quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

25 razões para defender o Euronews em português



O Euronews é uma história de sucesso à europeia. E nós, portugueses, fazemos parte dela.

1. Está em crescimento contínuo desde o começo em 1993, então apenas com serviços em cinco línguas: inglês, espanhol, francês, alemão e italiano.

2. A língua portuguesa juntou-se em 1999. Foi a sexta língua e tornou-se um sólido pilar. A emissão em português é já recebida em 100 milhões de lares em todo o mundo. E está também no portal www.euronews.net e na distribuição permanente da emissão televisiva nos tablets e telemóveis – em português, na linha da frente da tecnologia na informação internacional.

3. Ao fim dos primeiros dez anos, em 2002, o Euronews já chegava a 125 milhões de lares em 78 países. Nos últimos cinco anos, duplicou a sua distribuição a nível mundial: hoje, está em 350 milhões de lares de 155 países nos cinco continentes.

4. É distribuído 24 horas por dia, 7 dias por semana, em 11 línguas diferentes em simultâneo em todo o mundo, incluindo em árabe, russo, turco, ucraniano e persa. E tem ainda emissões locais, em tempo parcial, em romeno, sérvio e lituano.

5. É acessível directamente, nas respectivas línguas, a 3,5 mil milhões de pessoas em todo o mundo, mais de metade da população mundial, por via hertziana, cabo, satélite e meios electrónicos.

6. É recebido em hotéis, nos aviões de grandes companhias, em ADSL, pela Internet e várias plataformas, nos computadores de mesa e portáteis, nos telemóveis, smartphones e tablets.

7. A emissão portuguesa é vista em Portugal por 800.000 telespectadores por dia, mais do que a CNN, a Sky, a BBC. É ainda seguida em todo o mundo nos países da CPLP, nas diásporas portuguesa e lusófonas e por todos os que querem seguir o português como língua estrangeira.

8. Transmite permanentemente para Portugal informação europeia de grande diversidade e de primeira qualidade. É instrumento importante para superar e vencer a nossa “periferia mental” relativamente à Europa e sua actualidade. Ajuda-nos a não sermos “euro-analfabetos”.

9. O multilinguismo do Euronews, incluindo em português, é uma importante vantagem comparativa do canal face a outros canais noticiosos internacionais monolingues. 

10. A equipa editorial integra 400 jornalistas de 20 nacionalidades, que comparam, analisam e debatem constantemente, evitando pontos de vista pessoais ou estritamente nacionais. Mas tem uma visão compreensiva, aberta a diferentes agendas e sensibilidades e de múltiplas fontes directas, e não um olhar apenas americano, ou apenas inglês, ou apenas francês.

11. Tem uma parceria de trocas com a Eurovisão, televisões nacionais accionistas (como a RTP) e com as agências de imprensa e de TV.

12. Na Europa, o Euronews é seguido, todos os dias, por 7 milhões de telespectadores, quatro vezes mais que a CNN e 8 vezes mais que a BBC World.

13. É o canal internacional de informação preferido na Europa, na África e no Médio Oriente – o nº 1. 

14. É a cara da Europa para o resto do mundo. E nós viajamos nela e com ela.

15. É recebido em 181 milhões de lares na Europa, 68 milhões na América do Norte, 57 milhões na África e Médio Oriente, 27 milhões na Rússia, 8 milhões na Ásia/Pacífico e 2,5 milhões na América Central e do Sul. 

16. É o canal de informação preferido das elites. Através dos diferentes meios de distribuição, é seguido todos os meses por 14 milhões de quadros de alto rendimento, de que milhão e meio vêem todos os dias os seus noticiários televisivos. O multilinguismo do canal é chave deste sucesso – segundo inquéritos internacionais e ao contrário das ideias feitas, apenas 39% das elites seguem programas informativos em inglês. 

17. É uma referência de organização e gestão, com um orçamento modesto para tudo isto: gasta somente 60 milhões de euros/ano, um décimo do orçamento da CNN, cerca de 1/5 do da RTP. Viu reconhecida pela Comissão Europeia a excepcional relação custo/eficácia.

18. O custo suportado por Portugal com o serviço em língua portuguesa é inferior a 2 milhões de euros/ano. O custo para os novos membros é de 6 milhões de euros anuais, o triplo.

19. O investimento feito por Portugal para ter o serviço de língua portuguesa em todo o mundo equivale a menos de 2 cêntimos/ano por cada lar que o recebe nos cinco continentes.

20. A equipa de língua portuguesa, que assegura mais de 8.700 horas de emissão anuais e os conteúdos do portal Internet, é composta por 33 jornalistas, dos quais 16 residentes. Além da emissão geral, a equipa produz peças noticiosas de foco português e lusófono, com conteúdos de política, economia, desporto, sociedade, cultura, ciência ou informação geral, que são simultaneamente difundidas para todo o mundo em todas as diferentes línguas do canal: isto é, em 11 línguas, para 155 países em todos os continentes, chegando a 350 milhões de lares e podendo ser entendida na própria língua por mais de metade da população mundial. É Portugal no mundo inteiro.

21. Na competição linguística internacional, o Euronews multilingue, ao incluir a nossa língua, serve permanentemente a compreensão de que o português é uma grande língua de comunicação internacional. Desaparecer é perder. Estar é crescer.

22. No quadro simples de uma parceria informativa multilingue à escala mundial, é um instrumento natural de divulgação directa e de afirmação evidente do português enquanto terceira língua europeia global e a sétima língua mais falada no mundo.

23. A língua portuguesa, que é um instrumento importante de internacionalização da nossa economia e de afirmação do país e da lusofonia, tem no Euronews um meio que, sendo já potente, tem virtualidades ainda maiores, à espera de serem aproveitadas e exploradas, não de serem deitadas ao lixo. É missão clara de serviço público.

24. O Euronews tem potencial de forte crescimento próximo, em todos os continentes e, em especial, na América Latina e na Ásia/Pacífico, onde o atraso comparativo de penetração é visível. Ambas são regiões mundiais relevantes para a língua portuguesa e a internacionalização da nossa economia.

25. Há mais línguas prontas a juntar-se a este grande canal internacional multilingue. A nova sede mundial do Euronews, em 2014, vai permitir novo salto em frente.

Acabar com o Euronews em português seria um facto absolutamente incompreensível - apenas por inadvertência. Ou, o que seria pior, por capricho desastroso. Porque o Euronews é barato e está a crescer. Porque é europeu e global. Porque leva a nossa língua, de um país que quer ser europeu e global. Porque já lá estamos, a construir e a afirmar. Porque é um comboio a ganhar penetração e velocidade. Não podemos apear-nos. Não podemos deitar-nos a perder. Há até várias alternativas para assegurar e porventura repartir o financiamento, além do Orçamento de Estado e da própria RTP, a saber: o próprio valor para o Euronews, a Comissão Europeia, a lusofonia, os distribuidores por cabo. Não podemos desistir.

[artigo de opinião que publiquei na edição de hoje do jornal PÚBLICO]

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Passos Manuel (1805-1862)



Hoje, nas cerimónias parlamentares por ocasião dos 150 anos da morte de Passos Manuel, este o meu discurso de evocação e homenagem:


Manuel da Silva Passos é um dos políticos mais notáveis e mais brilhantes da história da política democrática portuguesa.
Conhecido e imortalizado como Passos Manuel – para melhor o distinguir de seu irmão mais velho e companheiro de lutas liberais, José da Silva Passos – foi uma presença meteórica, mas fecunda, na liderança do país, nos anos ’30 do século XIX. Homem de princípios, seria, mesmo depois de auto-afastado da liderança política, presença sempre influente e voz sempre respeitada, fosse a partir das bancadas parlamentares, para que foi eleito várias vezes, fosse do seu retiro em Santarém, até morrer em 1862.
Enquanto presidente da Comissão de Educação, Ciência e Cultura e também como deputado eleito pelo Porto como ele foi, é uma honra estar aqui a representar o Parlamento neste primeiro acto simbólico das cerimónias de hoje, em que a Assembleia da República lhe presta homenagem, 150 anos depois, e em que escolhemos fazê-lo nesta Escola Secundária que tem o seu nome: o LYCEV PASSOS MANVEL, escrito com y e, ao modo latino clássico, grafando vv no lugar dos uu, muito antes dos Acordos Ortográficos. Escolhemos fazê-lo aqui para assinalar uma das suas reformas inovadoras principais: a criação do ensino liceal, que saiu da sua pena em 17 de Novembro de 1836, ainda que concretizada somente mais de uma década depois. E escolhemos também fazê-lo por, digamos assim, um “roteiro Passos Manuel”, em que seguiremos, depois, até à Sala do Senado na Assembleia da República, para evocar, também pela rua, a entrada triunfal dos dois irmãos Silva Passos no Palácio de S. Bento, à cabeça dos deputados liberais vencedores das eleições no Douro, envoltos pelas manifestações populares entusiásticas com que a população de Lisboa os recebeu e que deram corpo à Revolução de Setembro de 1836.
Passos Manuel entrou de rompante na história política portuguesa, nesses tempos agitados das lutas liberais do primeiro quartel do século XIX, atravessados por várias guerras civis. Apoiante de D. Pedro IV contra os absolutistas de D. Miguel, dele se afastaria por não ser adepto da Carta Constitucional. Foi um vintista, fiel ao ideal radical da soberania popular da primeira Constituição portuguesa de 1822. Forte referência política do chamado “segundo liberalismo” português, foi o líder natural do Setembrismo, capitaneando o regresso aos ideais que aprofundara desde a juventude estudantil em Coimbra e no breve exílio por Inglaterra, França e Bélgica. Era de esquerda moderada – hoje, diríamos do centro-esquerda. Um lutador caloroso e apaixonado pela sua causa da soberania popular, mas um conciliador e um legalista intransigente e escrupuloso, que tantas vezes evitou a Portugal enfrentamentos mais dolorosos e sangrentos, o que lhe granjeou amplo respeito, mas também dissabores com os mais radicais, sobretudo os que ficaram conhecidos como os irracionais, a extrema-esquerda de então.
Seria esse espírito conciliador que, no rescaldo da Belenzada, levaria, em boa parte, ao espírito da Constituição de 1838: um cruzamento entre a pureza original da Constituição de 1822 e alguns traços da Carta Constitucional de 1826.
Passos Manuel fez tudo muito jovem e muito depressa. Eleito pela primeira vez deputado aos 29 anos, liderou o Setembrismo com apenas 31 e seria ministro com esta mesma idade: ministro do Reino, a seguir à Revolução de Setembro, e, depois da Belenzada em Novembro, acumulando com a Fazenda e também a Justiça.

Foi ministro apenas nove meses: demitir-se-ia, desapontado, em Junho de 1837, depois de uma derrota nas Cortes Constituintes, às mãos da esquerda radical, aliada àqueles que vencera. Conta MARIA DE FÁTIMA BONIFÁCIO: “No termo da «ditadura», quando as Cortes Constituintes abriram a 21 de Janeiro de 1837, Passos Manuel apresentou-se a pedir a ratificação parlamentar para a sua obra legislativa. Nela sobressaía a promulgação da nova Pauta Geral das Alfândegas que protegia a produção nacional com elevados direitos de importação, algo que o radicalismo sempre reclamara como a medida que em pouco tempo faria de Portugal uma segunda Bélgica. Destacavam-se também o novo Código Administrativo e a reforma do ensino. Os irracionais, sentados na bancada da extrema-esquerda, disseram-lhe que abusara de legislar e que violara a Constituição de 1822, e que por esse crime merecia «ser enforcado». Passos, que trabalhara «sem cessar pela felicidade do país», não compreendia a ingratidão.”

Naqueles nove meses de Governo Setembrista, Passos Manuel foi de um reformismo visionário, incansável e fulgurante: criou os Conservatórios de Artes e Ofícios, embrião do ensino técnico; fundou a Academia de Belas Artes; criou a Casa Pia de Évora; fundou e organizou o Teatro Nacional, bem como o Conservatório Geral de Arte Dramática; definiu em lei a criação de liceus em todas as capitais de distrito; reformou as Escolas Médicas; criou a Academia Politécnica do Porto; fez a reforma do ensino universitário e também da instrução primária – todo um programa que o faz um emblema ilustre da nossa Comissão parlamentar a que presido. Mas fez ainda mais: publicou a reforma eleitoral que ampliou o sufrágio; reduziu para menos de metade o número de concelhos; lançou a criação de associações agrícolas, fabris e industriais; adoptou uma reforma judiciária; proibiu o tráfico de escravos; reformou o sistema tributário, publicando uma nova Pauta Geral Aduaneira, que libertou a economia nacional dos privilégios britânicos de importação; adoptou um novo Código Administrativo, de pendor claramente democrático e descentralizador.
Com tanta intensidade legislativa e reformadora, compreende-se o comentário, algo irónico, de RUI RAMOS, na sua “História de Portugal”: “A fundação por Passos Manuel, entre 1836 e 1837, de liceus, conservatórias de artes e ofícios, e escolas politécnicas foi sobretudo literatura para o Diário do Governo, tal como tinha sido o ensino primário obrigatório decretado em 1835.”

A verdade é outra: a verdade é que Passos Manuel, quando saiu do Governo, com apenas 32 anos de idade, deixou ao Portugal moderno um legado ímpar, verdadeiramente invejável, que levaria anos, décadas, a frutificar e a amadurecer por completo, num quadro de enorme instabilidade política que se arrastaria até ao início do período conhecido como a Regeneração.
Tinha uma ideia clara da modernidade e uma grande ambição para as classes médias e a burguesia urbana emergente. Di-lo o mesmo historiador RUI RAMOS: “A uma escala mais elevada na sociedade, os liberais tinham o país em grande conta. Passos Manuel, em 1834, garantia que «a nossa classe média pode afoitamente competir com as mais ilustradas da Europa». O objectivo dos governos foi, a esse respeito, criar o ambiente certo para multiplicar o tipo de ser humano que convinha ao Estado liberal: o cavalheiro ilustrado, amador de ciências e de literatura, frequentador de clubes, conferências, recitais de poesia e música, e gabinetes de curiosidades. Para isso, fundaram ou ajudaram a fundar as instituições presumivelmente adequadas: academias, museus, escolas, bibliotecas, e um Teatro Nacional, em Lisboa.”

Retirando-se da linha da frente das batalhas políticas e mais dedicado à vida privada e familiar, centrada em Santarém, Passos Manuel nunca mais deixou de ser figura preponderante e tribuno prestigiado na política portuguesa do seu tempo, marcando com grandes peças de oratória momentos fortes da vida parlamentar. Em 1846, ainda estaria na Junta da Estremadura, na sequência da Maria da Fonte, e logo na Patuleia e na Junta do Porto, com o seu irmão, que presidia o município nortenho, mas seria sobretudo uma forte presença conciliadora, evitando ou pondo termo a enfrentamentos de guerra civil.

Foi um grande e dedicado idealista. E é sabido como a experiência, sobretudo depois dos fortes desapontamentos de 1837, o foi tornando mais sábio e algo desiludido com as dinâmicas concretas da política, quando os ideais são atropelados por interesses, dichotes e invejas. Conta VERÍSSIMO SERRÃO: “Que voz mais pungente que a do antigo chefe do Setembrismo, agora consagrado aos labores da vida agrícola? Na abertura da sessão parlamentar de 1845, assim se exprimia Passos Manuel: «Há uns poucos de anos que o dia da abertura dos nossos parlamentos se pode considerar um dia nefasto, seguido de muitos dias nefastíssimos.» Mais um exemplo a juntar a tantos outros em que não se escondia a desilusão pelos rumos da vida política na fase de 1834 a 1850.”


*

* *
Nos 150 anos que agora celebramos, para confirmarmos como dá tantas vezes a ideia de que a História se repete, podemos lembrar que Passos Manuel, ministro do Reino, também teve que haver-se com a sua troika: os embaixadores de Inglaterra, de França e da Bélgica que, desconfiados dos vintistas, empurraram a jovem rainha D. Maria II à aventura da Belenzada, de que Passos Manuel se sairia com mão de mestre, levando a monarca a recuar com honra e triunfando ele em toda a linha.
E, investido também na pasta da Fazenda, logo teve que enfrentar um problema nosso velho conhecido: o défice!

Ouçamos o relato de VERÍSSIMO SERRÃO: “Em meados de Abril [de 1837], foi possível a Passos Manuel apresentar o Orçamento Geral do Estado, que diminuía o défice de 3.585.792$243 réis [a fabulosa quantia de 17.885,86 €, na moeda de hoje] para 1.923.233$613 réis. O ministro explicava os esforços feitos para equilibrar as finanças públicas, não se escusando a dar as explicações pedidas pelos deputados da ala cartista: «as circunstâncias actuaes são arduas, o presente é terrível, mas o futuro pode ser esperançoso e feliz, mormente se o sistema da fazenda pública receber os melhoramentos necessários e que se devem esperar da vossa sabedoria».”

Na moeda de hoje, cortou um “défice colossal” de 17.900 euros para quase metade: 9.593,05 €!

O ministro Vitor Gaspar não tem, assim, razões para desesperar. Valha-nos Passos Manuel!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O "cluster" do pastel de nata



Há dias, a bancada do PS quis gozar com o ministro Álvaro Santos Pereira, por ter falado no pastel de nata, no quadro de uma conferência sobre o "made in Portugal" e a internacionalização da economia. Houve - e há - mais gente chique a procurar pôr o ministro a ridículo.

À noite, na RTP-Informação, no "Vice Versa", confrontado com a questão, defendi o ministro da Economia, explicando por que acho certeiras e pertinentes as palavras que disse. Mas há - e bem - quem ache que eu deveria ter sido ainda mais enfático.

Omitindo identidades, deixo, aqui, um email que recebi, há bocado:
Estive a assistir ao programa de TV em que apareceste e tive pena de não conheceres, ou não teres presente, um verdadeiro sucesso que é a comercialização dos direitos de fabrico do “melhor bolo de chocolate do mundo”.
O protagonista deste sucesso é o meu compadre XXXXX, que, após ter inventado o “bolo de chocolate” que continua a comercializar na sua loja de YYYYY, registou o nome a nível mundial e agora vive dos direitos que lhe vão chegando das mais variadas partes do Mundo: São Paulo, Madrid, New York, Sydney, etc.
Será uma gota de água neste nosso copo tão vazio, mas não deixa de constituir razão ao que o Ministro advoga de serem encaradas atitudes semelhantes a estas.
Também, pelo menos em Londres, há um português que tem tido sucesso com os seus pastéis de nata.
Tem razão. É bem verdade.

Passos Coelho esteve bem, por isso, ao insistir, hoje, na mesma linha e não cair na casca de banana que lhe estenderam. Em política, muitas vezes, gaguejar é morrer.

Nós não venderíamos um só sapato no mundo ou uma única garrafa de vinho, se nos guiássemos pelos tiques chiques da gente fina. O mundo real é outra coisa.

Max Weber e Angela Merkel

O embaixador alemão Helmut Elfenkaemper

O embaixador da Alemanha em Lisboa, Helmut Elfenkämper, é o próximo orador da TERTÚLIA DIPLOMÁTICA, na próxima terça-feira, na Livraria Férin. 

Nascido pouco depois do fim da guerra, em 1947, na Renânia do Norte-Vestfália, em Rheine, perto da fronteira holandesa, Helmut Elfenkämper concluiu formação universitária em Ciências Jurídicas, em História e em Língua e Literatura Francesa. Desde Setembro de 2009 é o embaixador em Portugal, onde já tinha estado de 1993 a 1997, como Chefe Adjunto da missão: conhece-nos bem e é um bom amigo, seguidor atento da vida portuguesa e sempre pronto a estreitar o diálogo luso-alemão, de tão fortes e importantes tradições entre nós, em especial desde a consolidação da democracia em Portugal. Não é demais recordar o apoio da República Federal da Alemanha e das suas fundações políticas nos primeiros anos do regime democrático.

Helmut Elfenkämper é um diplomata experimentado. Ingressou na carreira diplomática há trinta e seis anos, logo após sair da Universidade. Além de Lisboa, ocupou postos diplomáticos em Varsóvia (ainda no tempo do regime comunista), Nova Iorque, Paris e Praga e desempenhou funções dirigentes no Ministério, nos serviços da OSCE, na Divisão da Europa Central e do Leste e no Planeamento Estratégico.

Foi uma das estrelas dos “Colóquios Diplomáticos” que promovi na Assembleia da República, quando fui presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros. Estávamos, então, em meados de 2010, quando tanto se comentava – e criticava – a demora do Governo de Angela Merkel em reagir à crise da Grécia. E o embaixador ajudou-nos a compreender um pouco melhor os sentimentos e preocupações dominantes da sociedade alemã, que, naturalmente, condicionam a acção do seu governo.

Agora, o embaixador Helmut Elfenkämper irá voltar, de certo modo, ao mesmo tema, numa altura em que a acção liderante da Alemanha e da dupla chamada "Merkozy" continuam debaixo de intenso escrutínio. Fá-lo-á por uma perspectiva mais penetrante: o pensamento profundo da Alemanha, ilustrado a partir de uma obra clássica (já centenária) do grande economista e sociólogo alemão, Max Weber, «Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus» (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), onde aflora a conhecida ideia da afinidade entre protestantismo e o desenvolvimento do espírito comercial moderno, na medida em que a ética protestante legitimou claramente, no plano ético, a busca racional do ganho económico. Um livro com escritos de 1904 e 1905.

Tem-se falado muito da ética luterana por detrás da reflexão e análise da Chanceler Angela Merkel. Em que medida Max Weber nos ajuda a compreendê-la? Em que medida Max Weber e o espírito alemão, bem como o quadro concreto da actual situação económica e social da Alemanha, nos permitem compreender melhor a política do Governo de Berlim, a acção e as afirmações dos seus principais actores, e antecipar a sua provável evolução?

O embaixador Elfenkämper ajudar-nos-á também, sem dúvida, a conhecer e a interpretar o intenso debate democrático que existe na própria sociedade alemã sobre a política europeia da CDU/CSU, da coligação de Governo e de Angela Merkel. Curiosamente, no mesmo dia (17 de Janeiro) em que se espera a eleição de outro alemão para a presidência do Parlamento Europeu: o social-democrata Martin Schulz, que, ao contrário, tem criticado fortemente as posições da Chanceler Angela Merkel. 

Para onde vai a Alemanha? E para onde conduz a Europa? Estas as questões que nos bailam no espírito. A palavra ao embaixador Helmut Elfenkämper. Tudo isto, bem entendido, com estrito respeito da regra de Chatham House, que rege a participação de qualificados diplomatas nas nossas sessões. O que se passa na Tertúlia Diplomática pode ser reportado nas suas conclusões e apreciação geral, mas, nomeadamente quanto às intervenções dos diplomatas, não devem ser feitas citações, não devendo ser atribuídas opiniões ou informações a A ou a B. No final, todos estaremos à disposição de quem o pretenda para quaisquer declarações ou comentários em "on", sem quebra daquela regra da Tertúlia.

Amanhã, terça-feira, 17 de Janeiro, o encontro é na Livraria Férin (ao Chiado), pelas 18:30 horas, para mais uma Tertúlia Diplomática, uma parceria Avenida da Liberdade/Livraria Férin, com o apoio da Rádio Renascença e do Diário Económico como media partners.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Porquê o medo, neste debate da maçonaria?


Nos comentários abundantes sobre a questão da maçonaria, que recentemente explodiu na comunicação social, e sobre a divulgação, ou não, da condição de maçon, são manifestas as tentativas de condicionamento das posições de cada um e da própria liberdade do debate. 

Não falo do propósito de alguns de que todo o ruído e a algazarra geral sirvam para desviar as atenções e acabar deixando na sombra a questão que tudo desencadeou, embrulhando e obscurecendo as inquirições e debates na 1ª Comissão parlamentar: houve, ou não houve, ilegitimamente, manipulação e passagem de informações para serviço de interesses particulares, a partir de serviços secretos e no quadro de solidariedades maçónicas? E que consequências efectivas se retiram? Nem falo também do interesse de tudo deixar na mesma, quer quanto a políticos, quer quanto a magistraturas e outros poderes ou corpos do Estado, envolto num manto de secretismo e de ignotas teias de cumplicidade, fomentando para isso uma pura “restolhada” de frases soltas e volteio ideológico.

Falo da tentativa de condicionar o debate sobre a divulgação pública da condição maçónica, convocando apressados fantasmas. Primeiro exemplo: Almeida Santos, ao comparar este debate com uma “perseguição aos maçons” e ao decretar que isto “é o regresso ao Portugal mais nojento do salazarismo”. Segundo exemplo: Manuel Alegre, ao apelidar de “recidiva salazarenta” a ideia de uma obrigação legal de declaração. 

Importa desmistificar este paralelo apressado do quadro actual com a ditadura do Estado Novo. Desde logo, se esconder era legítimo e 100 por cento compreensível sob uma ditadura que proibia a diferença política e a liberdade cívica, o que justamente não se entende é o secretismo numa sociedade e num regime democráticos, livres e abertos. 

Além disso, não negando as proibições e perseguições ocorridas sob o Estado Novo, sobretudo nas décadas iniciais, importa recordar que também houve maçons influentes no regime de Salazar e Marcelo Caetano, citando-se normalmente, entre vários outros, os nomes de Albino dos Reis e Byssaia Barreto (grandes amigos de Salazar), do Almirante Sarmento Rodrigues (que foi ministro do Ultramar), do Marechal Carmona (que foi, longamente, Presidente da República) e do Prof. José Alberto dos Reis (salvo erro, o Presidente da Assembleia Nacional ao tempo da aprovação da Lei nº 1901, de 21 de Maio de 1935, que proibiu as associações secretas). E houve mais. As perseguições não eram para todos… 

É o próprio quadro de ditadura que legitima a clandestinidade e o segredo. Mas, não havendo ditadura e perseguição, esconde-se o quê, porquê e para quê? 

Dir-se-á que são questões privadas – e, de facto, se assim fosse, o direito de reserva sobre factos da vida privada é direito fundamental de cada um. Mas não é a maçonaria uma escola de virtudes cívicas e de valores e ideais na vida pública? Então, que tem isso de privado? Por que não fazer público?

A questão fundamental é esta: quem esconde, por que motivo esconde? O que quer esconder? Para que quer esconder? Normalmente só escondemos aquilo que nos envergonha e embaraça. Só escondemos o que é “mau”. 

A suspeita não resulta de qualquer “perseguição”. A desconfiança decorre do próprio segredo: do propósito claro de dissimulação e secretismo. Desconfiar é natural. Não desconfiar é que seria estranho.

O debate deve, por isso, prosseguir. Sobretudo, tem que haver conclusões claras: quer sobre os factos estabelecidos nas audições e debates da 1ª Comissão parlamentar, quer sobre esta outra questão mais geral. A democracia, o funcionamento superior do Estado e a Justiça não podem viver com saúde no quadro de suspeitas generalizadas e de obscuras solidariedades ou cumplicidades. 

Foi certeiro Mário Soares, ao considerar “démodée” a pertença maçónica. Mas não podemos evitar o debate e fugir a conclusões claras, a bem da democracia, da liberdade, da credibilidade pública e da seriedade do Estado.

EURONEWS português: Portugal no mundo inteiro



Às vezes, ouve-se dizer muito disparate sobre o que é o Euronews. Há quem pense que só há lá meia dúzia de intérpretes a fazer a dobragem de uma emissão estrangeira. Nada de mais errado.

A equipa de língua portuguesa, que assegura mais de 8.700 horas de emissão anuais e os conteúdos do portal Internet, é composta por 33 jornalistas, dos quais 16 residentes.

Além da emissão geral, esta equipa produz peças noticiosas de foco português e lusófono, com conteúdos de política, economia, desporto, sociedade, cultura, ciência ou informação geral [Souto Moura PT DE; eleições 2011 PT ES; troika PT EN; OE 2012 PT IT; SLBenfica PT AR; emigração PT FR; EDP PT RU], que são simultaneamente difundidas para todo o mundo em todas as diferentes línguas do canal: isto é, em 11 línguas, para 155 países em todos os continentes, chegando a 350 milhões de lares e podendo ser entendidas na própria língua por mais de metade da população mundial.

É Portugal no mundo inteiro.

Além da cobertura das nossas eleições e de acontecimentos nacionais de grande destaque e repercussão, em Portugal ou na lusofonia (exemplo: a morte de Cesária Évora PT TU EN UK), refiro, aqui, apenas algumas das peças de Magazine produzidas recentemente por iniciativa de jornalistas portugueses e difundidas em todo o mundo nas diferentes línguas do canal.  

Magazine cultural de dois minutos: 

Magazine de Ciência e Tecnologia:

Learning World

Internet texto:

Se não houvesse uma equipa portuguesa nada disto teria ido para o ar. Além do servico público de informação europeia/internacional e da promoção da lingua portuguesa no mundo, temos um papel de promoçãoo da imagem de Portugal mostrando as boas coisas que fazemos no dominio científico e cultural em 11 línguas.

Só por inadvertência podíamos acabar com isto. Ou pior: por algum capricho desastroso.


A empresa do Euronews




Muita gente não sabe como se reparte o capital social da empresa titular do Euronews. Aqui vai:

Actionnaires/Shareholders
%
1
France Télévisions – France
23,93
2
RAI – Italie
21,54
3
RTR – Russie
15,98
4
TRT – Turquie
14,81
5
SSR – Suisse
9,15
6
SNRT – Maroc
6,00
[Total actionnaires A / total A shareholders
91,41%]
7
TVR – Roumanie
1,64
8
RTP – Portugal
1,39
9
NTU – Ukraine
1,01
10
RTE – Irlande
0,94
11
YLE – Finlande
0,89
12
RTBF – Belgique
0,61
13
TV4 – Suède
0,51
14
ENTV – Algérie
0,33
15
ERT – Grèce
0,32
16
ERTU – Egypte
0,29
17
CyBC – Chypre
0,19
18
ERTT – Tunisie
0,18
19
RTV-SLO – Slovénie
0,13
20
PBS – Malte
0,08
21
CT – République Tchèque
0,08
[Total actionnaires B / total B shareholders
8,59%]

Aproveito para recordar o meu artigo de 28 de Novembro passado.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Na "mouche"


A explicação da Standard & Poor's, para justificar a sua sentença mais recente, é absolutamente certeira: os líderes europeus não prestam. Diz o senhor Moritz Kraemer, chefe da respectiva divisão europeia para a dívida soberana, que a resposta dos líderes europeus à crise da dívida soberana «não está à altura» dos riscos. Na mouche!

Pena é que, em vez de baixarem o rating aos líderes, continuem a atingir países inteiros e a flagelar economias, às vezes em moldes completamente irresponsáveis e nem sempre compreensíveis.

A somar a todas as suas responsabilidades passadas, estas agências de rating (Fitch, Moody's e Standard & Poor's) são da mesma cepa dos líderes europeus que criticam: não estão à altura dos riscos.


Há lutos extraordinários



O pai de uma cunhada minha adoeceu há três anos. Uma coisa cancerosa. Primeiro, foi operado - correu bem. Depois, começou a piorar. De há dois anos para cá, o quadro foi decaindo, pouco a pouco. Destino marcado.

Passou o último Natal ainda relativamente bem. Virado o ano, a situação agravou-se rapidamente. Há uma semana, entrou em coma. Aguardávamos a notícia da sua morte a qualquer momento.

Na passada quinta-feira, chegou triste notícia. Morreu... a mãe. Não esperávamos. Telefonei à minha cunhada a exprimir os sentimentos e a consolá-la. Há alturas assim.

Na sexta-feira, faleceu o pai, doente desde há três anos. Telefonei de novo a dar os sentimentos. Acho que, do nervoso, ainda rimos ao telefone. Primeiro, quinta... depois, sexta-feira. Há alturas assim, em que as páginas parecem virar todas ao mesmo tempo.

Estou a chegar, agora mesmo, da missa de corpo presente. O salmo era bem conhecido: «O Senhor é meu pastor, nada me faltará.» Lá estavam os dois caixões: da Maria Eugénia, 72 anos, e do Manuel, 76 anos. Sempre lado a lado. Tinham começado a namorar em 1961. Depois, casaram e tiveram os filhos; e netos também. Celebraram as Bodas de Prata, já não as Bodas de Ouro. Partiram juntos. Com menos de 24 horas de diferença. O enterro é amanhã de manhã.

Há histórias absolutamente extraordinárias.

Estados Unidos fecham primeira série da Tertúlia Diplomática



O embaixador Alan J. Katz aceitou ser o orador da última sessão da primeira série da Tertúlia Diplomática "Portugal, a Europa e o Mundo", que está marcada para 10 de Julho.

Ficou fechado o elenco de embaixadores desta primeira série da Tertúlia, um êxito já da parceria Avenida da Liberdade/Livraria Férin.

Depois das sessões de:
  • 21-Nov-2011 | Katarzyna Skórzyńska - embaixadora da Polónia
  • 13-Dez-2011 | Markéta Šarbochová - embaixadora da República Checa

teremos as seguintes sessões:
  • 17-Jan-2012 | Helmut Elfenkämper - embaixador da Alemanha
  • 28-Fev-2012 | Helder Lucas - embaixador, chefe da Missão de Angola junto da CPLP
  • 13-Mar-2012 | Pascal Teixeira da Silva - embaixador de França
  • 10-Abr-2012 | Norbert Konkoly - embaixador da Hungria
  • 15-Mai-2012 | Francisco Vilar - embaixador de Espanha
  • 19-Jun-2012 | Natália Carrascalão - embaixadora de Timor-Leste
  • 10-jul-2012 | Alan J. Katz - embaixador dos Estados Unidos da América

A  Tertúlia Diplomática está prevista reiniciar-se a 9 de Outubro, para uma segunda série, de novo com sessões mensais.