adquiridas – e aí estava a estereofonia a soar em pleno no nosso quarto. Uma revolução tecnológica nos anos ’60!

Como eram os pick up Blaupunkt do final dos anos '50
O que mais nos surpreendeu, ao fim do dia, é que o nosso pai não se zangou muito, ao chegar a casa e a minha mãe, que tinha estado fora o dia todo enquanto os dois operários trabalhavam, lhe mostrar a novidade. Ralhou um pouco, mas não demasiado. Sobretudo não mandou desmontar o inovador engenho – ganhámos! E até nos pareceu ouvir risota entre a mãe e o pai, fechados no quarto deles. Sempre nos ficou a ideia de que o meu pai ficou dividido entre a lesão traseira infligida ao seu prodigioso pick-up Blaupunkt e a admiração pelo engenho inventivo das suas adoráveis criancinhas. 

A qualidade do trabalho era, aliás, magnífica: o som funcionava quer na sala (o que o meu pai logo quis verificar), quer no quarto; e o fio estendido pela casa fora estava cuidadosamente pregado a rodapés e alisares, sem que a coisa chocasse minimamente. Um trabalho de categoria!

Uns dias depois, face à tolerância paterna, resolvemos introduzir mais um melhoramento – isto é, decidiu o meu irmão e eu fui atrás de aprendiz. Acrescentámos mais um circuito de fio, por aquela extensão toda, que interrompia o circuito de alimentação eléctrica do rádio. Assim, manejando no nosso quarto um pequeno interruptor de candeeiro, que adquirimos para o efeito, podíamos ligar e desligar o rádio à distância, sem termos que nos levantar. É certo que não dava para manejar o gira-discos, nem para mudar de estação de rádio; mas tínhamos música em directo a partir da nossa estação preferida, sempre que queríamos. Um telecomando da década de ’60, novo prodígio tecnológico!

Tudo o que sei de bricolage – e muita coisa aprendi e faço – devo-o a essa relação com o meu irmão. Imaginação e inventiva, em que éramos ambos bons, conjugadas com engenharia, que era o seu ofício inato. Fizemos grandes exercícios de química (para grandes sustos da nossa mãe), fizemos fotografia, muitas e variadas construções, tornámo-nos reparadores domésticos para os mais diversos usos (o que reforçava as amnistias paternas), fizemos filmes, que montámos e sonorizámos.

Depois, ele foi para engenheiro – e oficial de Marinha. E eu para outra vida.

Foi o primeiro do seu curso na Escola Naval. E, em Boston, no M.I.T. - Massachusetts Institute of Technology, de novo o primeiro do seu curso como engenheiro construtor naval. Deve-se unicamente à crise do país e ao declínio prolongado em que mergulharam as questões do mar, que não pudesse ter dado mais contributo à sua área de especialidade e excepcional vocação. Foi um grande oficial de Marinha, um estimado professor da Escola Naval, um quadro reputado do Alfeite e um engenheiro de altíssimas competências e aptidões.

Nunca desistiu do mar, que era bem mais de metade dele próprio. E os baldões da vida acabaram por o levar de volta a esse seu domínio, destacando-se como o grande motor do Fórum Empresarial para a Economia do Mar, uma convicção profunda, mais do que um emprego, já nesta última década em que Portugal parece querer voltar a reencontrar o mar que nos bordeja e nos preenche.

Mas foi na família que se tornou socialmente mais conhecido. A partir da sua família numerosa fez um promontório de luta pela família e pelos valores familiares, tornando-os mais vivos e mais sonoros, num tempo e num espaço em que precisamos tanto deles. E de porta-vozes. Foi um soldado incansável dessa causa. Uma causa que fundou e que continua. Foi aí que o Presidente da República escolheu, agora, distingui-lo a título póstumo. Obrigado.

O meu irmão foi sempre um apaixonado, irradiando optimismo, vontade e confiança.

Em tudo o que fez, o Fernando pôs a sua alma. Por isso, nos é tão fácil reencontrá-la em tanto que deixou feito. E, assim, seguir.


José Ribeiro e Castro
22 de Março de 2015